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Loucura que vem das Ninfas

CALASSO, Roberto. La follia che viene dalle Ninfe. Milano: Adelphi, 2005.

  • O primeiro ser ao qual Apolo se dirigiu na terra foi uma Ninfa chamada Telpusa, que imediatamente enganou o deus — pois Apolo buscava um lugar onde fundar seu culto e o hino homérico apresenta, com a maior rapidez e densidade, o que a Ninfa representa na economia divina dos gregos.
    • Apolo vinha de Calcis e havia atravessado a Beócia — vasta planície então coberta de floresta espessa, onde Tebas ainda não existia
    • O hino homérico descreve a passagem do masculino chṍros — “lugar intacto” — para um ser feminino, sem transição: “Tu te detiveste perto dela e lhe dirigiste estas palavras”
    • Apḗmōn significa “intacto” no sentido de “indene”, “inteiro” — o que não sofreu as pḗmata, as calamidades vindas dos deuses e dos homens; Telpusa, porém, considerou a chegada de Apolo como uma calamidade
    • Ocultando sua cólera, Telpusa aconselhou o deus a ir para outro lugar, pois seu majestoso santuário seria perturbado pelo “fragor das éguas e das mulas” que bebiam em suas fontes sagradas — e os visitantes olhariam mais para as éguas do que para o templo, acrescentou com ironia deliciosa e pérfida
    • Telpusa indicou um lugar áspero e escarpado, onde as rochas do Parnaso se fendiam numa garganta
  • Seguindo o conselho de Telpusa sem o saber, Apolo descobriu o lugar que seria Delfos — com sua “fonte de belas águas” guardada pelos anéis de uma enorme serpente fêmea que matava todos que encontrava — e foi lá que realizou seu grande feito e sua grande falta.
    • Apolo matou Python e deixou-a se putrefar ao sol
    • Ao compreender que a primeira “fonte de belas águas” o havia enganado, Apolo voltou sobre seus passos e provocou um desmoronamento de rochas sobre a fonte de Telpusa para humilhar sua corrente
    • Ergueu um altar e o dedicou a si mesmo, chegando a roubar o próprio nome de Telpusa, fazendo-se chamar Apolo Telpúsio
  • O hino homérico revela, por meio de detalhes significativos, que o mesmo evento se manifestou duas vezes — uma no diálogo enganoso entre o deus e a Ninfa, outra no duelo silencioso entre o deus-arqueiro e a serpente fêmea enrolada — e em ambos os casos estava em jogo um poder do qual alguém era despossessado.
    • Em ambos os lugares Apolo encontrou uma “fonte de belas águas” — descrita com fórmula idêntica no texto
    • No hino, Python é um ser feminino, como aparece também em outras tradições
    • A Ninfa e a Serpente fêmea eram guardiãs e depositárias de um conhecimento oracular que Apolo lhes subtraiu
    • Em todos os relacionamentos de Apolo com as Ninfas — tortuosos, de atração, perseguição e fuga, felizes apenas uma vez, quando Apolo se metamorfoseou em lobo em seu coito com a Ninfa Cirene — permanece sempre o pressuposto de que Apolo foi o primeiro invasor e usurpador de um saber que não lhe pertencia: um saber líquido, fluido, ao qual o deus imporia seu metro
  • Apolo era devedor das Ninfas não apenas no conhecimento oracular, mas também no uso do arco — foram elas que lhe ensinaram a tensar a arma — e no domínio da adivinhação, ensinado pelas Trias, três jovens aladas que voejavam pelo Parnaso alimentando-se de mel.
