CONTO – FOGOS-FÁTUOS, OURO E SERPENTE
Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.
No meio da noite, chamados impacientes despertam o velho Barqueiro; dois Fogos-Fátuos solicitam a travessia. Uma vez embarcados, não cessam de se agitar, de rir e de trocar ideias em uma língua desconhecida, mas com extrema volubilidade. Que representa esse binário ígneo, senão a vivacidade do belo espírito, que se compraz em discutir sobre todas as coisas de maneira brilhante, sem nada aprofundar? Poder-se-ia melhor simbolizar o espírito francês do século XVIII do que por esses alegres companheiros que, admitidos na barca religiosa, sobrecarregam de sarcasmos o náuta e nela se agitam como diabos em um benzedouro?
Para pagar sua travessia, eles se sacodem e fazem chover moedas de ouro na barca úmida. Isso prova que sua leviandade merece consideração. Esses loucos, que tocam em tudo com frivolidade, colhem verdades preciosas, as quais apenas desejam difundir, sem se preocupar com os estragos que podem resultar de revelações intempestivas. Uma única moeda de ouro, ao cair no Rio, nele teria desencadeado uma revolução. As ilusões religiosas mantêm a ordem social; tudo não passa de convenção na vida prática; por isso, o Barqueiro suplica aos Fogos-Fátuos que recolham seu ouro, no interesse de sua própria segurança. Como, uma vez emitida, a ideia não pode retornar à sua fonte, o Barqueiro é constrangido, para evitar uma catástrofe, a afastar cuidadosamente da água todo o ouro infausto.
Levado para a montanha, esse ouro luminoso é projetado em uma obscura fenda, onde é absorvido pela Serpente Verde, cujo corpo, após essa absorção, torna-se fosforescente. A verdade, desta vez, não é repelida: o misterioso réptil assimila-a com avidez, beneficiando-se imediatamente de uma iluminação mágica. Estimulada, ela busca a procedência do ouro e põe-se a perseguir os Fogos-Fátuos, sem poupar esforços e fadigas.
A Serpente figura aqui a tradição iniciática instintiva, que se traduz por um culto de ritos e símbolos incompreendidos. O ouro engolido e digerido ilumina interiormente e faz compreender o alcance das formas praticadas até então por rotina, por respeito à sua antiguidade ou em razão de uma vaga intuição de seu sentido oculto. O filosofismo tagarela dos Fogos-Fátuos teve repercussão sobre os sonhadores que se compraziam nas reminiscências de um passado desaparecido. Uma vez despertada a atenção, esses místicos quiseram esclarecer-se. Aproximaram-se dos belos espíritos discursivos sem temer, para tanto, descer das alturas para abrir caminho através dos pântanos da platitude e do charlatanismo.
A Velha Serpente parece unir em seus anéis toda a cadeia de associações ocultas que, através das eras, transmitiram usos e métodos cujo conhecimento deveria ser subtraído ao vulgo, às massas conduzidas pelo Rio. O mistério jamais deixou de ter seus hierofantes e seus fiéis, uns e outros muitas vezes reduzidos a nada discernir em meio às trevas sagradas. Tal foi por muito tempo o caso da Maçonaria, oriunda de corporações arquitetônicas da Idade Média que pretendiam vincular-se aos mais antigos agrupamentos construtivos. A partir do século XVII, um espírito novo penetrou gradualmente na antiquíssima organização que parecia fadada a desaparecer. Foi então que o ouro desdenhado pelo ensino oficial (o Barqueiro) caiu na fenda onde sonolentava a Serpente. Esta apressou-se em tornar suas as doutrinas humanistas da Renascença, que teriam agitado perigosamente o Rio. Depois, assim preparada, reuniu-se aos Fogos-Fátuos, ou seja, aos Enciclopedistas e aos belos espíritos raciocinadores, que jamais careciam de explicações sobre tudo o que parecia misterioso.
Esses racionalistas, cujo domínio é a vertical (abstração, teoria, transcendência), deslumbram a pobre Cobra, condenada a rastejar horizontalmente sobre o solo do positivismo, do concreto e do realizável. No entanto, como ela solicita às Chamas leves informações sobre a procedência do ouro, que supõe ter caído diretamente do céu, os Fogos-Fátuos gargalham, enquanto se sacodem para fazer chover moedas de ouro, que se divertem ao ver devoradas pela Serpente.
Tornada luminosa nessa companhia folgazã, esta apressa-se em retornar à montanha e em esgueirar-se para a cripta cujo segredo a intriga.
A imensa Serpente é inofensiva; antes de ter provado o ouro, alimentava-se apenas de ervas tenras e bebia água cristalina. Criatura bondosa que ninguém teme, sente-se feliz em oferecer-se como ponte, ao meio-dia, aos amigos da bela Lília. Ela detém um segredo ignorado pelo Velho da Lâmpada, instruído, no entanto, nos supremos arcanos da sabedoria tradicional. Interiormente iluminada, o grande Python verde soube adivinhar a palavra de atualidade que permite anunciar que os tempos se cumpriram.
Não se trata de uma noção de ordem teórica ou abstrata, mas de uma evidência tornada sensível, uma palavra de ordem universalmente aceitável. A Serpente reencontra a Palavra perdida, restabelecendo o entendimento construtivo entre os obreiros momentaneamente desorientados da Grande Obra. É o ator mais enigmático do Märchen. Representa uma vida distinta daquela que flui com as águas do Rio, uma imperecível vitalidade, manifesta aos iniciados que podem dizer: A acácia me é conhecida.
Quando a Serpente se sacrifica, decompõe-se em pedras preciosas que o Rio recebe sem revolta. São materiais construtivos que retomam vida no seio das águas. Eles se multiplicam e se agregam por si mesmos, para fazer surgir das profundezas os pilares dessa ponte maravilhosa e indestrutível que assegura a felicidade dos povos. Ao renunciar ao seu tradicional mistério para comunicar-se às multidões que se tornaram iniciáveis, a Iniciação opera o milagre efetivo da universal reconciliação humana.
