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Emprego do Tempo

Clément Rosset. FAITS DIVERS

O que se denomina emprego do tempo é frequentemente, se não sempre, uma maneira de não empregar o tempo, de mantê-lo em suspenso e à parte. Trata-se, mais precisamente, de uma forma de não o vivenciar como tal. O que passa a ocupar o tempo, justamente o emprego do tempo, é também o que torna o tempo imperceptível, insensível, fora da consciência e como que fora de campo. É quando não há nada a fazer que o tempo se torna perceptível não o tempo no sentido de estrutura transcendental de toda percepção possível, como ensina Kant, mas o tempo como duração pura que nada poderia ocupar e se revela imediatamente como fonte de tédio e angústia. Ocorre que nunca há nada de sério a fazer, ou nada cuja seriedade não se evapore à menor reflexão, tal como a manteiga que derrete ao calor da frigideira. É, portanto, sempre urgente não deixar o tempo escoar no vazio, improvisar no instante, em caso de ruptura da atenção que se concentrava em um objeto qualquer, uma ocupação substituta de modo que o tempo possa continuar a fluir sem danos. No fundo, a expressão corrente passar o tempo significa principalmente que se encontrou um investimento tal que, precisamente, o tempo não passa mais, ou melhor, que se encontrou um meio de esquecer que o tempo passava. O problema do tempo é que ele apenas passa (ou seja, é esquecido) se houver algo a ser feito. E seu drama reside no fato de que, infelizmente, nunca há nada a fazer.

Ninguém está mais convencido do que Molloy de que tanto a experiência do tempo puro é mortal quanto a experiência do tempo ocupado é incerta e frágil. O menor jogo pode resolver o problema, mas quanto tempo ele durará? É por isso que Molloy, em um momento do romance de Samuel Beckett, escolhe por instinto, e com razão, a ocupação mais gratuita: pois quanto mais gratuita ela for, mais difícil será demonstrar seu caráter gratuito. De fato, para uma ocupação que apresente a menor aparência de seriedade, a interrupção viria mais rápido: a pouca utilidade ou consistência que esta apresenta apareceria prontamente. O mesmo não ocorre com uma ocupação resolutamente gratuita, cuja inanidade é menos fácil de demonstrar (apenas o cansaço, como diz Molloy ao final do episódio das pedras de sugar, terá o poder de pôr fim ao jogo). A ocupação em questão consiste, como se sabe, em recolher pedras com as quais Molloy enche seus quatro bolsos antes de começar a sugá-las metodicamente, uma após a outra, em uma ordem cujos detalhes não nos são poupados, assim como suas variantes possíveis. Essa ordem é, inclusive, muito mais importante do que o ato de sugar as pedras fazendo-as passar de um bolso a outro. Pois este último fato é insuficiente, isto é, insuficiente para distrair a atenção do tempo. Se Molloy sugasse suas pedras ao acaso, o exercício não bastaria para reter a atenção e mantê-la ao abrigo do tempo. Tão logo sugada a terceira pedra, Molloy se entediaria, se distrairia e recairia no sentimento do tempo vazio. Diferente é a atenção que ele dedica a nunca sugar duas vezes a mesma pedra, o que o envolve em complicações aritméticas que têm a vantagem, aqui como em outras passagens de Molloy ou outros escritos de Samuel Beckett, de reter a atenção pelo maior tempo possível. Extraordinário como as matemáticas ajudam, diz inclusive Molloy após estabelecer a média horária do número de seus flatos. Efetivamente, o menor relaxamento na contagem, ao mesmo tempo vã e útil, arriscaria a queda no buraco do tempo.