    • As Trias são identificadas com as três Ninfas da Gruta Coríciana nas alturas do Parnaso
    • As Trias dizem a verdade se puderam comer mel, mas mentem e rodopiam no ar se dele são privadas
    • Apolo se mostrou impaciente em se livrar delas e as ofereceu a Hermes como presente envenenado, com palavras que as humilhavam — como se as Trias representassem as baixas obras da adivinhação e devessem permanecer para sempre num recinto infantil do conhecimento
    • Tanto com Telpusa quanto com as Trias, Apolo seguiu o mesmo impulso: rebaixar e humiliar seres femininos portadores de um saber que o precedia
    • O lugar deixado livre pelas Trias viria a ser ocupado pelas Musas — que, quando habitavam ainda no Hélicon, eram precisamente três, e ao falar a Hesíodo na Teogonia se declaravam enunciadoras tanto da verdade quanto da mentira, exatamente como as Trias, mas silenciavam um detalhe, por ordem de Apolo: o mel
    • Segundo Filóstrato, quando os atenienses partiram para fundar colônias na Jônia, as Musas, sob a forma de abelhas, conduziram a frota — e a Pítia era chamada “a abelha délfica”
    • Apolo foi obrigado a apagar toda lembrança do mel, assim como quis substituir o segundo templo de Delfos — construção em cera e penas das próprias abelhas — por um templo de bronze; só então poderia reivindicar para si o conhecimento exclusivo do pensamento de Zeus — e essa foi a primeira e mais pura mentira de Apolo
  • Os escoliastas e lexicógrafos revelam que Apolo mentia — pois bem antes dele a própria serpente Python praticara a mântica em Delfos, Dioniso já proferira oráculos ali, e Plutarco assegura que a soberania délfica era partilhada em partes iguais entre Apolo e Dioniso.
    • Por trás de todas essas vicissitudes se delineava um evento obscuro: à espera do “filho mais forte que o pai”, segundo a vaticínio de Têmis, Zeus quis partilhar a soberania entre Apolo e Dioniso, conferindo a ambos o mesmo meio de acesso ao conhecimento: a possessão
    • Na época da plenitude de Zeus, a metamorfose reinava como estado normal da manifestação; quando a profecia de Têmis já havia começado a se cumprir, a realidade se endureceu e os objetos se fixaram — a metamorfose migrou para o invisível, para o reino selado do espírito, tornando-se conhecimento
    • Esse conhecimento por metamorfose se concentrava num lugar que era ao mesmo tempo uma fonte, uma serpente e uma Ninfa — e que esses três seres fossem, no aparecer, três modalidades de um único ser é o que os textos e as imagens nos assinalaram durante séculos
  • Em apêndice a seu estudo sobre o mito délfico, Python, Joseph Fontenrose observa que o escritor nômade e libertino Norman Douglas havia antecipado descobertas às quais o próprio Fontenrose e outros pesquisadores chegariam apenas “após árduo trabalho de pesquisa erudita”.
    • No capítulo “Dragões” de Old Calabria, Douglas formulou a pergunta brutal que entreabre as portas: “O que é um dragão?” — e respondeu: “Um animal que olha e observa”
    • Drákōn deriva de dérkomai, que significa “ter uma visão penetrante”
    • Douglas respondeu sobre qual é o olho do dragão: a fonte — dragão e fonte são partes de um mesmo corpo
    • O hebraico ayin significa tanto “olho” quanto “fonte”, segundo Fontenrose
    • A água vítrea da fonte não é apenas protegida pelos anéis do dragão — ela mesma é seu olhar mortífero que escruta todo estrangeiro
    • Para conquistar a soberania sobre a possessão, Apolo teve de se bater com outro olho, incorporando o olhar de Python ao matá-la — assim como Atena portava no peito, na égide, o olhar de sua vítima, a Górgona
  • O conhecimento pela possessão — descoberta em que convergem Dioniso e Apolo — não é algo que se possa acrescentar a uma concepção já estabelecida como apêndice, pois se aceita, subverte de dentro toda ordem preexistente, como Dioniso abalou os muros da incrédula Tebas.
