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ALQUIMIA DO AMOR

CENTENO, Yvette. A Alquimia do Amor. Lisboa: Regra do Jogo, 1982.

  • A alquimia fundamenta-se na transformação de matérias imperfeitas em perfeitas, operando a liberação de substâncias puras a partir de estados impuros tanto no nível físico quanto no espiritual.
    • O processo de transmutação conduz à união de contrários ou conjunção, resultando em uma realidade superior onde as diferenciações se anulam.
    • A finalidade mística dessa transformação é a fusão do homem com a divindade, frequentemente mediada pelo fogo como agente que dissolve e une o espírito à sua origem.
  • A figura feminina desempenha um papel central como projeção do oposto a ser integrado e como força transformadora que assume diversas morfologias elementares ou divinas.
    • A mulher manifesta-se como sabedoria divina em tratados como Aurora Consurgens e Lumen de Lumine, onde a beleza numinosa guia o adepto em uma experiência de descida ao centro simbólico da terra.
    • As descrições tradicionais espiritualizam o objeto amado através de metais, pedras preciosas e astros, visando dignificar a matéria pela sua aproximação com o espírito e com Deus.
    • O olhar realista do século XIX, exemplificado por Cesário Verde, rompe com essa tradição ao banalizar a transformação através de elementos cotidianos e vegetais, eliminando a noção de qualidade superior.
  • O Cântico dos Cânticos oferece um repertório denso de símbolos onde o corpo humano é transfigurado por meio de analogias com os reinos animal, vegetal e astral.
    • A mulher é associada a elementos como a rosa de Saron, fontes de águas vivas e a aurora, que simboliza a conjunção primordial entre o Sol e a Lua.
    • O amado é transformado em figuras como o gamo ou em substâncias preciosas como ouro e safiras, inserindo o desejo em um contexto de intensidade sacra.
  • A água atua como o elemento indicador do corpo e do ato sexual, simbolizando a dissolução necessária para a fixação posterior do ouro da perfeição alquímica.
    • Nas Cantigas de Amigo, a transformação mútua em cervos e o ato de lavar os cabelos representam a preparação sexual que culmina na união consagrada pelo ouro.
    • A simbologia animal estende-se ao rouxinol e ao pássaro lascivo, aludindo cruamente à união física e à morte de amor como consumação carnal.
    • O corpo é frequentemente representado pelo jardim ou horto, local de encontro onde a fertilidade se manifesta através de sinais físicos como rosas na testa.
  • A aceitação do corpo do outro promove a mutação do objeto de repulsa em objeto de desejo, processo visível nas transformações de príncipes e princesas nos contos populares.
    • O problema da diferenciação física e da forma, como no conto das orelhas de princesa em uma burra, reflete as tensões sociais e conceituais sobre a aceitação da alteridade e a evolução de mentalidades.
    • Cada época define seu código de ligação ao corpo, sendo que na alquimia o Sol macho e a Lua fêmea acasalam-se para realizar a Obra de união dos contrários.
  • O bestiário alquímico utiliza animais para representar instintos e impulsos que devem ser integrados na busca pelo amadurecimento e pela totalidade humana.
    • A floresta e o mar simbolizam o corpo onde o espírito e a alma, representados por peixes ou unicórnios, devem ser unidos.
    • A oposição entre o caracol e os pássaros ilustra o conflito entre o fixo (corpo) e o volátil (espírito) no processo de aperfeiçoamento interior.
  • A poesia de Luís de Camões transfigura a matéria e os elementos naturais através do resplendor espiritualizante do Sol e da Lua, divinizando a forma feminina.
    • A descrição camoniana utiliza rubis, rosas, neve e ouro para construir uma beleza angélica onde os olhos se tornam sóis de luz apurada.
    • Essa mesma linguagem de tesouros e matérias sutis é aplicada à Virgem Maria, projetando a mulher em uma dimensão espiritual que transcende o mundo secular.
  • O jogo dos contrários no amor pode atuar como uma sublimação que faz esquecer a amante real ou como uma prefiguração do encontro físico primordial.
    • O coito é interpretado por correntes místicas como símbolo do êxtase da criação, evocando a harmonia atingida pela integração da Anima.
    • A união com o oposto feminino pode conduzir à vida e à sabedoria santa ou, em casos de espiritualização excessiva, resultar em frieza e desumanização, onde o coração se torna diamante.
  • A modernidade poética de Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud introduz uma alquimia da dor, onde o ouro transmuta-se em ferro e a beleza é tocada pelo horror e pela morte.
    • Cesário Verde analisa o corpo de forma puramente racional, decompondo a figura feminina em vegetais e legumes, o que resulta em imagens de virgens linfáticas e camélias meladas.
    • Em Arthur Rimbaud, a falha ou abuso da imagem feminina desloca a alquimia para o verbo, buscando a eternidade na união do Sol (masculino) com o mar (feminino).
  • A Anima personifica as tendências femininas do inconsciente masculino, podendo manifestar-se de forma benéfica como guia ou maléfica como força destruidora.
    • Figuras como a Lorelei ou a ondina de Johann Wolfgang von Goethe exemplificam o aspecto nefasto da Anima que atrai o homem para o aniquilamento no mar.
    • A imagem da mulher-aranha de Herberto Helder simboliza uma força materna opressiva que tece a loucura e a morte em vez de construir o destino.
  • A experiência da morte é apresentada como uma transformação profunda e totalizante, frequentemente personificada por figuras maternas ou iniciadoras.
    • Em Demian de Hermann Hesse, Frau Eva atua como força cósmica que transmuta a matéria humana em energia espiritual.
    • Rainer Maria Rilke descreve a morte como um regresso à origem e uma dissolução criadora que concentra o ser na sua essência.
  • O homem constitui o centro e o local de todas as mutações alquímicas, unindo em seu corpo, alma e espírito o par de opostos psíquicos.
    • Fernando Pessoa, por meio de Alberto Caeiro, afirma que o corpo é a alma dos deuses e, portanto, eterno, fundamentando o pensamento nas sensações físicas.
    • O poema de Alberto Pimenta ilustra a criação de um corpo vivo a partir do nada absoluto, culminando na imagem da palmeira invertida como árvore da vida voltada para a terra.
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