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Magia do Gelo (Fragmentos)
LE ROMANTISME ALLEMAND. Textes et études publiés sous la direction de ALBERT BÉGUIN. LES CAHIERS DU SUD
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Ludwig Achim von Arnim destaca-se como um ser de solidão radical e pureza singular, cuja obra permanece difícil de definir e produz nos leitores uma espécie de temor inacessível.
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André Breton foi o primeiro a falar de Arnim de forma pertinente.
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A qualidade da obra desconcertou contemporâneos e continua desconcertando os leitores atuais.
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A atmosfera da obra não remete à suavidade do luar nem à vibração das harpas eólicas, mas à transparência dos paisagismos lunares e à sonoridade cortante de uma manhã de gelo invernal.
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A imaginação de Arnim não é complacente, mas atenta a regiões além do sensível, precisas e imóveis como um dia ensolarado de dezembro na planície prussiana.
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A angústia profunda de Arnim tomou duas formas sucessivas, ambas próximas de interrogações mais familiares à época atual do que à sua.
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A primeira forma foi a descoberta da vida inconsciente e de suas intervenções estranhas na existência desperta.
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A segunda forma, orientada pela própria obra, foi a preocupação com o alcance dos atos espirituais e os perigos da criação poética.
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O romance da Condessa Dolorès expressa com rara acuidade o dualismo incurável entre vida consciente e inconsciente.
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O episódio em que o conde é advertido por um sonho da infidelidade da esposa exemplifica a irrupção brusca do sonho na vida desperta.
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A fuga do conde é evocada por um monólogo interior em linguagem estranhamente entrecortada.
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Imagens fragmentárias do real se cruzam com formações obscuras do subconsciente e da imaginação.
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Compõem esse fluxo: lembranças do sonho denunciador, palavras do cocheiro, queixas balbuciantes, sensações de desdobramento, imagens do oceano e nostalgia da infância e das regiões pré-natais.
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Arnim não buscou imitar servilmente o fluxo incontrolável das fulgorações interiores, mas tentou produzir essa impressão por meio de um automatismo próprio ao escritor.
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O procedimento se baseia no jogo das sílabas e nos ecos pelos quais as palavras se chamam e se aliam sem vínculo lógico.
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Esse automatismo verbal presta-se à evocação das larvas do inconsciente.
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Arnim é considerado o primeiro a empregar a escrita automática para arrancar o segredo da vida inconsciente.
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O próprio Arnim advertiu o leitor de que essas imagens de desolação o comovem em seu abandono, pois esse é o linguajar de um coração profundamente ferido.
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Arnim foi além da expressão direta de uma descoberta psicológica, percebendo que múltiplos seres nos compõem e que esse conflito é a própria textura do universo.
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Desde a época de Dolorès, Arnim sabia que certos seres interiores se manifestam nos sonhos e em atos imprevistos, aterrorizantes por serem estranhos ao eu consciente.
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O imprevisível que habita em nós existe igualmente fora de nós e nos governa.
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O poeta é aquele que, pelo verbo, evoca ou conjura esses fantasmas.
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Arnim teve um sentimento estranhamente moderno de sua atividade e destino de poeta, concebendo a arte como um jogo cego, porém eficaz, em que o artista arrisca a própria vida.
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Arnim não confiou apenas ao entusiasmo o acesso à fantasmagoria interior.
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O escritor deve confiar ao que lhe é ditado pelo funcionamento do próprio espírito e da língua, não pelo arrebatamento lírico.
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O poeta cria seres e acontecimentos sem modelo na vida real, ignorando o verdadeiro sentido de seus atos.
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Arnim era tomado de angústia diante da possibilidade de que suas criaturas adquirissem vida autônoma e perigosa.
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Em carta a Brentano, Arnim declarou tomar a poesia muito a sério e dançar sua pequena dança conforme o quer o destino infinito.
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Arnim proclamou que o verdadeiro poeta é um mártir, um eremita que, em celibato voluntário, dedica-se à oração e à mortificação para que os semelhantes conheçam a alegria.
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Ao saber que Tieck havia falado mal dele, Arnim afirmou que os julgamentos são insignificantes e que cada um deve fazer o que lhe é necessário para a própria salvação.