    • Se o conhecimento que funda Delfos não é apenas fruto do engano de sacerdotes astutos, então a voz do sujeito que conhece será sempre ao menos uma voz dupla — a voz da phrónēsis que controla, mas também uma palavra que acolhe em si um deus, éntheos
    • Essa voz dupla corresponde a um olhar duplo: o olhar que observa e o olhar que contempla quem observa — o olho de Apolo e o olho de Python oculto nele, a Ninfa que jorra no invisível
    • Entendendo o verbo ser como sinal do que os videntes vedânticos chamavam bandhu — as “conexões” que dão significado ao que existe — pode-se dizer que a fonte é a serpente, a fonte é também a Ninfa, e portanto a Ninfa é a serpente
    • O que se reunirá em Melusina em um único corpo se dividiu em Delfos em três seres — Python, Telpusa, a fonte — porque o apolíneo é antes de tudo o que escande e separa: o metro
    • Por isso as Ninfas podem ser tanto salvadoras quanto devastadoras — ou as duas coisas ao mesmo tempo
    • Telpusa era chamada Telpusa Erínia — e na Teogonia de Hesíodo as misteriosas Ninfas dos freixos, as Mélias, nasceram junto com as Erínias do sangue que jorrou da ferida aberta no ventre do pai Urano pela foice de Cronos
    • As Ninfas devem ser akoímētoi — “insones” — porque assim são os dragões, porque a fonte jorra sem interrupção e seu olhar não cessa de velar
  • Pouco antes de chegar a Tebas, na cidade de Plateias, a batalha de 479 a.C. em que os gregos venceram os persas dissipou para sempre aquela ameaça — e só após Plateias a Europa foi irredutível e definitivamente Europa, liberta da eventualidade de ser engolida pela Ásia.
    • Antes da batalha, segundo Plutarco, o oráculo de Delfos indicou precisamente quais atos de devoção os atenienses deveriam cumprir para vencer — entre eles, rezar às Ninfas Esfragítidas, o único caso em que as Ninfas são evocadas por ocasião de uma guerra
    • Pausânias menciona uma gruta das Ninfas chamada Esfragídion, antiga localização de um santuário oracular; a palavra sphragís significa “selo”, e Bouché-Leclercq propôs traduzir Sphragítides como “as seladas”, isto é, “as misteriosas”
    • O segredo das Ninfas foi tão bem protegido quanto o segredo de Elêusis — a ponto de não ter sequer sido reconhecido
    • Martin P. Nilsson escreveu em sua Geschichte der griechischen Religion que “as Ninfas tiveram a ver com a mântica apenas por acaso” e que “as Ninfas encarnavam a vida da natureza que prodiga a fertilidade” — e a pesquisa se sentiu satisfeita com essa frase
    • “Fertilidade” é a palavra que mais prejuízos causou aos estudos mitológicos e religiosos desde a época de Mannhardt: é fácil relacionar à “fertilidade” qualquer fenômeno religioso ou qualquer deus do mundo antigo, mas isso equivale a uma cadeia de tautologias — como se um antropólogo de outro mundo pensasse explicar os fenômenos mais díspares do mundo atual afirmando que estão ligados à produção; a natureza era o referente último do mundo antigo, como para nós é a sociedade em sua autossuficiência demoníaca, e qualquer deus pode receber esses “trajes prontos” da fertilidade, como os chamou Georges Dumézil
  • No trecho da Vida de Aristides em que Plutarco menciona as Ninfas Esfragítidas, uma observação lateral revela que sua gruta foi antigamente sede de um oráculo e que muitos habitantes das redondezas eram possuídos — chamados nymphólēptoi.
    • Nymphólēptos significa “tomado, capturado, raptado pelas Ninfas”
    • O termo é um elo de uma cadeia de palavras compostas do mesmo modo, usando o verbo lambánō: theólēptos indica a possessão divina em geral; e existem ainda mousólēptos, daimoniólēptos, phoibólēptos, demetriólēptos
    • Os gregos chamavam o possuído de kátochos — e o léxico da possessão revela uma multiplicidade de termos e uma fineza de diferenciações que se perderam nas línguas modernas
  • Na Ética a Eudemo de Aristóteles, os nymphólēptoi aparecem surpreendentemente a propósito da “felicidade” — eudaimonía — entre cinco tipos possíveis de felicidade, sendo os dois últimos de caráter abrupto: a possessão pela Ninfa ou pelo divino, e a sorte.
