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GONTHIER-LOUIS FINK

FAIVRE, Antoine (org.). Cahiers de l’Hermétisme – Goethe. Paris: A. Michel, 1980.

Gonthier-Louis Fink, autor de uma bela tese sobre o conto maravilhoso (Naissance et apogée du conte merveilleux en Allemagne, Paris, Les Belles Lettres, 1966), apresenta dois artigos sobre A Serpente Verde. Em um deles, ele faz um balanço de uma crítica obcecada há quase dois séculos por esse relato enigmático; no outro, ele se empenha em distinguir a parte do esoterismo tradicional e a do hermetismo político que esse texto enigmático mistura de forma tão inextricável.

A NOVA MELUSINA

Se o Conto de 1795 nunca deixou de atrair os exegetas, La Nouvelle Mélusine encontrou poucos intérpretes; não que tenha sido considerada pouco digna de atenção — não faltam comentários elogiosos —, mas como se essa narrativa fosse simples demais para necessitar de uma explicação detalhada, muitas vezes se contentou em apontar as fontes presumíveis, esclarecer os aspectos autobiográficos e esboçar o sentido geral do conto, ora enfatizando a renúncia, ora a terceira parte. Assim, La Nouvelle Mélusine tornou-se a história de um alegre e despreocupado rapaz ou a de um jovem gênio, interrompido em seu ímpeto divino por um amor que ameaçava aprisioná-lo na vida cotidiana. Em ambos os casos, ignorava-se o caráter complexo desse conto, aparentemente límpido e, na verdade, profundamente enigmático. De fato, assim que se tenta compreender o seu significado, ele se esconde; nunca se consegue captar mais do que um detalhe. Assim, o relato corresponde bem ao que Goethe esperava do gênero: ele sabe despertar a curiosidade, prender a atenção, incitar a querer elucidar precipitadamente enigmas insolúveis, enviar pistas falsas, confundir a mente com uma progressão no estranho, suscitar compaixão e medo, comover e, por fim, acalmar a mente, fazendo vislumbrar por trás da aparente gravidade um sorriso ao mesmo tempo sereno e malicioso e, uma vez terminada a leitura, dar matéria à imaginação para continuar a tecer e à mente para meditar.

Já na primeira leitura, a estrutura tripartida do relato se impõe, mas quando se tenta ver o que liga a viagem, a confissão mítica de Melusina e a história dos pigmeus, constata-se que o mito, eixo central do conjunto, ilumina apenas parcialmente a primeira parte; embora ele condicione a terceira, o início e o fim do conto não parecem seguir na mesma direção. Para que servem as provações morais que a bela impõe ao seu cavaleiro servil se seus repetidos fracassos acabam por lhe valer a admissão no reino dos anões e torná-lo marido de uma princesa? Quase se poderia pensar que se trata de uma paródia de um conto de fadas moral. A menos que sirva de contraponto à terceira parte, mostrando a incompatibilidade dos amantes no plano social e moral, a primeira parte parece não acrescentar nada à última, que, pela diferença de tamanho entre Melusina e seu amante, parece simbolizar o problema do casamento desiguais. Assim, em vez de se complementarem harmoniosamente, as três partes parecem provocar o leitor e levantar mais questões do que resolver. Esse descompasso entre a primeira e a última parte, que também foi apontado pela crítica, poderia ser explicado pela gênese do conto? Esta não parece ser totalmente alheia a ele, assim como a tradição da lenda à qual Goethe alude logo no título. Ao chamar seu conto de “A Nova Melusina”, ele inicia um diálogo com a História de Melusina. Resta saber se a alusão serve para indicar uma filiação, uma modernização, como em O Novo José, ou se, pelo contrário, a tradição foi corrigida.


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