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Os poetas que concebem o trabalho como gesto de significação impenetrável são os mesmos que depositam nele as mais altas esperanças de perfeição e salvação.
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Esses poetas elaboram poemas, romances e dramas como objetos em que confiam sua vontade de perfeição, longe de qualquer vaidade.
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Quando falam da arte como ofício, artesanato ou jogo, entendem um jogo em que se pode perder ou ganhar a vida.
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O abandono aos jogos sonoros das palavras, às imagens incontroladas e às exigências do ritmo decorre da crença de que os produtos aparentemente arbitrários desses jogos atingem uma realidade que pode ser evocada no mundo.
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O metro e a rima são para Arnim não apenas recursos para o ouvido, mas os polos e limites necessários sem os quais todo discurso afetivo se perde no vago.
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Arnim não era teórico; a posição sobre metro e rima não constitui em sua obra uma simples teoria.
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Em 1813, ao trabalhar na Papisa Joana, Arnim escreveu friamente a Brentano que, como o editor Reimer havia dito que os versos se vendiam mal, ele resolvia em prosa certo número de versos a cada dia.
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Esse singular confissão responde à certeza íntima de que o gesto da escrita, qualquer que seja a forma adotada, tem por si mesmo um alcance imenso, além da vontade consciente do escritor.
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Arnim afirmou que se podia mudar a iluminação de um poema sem tocar na significação da obra inteira.
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Desse pensamento ao reconhecimento de que o arbitrário pode reinar na criação estética há um passo, que poetas mais próximos de nosso tempo franqueariam.
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A questão crucial para Arnim é a interrogação de todo poeta verdadeiro sobre a pertença do que se cria.
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Essa inquietação sobre o alcance do ato criador e suas possíveis consequências reaparece continuamente em sua obra.
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Arnim descreveu a lei do inventor de algo ainda incriado como eminentemente sagrada, por isso vulnerável, com feridas difíceis de curar, o que justifica que os poetas sejam tidos como gente irritável.
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O prefácio dos Guardiões da Coroa expressa com esplêndida solenidade a experiência poética de Arnim.
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Arnim parte da imagem de um dia passado na solidão da poesia.
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O trabalho do lavrador, em sua justeza e justiça inconscientes, provoca nele uma dúvida sobre o valor do trabalho do espírito.
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O espírito ama suas obras perecíveis; a poesia é conhecimento e o poeta é um vidente.
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A dignidade humana consiste em prosseguir a conquista espiritual sem recompensa.
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A única traição é deificar a realidade temporal, imaginando que a missão do homem é fazer guerras santas ou a paz universal.
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O maravilhoso e os sonhos na obra de Arnim têm a tonalidade única do drama espiritual que o preocupou incessantemente, sem nenhum traço de nostalgia evasiva.
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Ao contrário de Tieck e Brentano, Arnim não cultiva o universo onírico por sua leveza, cores cambiantes ou metamorfoses perpétuas.
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Entre os eventos cotidianos e os de ordem fantástica quase não há diferença de peso ou de ambiance, salvo uma estranha sensação de pavor.
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Os acontecimentos estranhos dos contos de Arnim ocorrem com uma verossimilhança muito particular, não mais nem menos artificiais do que os atos mais familiares.
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A imaginação é, entre os dois mundos, a mediadora que espiritualiza a matéria inerte e encarna a realidade superior.
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O deslizamento do imaginário ao real nos contos é acompanhado por um mal-estar propriamente arnimiano, ligado ao terror diante das criaturas fabricadas pelo homem.
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Os autômatos são descritos como máquinas insensíveis que, criadas pelo homem, poderiam facilmente reduzi-lo à escravidão.
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A terrível boneca mágica de Melück Blainville exemplifica essa mesma ansiedade.
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Hoffmann não atingiu essa qualidade de maravilhoso nem esse calafrio glacial; seus espectros, vampiros e duplos nasceram da febre e da exaltação ardente.
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Os pesadelos de Arnim parecem criados sem nenhuma chama e guardam sempre algo de artificial e calculado, sem deixar de ser absolutamente convincentes.
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Eles não surgem da noite por conta própria, mas nascem de uma feitiçaria precisa, de práticas humanas conscientes e metódicas, cujas receitas exatas constam de velhos livros mágicos.