    • Aristóteles escreveu: “Ou bem, talvez, a felicidade não possa nos vir de nenhum desses modos, mas por dois outros, isto é, seja como acontece com os nymphólēptoi e os theólēptoi, que entram quase numa embriaguez pela inspiração de um ser divino, seja, ao contrário, pela sorte”
    • O que une os dois últimos tipos de felicidade é seu caráter abrupto — a Ninfa, o divino ou a sorte são potências que agem de improviso, capturam e transformam sua presa
    • Os nymphólēptoi são colocados ao mesmo nível que os theólēptoi, como se o sistema das Ninfas e o sistema dos deuses fossem equivalentes quanto à qualidade de seus efeitos
    • A imagem moderna da possessão depende ainda, em grande parte, do ocultismo do século XIX — Eric Dodds, em The Greeks and the Irrational, sentiu o dever de dar lugar à literatura parapsicológica ao lado dos textos de Platão e dos Órficos
    • A passagem de Aristóteles nos adverte de uma incoerência: quando os modernos e os gregos falam de possessão, aludem a realidades completamente diferentes — são os modernos que perderam o sentido do que a possessão coloca em jogo para o conhecimento
    • O professor Karl Oesterreich, ao trabalhar em seu livro sobre a possessão, sentiu o dever de experimentar pessoalmente o que descrevia: mastigou folhas de louro, como fazia a Pítia segundo os textos antigos — e o efeito foi nulo; não pensou que teria sido mais eficaz observar seu próprio espírito nas circunstâncias mais banais
  • Para os gregos, a possessão foi antes de tudo uma forma fundamental do conhecimento, nascida muito antes dos filósofos que a nomeiam — e a possessão começa a ser nomeada quando sua soberania já está em declínio.
    • É curioso que pesquisadores como Dodds afirmem que Homero ignorava a possessão — ele a ignorava simplesmente porque estava em toda parte ao seu redor
    • Toda a psicologia homérica — dos homens e dos deuses — é atravessada de ponta a ponta pela possessão, se a possessão é antes de tudo o reconhecimento de que nossa vida mental é assombrada por potências que a dominam e escapam a todo controle, mas que podem ter nomes, formas e contornos
    • A Ilíada, desde seu primeiro verso — que designa a “cólera” de Aquiles —, é uma história de possessão, porque essa cólera é uma entidade autônoma cravada como um estilhaço no espírito de Aquiles
    • Os heróis homéricos sabiam que um deus agia neles quando a vida se inflamava no desejo, na dor ou na reflexão — todo aumento súbito de intensidade fazia entrar na esfera de um deus; é isso que significa antes de tudo a palavra éntheos, “plenus deo” como traduzem os latinos
    • O espírito era um lugar aberto, objeto de invasões e incursões sofridas e provocadas — e cada invasão era sinal de uma metamorfose; cada metamorfose era uma aquisição de conhecimento; não um conhecimento disponível como um algoritmo, mas um conhecimento que é um páthos, como Aristóteles define a experiência dos mistérios
    • Essa metamorfose que se cumpre lutando com figuras que habitam ao mesmo tempo o espírito e o mundo é o fundamento do conhecimento por metamorfose que reencontramos na possessão
    • O conhecimento por metamorfose só pode se apresentar em termos eróticos: theólēptos e theóplēktos — “tomado” e “golpeado” pelo deus — correspondem às duas modalidades das epifanias eróticas de Zeus: o rapto e a violação
    • A definição mais drástica desse conhecimento será enunciada pelo neoplatônico renascentista Patrizzi: “Cognoscere est coire cum suo cognobili” — conhecer é se unir com aquilo que se conhece
    • Platão, no Fedro, após listar os quatro tipos de possessão, afirma que a suprema é a possessão erótica: a manía erōtikḗ
  • Píndaro narra que a possessão erótica desceu ao mundo vindo do Olimpo sob a forma de um objeto enigmático — uma roda com quatro raios à qual estava soldado o corpo de um pássaro, o torcicoço, conhecido por seus frêmitos convulsivos — que Afrodite ofereceu a Jasão para que seduzisse Medeia.
