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MELUSINA, UM CONTO MORAL?
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Ao inserir A Nova Melusina em Anos de Viagem de Wilhelm Meister, Goethe lhe deu uma dupla introdução: além da do próprio narrador, o início do 6º capítulo e boa parte do 3º livro, dedicado à sociedade dos emigrantes da qual faz parte o Barbeiro, fornecem o quadro moral do relato.
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O Barbeiro havia aceitado calar-se sobre as banalidades cotidianas para não cair na tagarelice característica de sua profissão, revelando-se paradoxalmente excelente contador quando seus chefes lhe desatavam a língua.
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Wilhelm, o herói do romance, comparava o Barbeiro ao personagem do manto vermelho que, em Musäus, havia barbeado um fantasma — comparação destinada a preparar o leitor para o fantástico particular do relato.
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A maneira de contar corresponde não ao temperamento vivo do herói, mas à ponderação do Barbeiro, que, segundo a tradição clássica dos contadores da Renascença italiana e francesa, vai do particular ao geral e do geral ao particular, sugerindo que mesmo o evento mais extraordinário pertence ainda à experiência humana.
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O uso hábil do pretérito para acompanhar a progressão da ação, do presente para dar brilho a uma cena particular e do iterativo ou durativo para resumir os fatos e situá-los em seu contexto faz o relato avançar de forma regular e sem precipitação.
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Na introdução, o narrador toma distância do herói que foi, advertindo que havia vivido no presente sem se preocupar com o amanhã — diferença que não se deve apenas à idade, mas sobretudo a uma mudança de atitude: o herói recusava qualquer constrangimento, enquanto o Barbeiro havia reconhecido a necessidade de se submeter às leis da sociedade.
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Em vez de julgar retrospectivamente os atos de sua juventude, o narrador os relata em tom neutro, sem epítetos pejorativos, convidando o leitor a se colocar no lugar do personagem e apresentando os fatos tais como o herói os viveu, sem antecipar o que viria.
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O herói era vivo e interesseiro, pronto a lisonjear os poderosos do momento e a esquecê-los assim que surgisse partido melhor; atraído pelo dinheiro não para acumulá-lo, mas para gozar a vida, seu universo hedonista era limitado e rapidamente renovado.
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O que mais detestava era se comprometer e engajar o futuro; amava a aventura e fugia do casamento; salvo exceção, palavras e gestos não deixavam rastro em sua alma instável.
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Melusina aparece como uma grande dama que se distingue pelos talentos mundanos, pela conversação, pelo canto e pela mandolina, viajando numa carruagem a quatro cavalos, mas emancipada antes do tempo, dispensando criados e rodeada de certo mistério reforçado por uma tristeza inexplicada.
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Tudo a separava do alegre vagabundo: ele era consciente da desigualdade social, mas via na dama viajante solitária uma grande aventureira, o que o levava a se mostrar galante e atrevido.
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Melusina aproveitou os excessos do herói para condenar os ímpetos tão súbitos quanto violentos, advertindo que uma paixão cega arriscava comprometer a felicidade em vez de conduzi-la, e impôs ao herói condições que a instituíam como guia moral, à maneira da heroína de La Poupée de Bibiena.
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As primeiras instruções de Melusina pareciam fáceis e puramente formais — cuidar do cofre durante a viagem e depositá-lo cada noite numa peça fechada a chave —, mas o paralelo com as leis impostas ao herói do romance Wilhelm Meister sugere que a viagem era uma prova destinada a verificar em que medida o herói era capaz de superar seu egocentrismo.
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Enquanto para Wilhelm ou Lenardo a viagem devia arrancar o indivíduo de seu meio para torná-lo disponível, para o companheiro de Melusina, que não tinha laços e parecia incapaz de tê-los, deveria ser o inverso: fazer nascer a lassidão e o desejo de se fixar.
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Desde o início, sua maneira de viajar mostrava que não havia compreendido o sentido da prova: observava estritamente o ritual do cofre, mas queimava as etapas, desperdiçava o dinheiro e se perdia nos jogos — o primeiro fracasso lhe foi perdoado, e Melusina lhe impôs de novo as mesmas obrigações, advertindo-o contra as mulheres e o vinho.
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O relato progride mostrando como o herói se afunda cada vez mais no mal, tornando-se ao mesmo tempo prisioneiro do gênero de vida que levava e daquela que lhe permitia levá-lo, embora Melusina o tirasse de apuros, o curasse e o perdoasse sem nada exigir em troca.
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Na terceira fase da viagem, uma nova prova — emprestada à tradição de Jean d'Arras e Thüring von Ringoltingen — proibia o herói de divulgar o segredo de Melusina nem de lhe fazer censuras, especialmente em público.
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Ao descobrir a verdadeira natureza de Melusina, o herói foi profundamente perturbado; embora a temesse perder e a suplicasse que ficasse, nem mesmo esse medo bastou para provocar uma mudança, e ele acabou traindo o segredo ao chamá-la de ondina e de anãzinha num acesso de ciúme, compreendendo tarde demais que a havia perdido por sua culpa.
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A maneira de agir de Melusina levanta dúvidas sobre suas verdadeiras intenções: cada vez que o incentivava a superar a prova, agia simultaneamente como se ignorasse que ele era fraco, e o herói permaneceu do começo ao fim o mesmo alegre vagabundo, sempre insoucioso, incapaz de aceitar qualquer regra moral.
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Esse fracasso faz Melusina aparecer sob uma luz ambígua, e ao final da primeira parte o leitor aguarda do mito não apenas a explicação das origens de Melusina, mas também a revelação de sua verdadeira natureza e de suas verdadeiras intenções.
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