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Em Isabelle d'Egypte, os dois temas principais da obra de Arnim – as intermitências do coração e o malefício encerrado nos produtos da invenção humana – estão estreitamente entrelaçados.
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A dualidade e a duplicidade de todo ser assumem a aparência do golem: a figurinha de barro, modelada à imagem de Isabelle, substitui-se a ela.
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O príncipe Carlos, vítima da ilusão, divide-se entre dois amores: um superior e inassociável, outro fácil de satisfazer, mas em companhia de uma criatura fabricada por mãos humanas.
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A novela inteira reflete um secreto pavor do homem diante da obra de suas mãos, indicado pelo tema da mandrágora ainda mais claramente do que pelo do golem.
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Isabelle arranca a raiz de mandrágora e lhe dá forma humana, apegando-se tão profundamente à horrível criaturinha que toda lembrança do príncipe se apaga.
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Apenas o sonho, asilo dos pensamentos profundos que prosseguem em nós uma existência secreta, continua a abrigar o antigo amor até o dia em que ele possa renascer.
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Arnim escreveu que o amor por tudo o que se cria é a coisa mais sagrada, e que ele evoca as palavras da Bíblia sobre Deus que tanto amou o mundo criado que lhe enviou o próprio Filho.
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A obra se vinga e se volta, demoníaca, contra seu criador: Isabelle assusta-se ao ver óculos no nariz de sua criatura, como uma pecadora descoberta.
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A mandrágora diz a Isabelle que ela não pode destruí-la com a mesma despreocupação com que a criou, por simples divertimento.
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Clemens Brentano chamava Arnim de espelho de transparência, imagem que evoca sobretudo frieza glacial e imobilidade.
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Na pessoa e na obra de Arnim, há a impressão de uma superfície insensível em que tudo se reflete com o aspecto um pouco morto dos seres vivos vistos num espelho.
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Nada nele é caloroso, colorido ou musical, mas as figuras que desfilam nesse espelho logo se deformam à maneira das formas bizarras do inconsciente.
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Dissonâncias atrozes se fazem ouvir; as aparências do que a imaginação inventa surgem e se apagam, carregadas de significações obscuras e rebeldes a toda tentativa de ordem e harmonia.
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Jamais a arte da escrita, privada de toda inflexão destinada a agradar, esteve mais longe da atmosfera paradisíaca em que a êxtase arrasta um Jean-Paul, que se não evocou monstros, foi sempre para triunfar sobre eles.
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O reino interior desse poeta é um reino de morte com a aparência do mundo cotidiano, cujos perigos não são os de um inferno exterior à vida, mas os que a própria vida encerra e um olhar aguçado descobre em toda parte.
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Arnim permanece isolado em seu tempo e ainda hoje, reconhecendo ele próprio que o mundo não gostava de ouvi-lo e que suas obras se assemelhavam ao reino dos céus em que poucos desejam penetrar.
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Consciente da raridade de seu modo de evocar os fantasmas interiores por meio dos automatismos do espírito, Arnim respondeu a Brentano, que lhe reprochava o desleixo, que os pensamentos são livres e seguem mil caminhos não traçados no papel.
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Arnim usou a imagem do homem que, em seu zelo, ceifou a pradaria inteira ao invés de colher as flores, pressionando ao peito feixes onde abundam espinhos e azevinho.
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Apesar do mal-estar que permeia obras como Isabelle d'Egypte, há nelas cenas e partes líricas de delicadeza graciosa e tocante, e a vida de Arnim testemunha que ele nunca buscou deliberadamente provocar essa angústia.
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Arnim quis, com todas as suas forças, alcançar a harmonia, a paz e a serenidade do cumprimento espiritual.
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Seu drama é antes de tudo um drama espiritual: o de uma consciência a que afluíam as realidades mais obscuras, incapaz de dominá-las pelo exorcismo poético.
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Daí o contraste entre seu rosto calmo de aristocrata prussiano e o universo desordenado de uma obra em que se sente, apesar de tudo, o voto da harmonia impossível.
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Ninguém ousou expressar tanto quanto ele a vida secreta da alma quando se renuncia a dirigi-la; ninguém tampouco sentiu tão lancinante o desejo de encontrar a certeza de que o mundo inefável que lança em nós tantos sonhos é um mundo de luz.
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