    • Píndaro descreve: “A deusa nascida em Chipre trouxe pela primeira vez aos homens o pássaro matizado e delirante e ensinou ao hábil filho de Éson encantos e fórmulas para que conseguisse fazer Medeia esquecer o respeito por seus pais, e que o desejo de ver a Grécia atormentasse seu espírito inflamado com o aguilhão de Peito”
    • Iynx — “o pássaro matizado e delirante” — era ela mesma uma Ninfa: havia oferecido a Zeus um filtro de amor para que ele se apaixonasse por Io, sacerdotisa de Hera; Hera a puniu transformando-a nesse pássaro que os gregos chamavam de seisopygís — “que agita as nádegas”
    • O nome das fadas, herdeiras das Ninfas, deriva das Fata — as três Parcas — e de certas divindades obscuras chamadas Fatuæ, nome que se refere ao fari profético antes de dar origem, em francês e em italiano, à palavra “fatuidade”
    • Na roda à qual está soldado o torcicozo se reconhece a roda de Íxion, o círculo inelutável da necessidade; nos frêmitos de Iynx os gregos percebiam um gesto de fatuidade erótica — e os soldaram juntos, como se deveria fazer para remontar à origem das Ninfas
    • Segundo um fragmento de Píndaro, Apolo mandou pendurar em seu templo de Delfos íynges de ouro: “e no frontão cantavam as encantadoras douradas”
    • Na época alexandrina, as íynges eram encontradas frequentemente nos aposentos das mulheres, junto aos acessórios de maquiagem — certas mulheres as usavam para chamar de longe os amantes rebeldes
  • Se uma Ninfa — Iynx — se encontra na origem da possessão, e se as Ninfas presidem à possessão em sua mais vasta generalidade, é porque elas são elas mesmas o elemento da possessão — essas águas eternamente onduladas e mutáveis de onde emerge súbito um simulacro soberano que subjuga o espírito.
    • Em grego, nýmphē significa tanto “jovem pronta para as núpcias” quanto “fonte”
    • Um fragmento de hino a Apolo citado por Pórfiro no De antro Nympharum revela que Apolo recebeu das Ninfas o dom noerṑn hydátōn — das “águas mentais”; nomeia-se assim enfim “the stuff Nymphs are made of”
    • A Ninfa é portanto a matéria mental que faz agir e que sofre o encantamento — algo muito similar ao que os alquimistas chamarão de prima materia, com eco ainda em Paracelso quando fala de “nymphididica natura”
    • O único texto que alude ao modo de se tornar nymphólēptos é de Festo: “Diz-se, segundo uma antiga tradição, que quem quer que veja emergir uma aparição de uma fonte, isto é, a imagem de uma Ninfa, delira; os gregos qualificam de nympholeptous aqueles que os latinos chamam lymphaticos”
    • O delírio suscitado pelas Ninfas nasce da água e de um corpo que emerge — assim como a imagem mental aflora do continuum da consciência
    • Catulo descreve essa visão exaltante na partida da expedição dos Argonautas: “esse dia, e outro ainda, mortais tiveram a visão das Ninfas marinhas de corpo nu que emergiam até o busto do torvelinho de um branco resplandecente”
    • Teócrito, ao apresentar as Ninfas, as define imediatamente deinaí — “terríveis” — e revela sua essência terrível na história de Hilas, um dos primeiros episódios dos Argonautas
    • Quando os heróis desembarcam em Kios, Hilas se afasta para buscar água e chega a uma fonte no momento em que uma Ninfa emerge dela; a Ninfa, dominada por desejo violento, passa um braço ao redor do pescoço do jovem para beijá-lo, mas seu braço direito “o arrastava para baixo e o fazia se engolir no meio do torvelinho”
    • Numa pintura de Herculano, as três Ninfas que cercam Hilas imerso até os flancos fazem pressão com as mãos sobre sua cabeça — o gesto é claro: não desejam beijá-lo, mas afogá-lo, afundá-lo em suas águas como num delírio sem retorno
  • O mais célebre entre os nymphólēptoi foi Sócrates — que, num abrasador dia de verão ao lado de um alto plátano junto ao Ilissos, perto de um pequeno santuário das Ninfas, apresentou a Fedro a mais perigosa das doutrinas.