Pois o tempo é como um avião que deve constantemente vigiar os vácuos de ar. Estes devem ser imediatamente amortecidos pelas manobras do piloto, caso deseje evitar que seu aparelho se choque contra o solo. Da mesma forma, a vida apenas pode continuar seu curso se, em caso de interrupção súbita da ação, encontrar, antes de colapsar, o recurso de uma nova ação que lhe evite os horrores da queda no tempo. Já que se evoca aqui Cioran e sua Queda no Tempo, observa-se que, em tais circunstâncias, o melhor é agir e o pior é refletir; que bancar o filósofo, como faz Cioran, contribui para agravar o mal em vez de acalmá-lo. Em suma, é preciso preencher o buraco e pouco importa com o quê, desde que esse algo seja minimamente material. Tudo o que Molloy encontra em sua inatividade, e na urgência, é sugar pedras. Sugar pedras para passar o tempo: solução de fortuna, enquanto se espera algo melhor. Um leitor malicioso poderia pensar aqui em uma variante lúbrica da célebre canção de marinheiro Cantemos para passar o tempo: Suguemos para passar o tempo.

Que a irrupção do tempo ocasione uma sorte de buraco na duração ativa e seja fonte de gravíssimos inconvenientes é o que confirmam tanto o senso comum quanto testemunhos oriundos dos autores mais diversos. Assim Hergé, em O Tesouro de Rackham o Terrível. Os policiais Dupont e Dupond tapam um vasto buraco cavado em uma ilha deserta por aqueles que ali buscavam em vão a localização de um tesouro supostamente enterrado pelo referido Rackham. Interrogados sobre os motivos desse ato absurdo, os dois policiais respondem: O que fazemos? Estamos tapando o buraco. É mais prudente, sabem como é. As pessoas são tão distraídas. Assim Valère Novarina, cujo teatro é como um vasto buraco que é necessário preencher incessantemente com os meios disponíveis (ou seja, o recurso das palavras), e que aproveita justamente um buraco, em A Opereta Imaginária, para preenchê-lo com a avalanche de palavras improvisadas na hora pelo infinito Romancista que se propõe a ler para seu auditório as primeiras páginas de seu romance. Enquanto cantarola uma canção intitulada Vilão entardecer, o Mortal é vítima de um lapso de memória no qual o Romancista se lança imediatamente: Durante este branco, posso ler-lhes o início do meu romance? Acabo de escrever um romance. E a leitura começa: Vejam, disse Jean; Sejam atentos! acrescentou Jacques; Ela parará? perguntou Pierre; Sim, respondeu Marie; Nós a pararemos? retomou Josette; Certamente não, replicou Anne; Continuemos, prosseguiu Jean-Louis […]. E assim por diante, durante uma dúzia de páginas. O uso das palavras, assim aprisionadas no mesmo estreito espartilho sintático, interrompe a angústia ao mesmo tempo em que provoca o riso. Tal como o tempo musical conforme o concebia Stravinsky, o tempo das palavras apaga temporariamente o tempo propriamente dito.

Quanto ao tédio, dado fundamental, pois é ele que desencadeia a manobra, por mais irrisória que seja, destinada a suspender o efeito corrosivo do sentimento do tempo, Beckett obviamente não faz mistério; tampouco busca esconder as fontes literárias nas quais por vezes se inspira. Algumas páginas antes do episódio das pedras de sugar, Molloy sinaliza espontaneamente uma importante, o Bouvard e Pécuchet de Flaubert: Vê-se que eu me interessava por astronomia, antigamente, antigamente. Não quero negá-lo. Depois foi a geologia que me fez passar um pedaço de tempo. Em seguida, foi com a antropologia que me entediei brevemente […].

Restariam elucidar alguns pontos de detalhe que permanecem um pouco enigmáticos. Por que Molloy se recusa a chamar um seixo de seixo e prefere utilizar o termo pedra? Eram seixos, mas eu chamo isso de pedras, declara ele. Questão ociosa, sem dúvida, mas que se torna um pouco obscura pelo fato de que os objetos em questão não são, de qualquer modo, nem seixos nem pedras, mas pedregulhos, já que é à beira-mar que Molloy faz a colheita. Questão anexa: teria Beckett pensado em Demóstenes, que tratava sua elocução treinando falar com a boca cheia de seixos? E em que sentido se deve entender esta outra declaração de Molloy: que o excesso de distração teria me feito perder o gosto da pedra, em muito pouco tempo? De qual gosto se trata? Do gosto de sugar ou do sabor das pedras? Não se sabe ao certo. Mas, obviamente, todos se desinteressam disso, e Molloy certamente é o primeiro.

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