    • O lugar onde Sócrates falava estava fora da cidade — pertencia já ao araṇya, ao lugar selvagem, à “floresta” que para os indianos foi sempre o lugar da doutrina esotérica, oposta à aceita pela comunidade
    • Sócrates apresentou essa doutrina com o gesto de quem realiza uma cerimônia, uma “antiga prática de purificação”, um katharmós — tendo anunciado que se sentia nymphólēptos, raptado pelas Ninfas
    • O pecado de Sócrates foi ter “pecado contra Eros” — mas ele acrescenta algo surpreendente: ter “pecado em relação à mitologia”, usando o mesmo verbo, hamartánein; peca em relação à mitologia quem se engana sobre a natureza do simulacro
    • Se esse pecado é o desconhecimento da linguagem dos simulacros — sabedoria que fala por gestos e imagens —, os destinatários da palinódia só podem ser as Ninfas, as figuras míticas mais próximas dos simulacros, que tendem mesmo a se confundir com eles como os eídōla do mundo que irrompem entre os eídōla do espírito; por isso, ao final do Fedro, Sócrates não esquece de dirigir uma prece às Ninfas
    • O discurso de Sócrates se apresenta como um katharmós no interior do qual se encontra, em abismo, a descrição de outro katharmós — no parágrafo denso sobre a manía telestikḗ, o segundo tipo de loucura, que oferece “libertação” de “doenças e provas particularmente penosas” e de “antigas faltas”
    • O Fedro e a República são dois polos eternamente antitéticos do julgamento sobre o conhecimento por metamorfose — a República trata dos simulacros que contaminam como uma praga; o Fedro trata dos simulacros que curam
    • Sócrates quer mostrar que da doença que é a manía a única cura e libertação vêm do próprio delírio — ho trṓsas iásetai: “quem feriu curará”, antigo provérbio nascido como oráculo pronunciado por Apolo para Télefe
    • O Fedro pode ser compreendido como o relato da cura oferecida às Ninfas e pelas Ninfas que capturaram Sócrates em seu delírio
  • Por volta de 1890, em Florença, o jovem Aby Warburg realizou um estudo sobre Botticelli em relação ao que se chamava então de “sobrevivência” — Nachleben — da Antiguidade, chegando a uma conclusão que se revelaria o pivô de toda sua obra.
    • A Antiguidade ressurgia no Quattrocento florentino tardio não como “nobre tranquilidade” e “simples grandeza”, segundo a fórmula de Winckelmann que então dominava, mas na intensificação súbita do gesto de uma figura feminina — e sobretudo no movimento repentino do drapeado e dos cabelos dessa figura, perturbados por um sopro de vento: o “gesto vivo” da Antiguidade
    • Warburg atribuiu essa descoberta às sugestões de Angelo Poliziano, que calcou as Stanze per la giostra no hino homérico a Afrodite, acrescentando porém elementos relativos “quase exclusivamente à representação dos detalhes e acessórios”: os cabelos soltos e serpenteantes, um vestido inflado pelo vento, um tremor do ar
    • Warburg chamou isso de “brisa imaginária” — locução que parece desempenhar em seu texto o mesmo papel da grisalha para Ghirlandaio e Mantegna: “ela relega os influxos dos fantasmas no reino longínquo e sombrio da metáfora explícita”, criando uma distância entre a “fórmula do pathos” e a representação — distância que é uma marca da memória, da presença fantasmática do que retorna à superfície
  • Alguns anos depois, ainda em Florença, Warburg inventou com o escritor holandês André Jolles um “jogo de espírito” — como o definiu Edgar Wind — baseado no innamoramento de Jolles por uma figura feminina na afresco de Ghirlandaio Visita ao quarto da parturiente em Santa Maria Novella, que os dois correspondentes chamaram de “a Ninfa”.
    • Na câmara da parturiente, Ghirlandaio apresenta à direita do afresco quatro figuras que avançam — três de passo severo — e atrás delas, como empurrada por um sopro de origem desconhecida, uma jovem de grande beleza, com vestes ondulantes e passo leve e flutuante; atrás de suas costas, o vestido se infla como uma vela: é a Ninfa
    • Nessa figura se encontram todos os traços que Poliziano havia acrescentado ao hino homérico e transmitido a Botticelli — com ela, um ser que atravessou incólume os séculos entra na austoridade do interior florentino e insufla sua brisa imaginária: um “petrel pagão” que irrompe “nessa lenta respeitabilidade, nesse cristianismo controlado”
    • Jolles anotou: “Perdi a razão” — mas era a voz de Warburg que falava nele
  • A correspondência fictícia entre Warburg e Jolles sobre a Ninfa permanece inédita — apenas alguns fragmentos foram publicados na monografia de Ernst Gombrich sobre Warburg — mas esses fragmentos mostram que a Ninfa revelada em Botticelli continuava a agir em Warburg como imagem-fonte da exaltação demoníaca do “gesto vivo”.
    • No projeto mais ambicioso de Warburg, Mnemosyne — atlas dos simulacros — um painel inteiro é dedicado à Ninfa, com a jovem de Ghirlandaio
    • Com os anos, a “vaga mnêmica” fez emergir em Warburg outro aspecto da figura — sua variante sinistra e aterrorizante: a que Warburg chamava de “a caçadora de cabeças” — Judite, Salomé, a Mênade
    • Como escreveu Edgar Wind, para Warburg “todo choque que sofria e superava através da reflexão tornava-se um órgão de seu conhecimento histórico” — a ameaça das “caçadoras de cabeças” era para ele um evento mental relacionado à potência das imagens em geral, tal como se entreabrira a ele no frêmito das vestes da Ninfa
    • Warburg sabia que sua cabeça podia a qualquer momento ser raptada pelas Ninfas e permanecer prisioneira da loucura
  • O equilíbrio psíquico de Warburg, sempre precário, pareceu se romper em 1918, e entre 1920 e 1924 ele viveu em Kreuzlingen, na clínica de Binswanger — lugar histórico da esquizofrenia.
    • Warburg confessou a Cassirer que “os demônios, cuja dominação havia tentado explorar na história da humanidade, se vingaram capturando-o”
    • Em 1923, Warburg — moderno nymphólēptos — imaginou um katharmós para si mesmo: escreveu em Kreuzlingen a Lecture on serpent ritual e comunicou aos psiquiatras que, se conseguisse ler esse texto diante dos outros pacientes, seria um passo importante para sua cura — o que ocorreu
    • Quando em 1939 o Journal of the Warburg Institute publicou a Lecture, uma nota de rodapé informava: “lida pela primeira vez diante de uma unprofessional audience” — e Warburg havia deixado transcrita uma nota: “São estas as confissões de um esquizoide (incurável), depositadas nos arquivos dos psiquiatras”
    • Warburg consagrou sua conferência à serpente — o símbolo que, segundo a fórmula de Saxl, serve para “circunscrever um terror informe” — e assim a Ninfa e a serpente, Telpusa e Python, agiram juntas mais uma vez
    • Warburg voltou em pensamento a uma viagem ao Novo México feita quase trinta anos antes — sua única experiência primitiva; havia visto em ato o que pode ser o conhecimento por metamorfose, reconhecendo na dança ritual com que os índios Pueblo imitam as antílopes “um ato cultual da mais devota perda de si na transformação em outro ser”
    • Warburg refletia sobre a dança em que os índios Moki dançam com serpentes cascavel até tomá-las na boca para evocar a chuva salvadora; na dança a serpente é tratada como “um noviço que se inicia nos mistérios”, tornando-se um “mensageiro” que deve alcançar as almas dos mortos e suscitar o raio — assim a serpente, imagem mais imediata do mal, torna-se o salvador
    • Warburg aproximou esse ritual do episódio bíblico de Moisés que, para curar os hebreus torturados pelas “serpentes ardentes”, ergueu uma serpente de bronze numa haste de madeira, por ordem de Javé; no livro dos Números: “Se uma das serpentes mordia um homem e este olhava para a serpente de bronze, ele vivia”
    • Esse passo misterioso contradiz brutalmente a condenação bíblica dos ídolos — os eídōla; e foi precisamente esse passo que Warburg, atormentado pelos eídōla, escolheu para se salvar
    • Ho trṓsas iásetai — o antigo provérbio grego recomeçava a agir; o que acontecia na sala da clínica de Kreuzlingen não era, em sua essência, diferente do que havia acontecido nas margens do Ilissos quando Sócrates, raptado pelas Ninfas, explicou a Fedro como, através do “justo delírio”, se pode chegar à “libertação” dos males
    • Sócrates havia dito, com a rapidez de quem dispara sua última flecha, que “a manía é mais bela que a sōphrosýnē” — mais bela do que o sábio autocontrole, essa intensidade média protegida contra as terríveis pontas, que seria tantas vezes identificada com a própria Grécia por um imenso mal-entendido histórico
    • A razão pela qual a manía é mais bela: “porque a manía nasce do deus”, enquanto a sōphrosýnē “nasce junto dos homens”
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