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A ação de Aquiles é, para o poeta, o laço íntimo mediante o qual reúne as cenas sucessivas de luta em uma unidade poética, devendo a Ilíada à trágica figura de Aquiles o não ser um venerável manuscrito do espírito guerreiro primitivo, mas um monumento imortal para o conhecimento da vida e da dor humana.
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A grande epopeia não representa só um progresso imenso no arte de compor um todo complexo, mas também uma consideração mais profunda dos perfis íntimos da vida e seus problemas, que eleva a poesia heroica muito acima de sua esfera originária e outorga ao poeta uma função educadora no mais alto sentido da palavra.
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Interpretação espiritual e criação são, no fundo, uma e a mesma coisa, e é fácil compreender que a enorme e superior originalidade da epopeia grega, na composição de um todo unitário, brota da mesma raiz de sua ação educadora: de sua mais alta consciência espiritual dos problemas da vida.
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O interesse e o gozo crescentes no domínio de grandes massas de material não conduzem necessariamente, em outros povos, à grande epopeia, e quando ocorre, facilmente cai no perigo de degenerar em uma narração novelesca que comece com o ovo de Leda.
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A exposição da epopeia homérica, dramática e concentrada, sempre intuitiva e representativa, avançando sempre in medias res, procede sempre mediante traços cingidos e precisos, oferecendo só, com prodigiosa segurança, as grandes crises, alguns momentos de importância representativa e da mais alta fecundidade poética.
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Os críticos antigos se admiraram já desta aptidão, pela qual foi
Homero, para Aristóteles e para Horácio, não só o clássico entre os épicos, mas o mais alto modelo de força e mestria poética, prescindindo do meramente histórico e deixando que os problemas se desenvolvam em virtude de sua íntima necessidade.
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A retirada de seu herói mais poderoso alenta os demais a realizar um esforço supremo e a mostrar todo o resplendor de sua bravura, enquanto os adversários, animados pela ausência de Aquiles, põem na luta todo o peso de sua força.
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A morte de Pátroclo às mãos de Heitor consegue o que as súplicas e os intentos de reconciliação dos gregos não haviam alcançado: Aquiles entra de novo na luta para vingar seu amigo caído, mata Heitor, salva os gregos da ruína, enterra seu amigo e vê avançar sobre si mesmo o destino.
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Quando Príamo se arrasta a seus pés, pedindo o cadáver de seu filho, se enternece o coração sem piedade do Pelida ao recordar a seu próprio ancião pai, despojado também de seu filho, ainda que vivo.
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A terrível cólera de Aquiles, que constitui o motivo da ação inteira, aparece com o mesmo resplendor crescente que rodeia a figura do herói, que é a heroicidade sobre-humana de um jovem magnífico que prefere, com plena consciência, a rude e breve ascensão de uma vida heroica a uma vida longa e sem honra.
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O poema começa com um momento obscuro de sua figura radiante, e o final não pode se comparar com o êxito triunfante da aristeia usual, terminando a história inteira com a tristeza inconsolável do herói, com as espantosas lamentações de morte dos gregos e dos troianos, e a sombria certeza do vencedor sobre seu próprio destino.
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Quem pretenda suprimir o último canto ou continuar a ação até a morte de Aquiles e converter a Ilíada em uma aquileida considera o problema desde o ponto de vista histórico e do conteúdo, não desde o ponto de vista artístico da forma.
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A Ilíada celebra a glória da maior aristeia da guerra de Troia, o triunfo de Aquiles sobre o poderoso Heitor, e nela se mistura a tragédia da grandeza heroica, consagrada à morte, com a submissão do homem ao destino e às necessidades da própria ação.
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A tragédia de que Aquiles se resolva a executar em Heitor a vingança da morte de Pátroclo, a pesar de que sabe que após a queda de Heitor o espera uma morte certa, não acha sua plenitude até a consumação da catástrofe, servindo só para enaltecer e levar a maior profundidade humana a vitória de Aquiles.
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Todos os gregos posteriores veem na eleição deliberada de uma grande façanha, ao preço previamente conhecido da própria vida, a grandeza moral e a mais vigorosa eficácia educadora do poema, e a resolução heroica de Aquiles só alcança sua plenitude trágica em sua conexão com o motivo de sua cólera.
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A Ilíada tem um desígnio ético, e é um saudável antídoto contra a tendência unilateral a desmenuzar o conjunto o fato de que apareçam de modo claro as linhas sólidas da ação, sendo de fundamental importância para seu desígnio e seu efeito a arquitetura do poema.
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Já no primeiro canto, onde se refere a causa da discórdia entre Aquiles e Agamêmnon, a ofensa a Crises, o sacerdote de Apolo, e a cólera do deus, o poeta toma um partido inequívoco, qualificando as atitudes de ambas as partes contendentes de incorretas por desmesuradas.
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Entre eles se acha o prudente ancião Nestor, a personificação da sofrosyne, que fala, como desde um alto sitial, aos homens airados do presente sobre suas agitações momentâneas, mantendo a figura de Nestor a totalidade da cena em equilíbrio.
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Já nesta primeira cena aparece a palavra estereotipada até, e à cegueira de Agamêmnon se junta, no canto nono, a de Aquiles, muito mais grave em suas consequências, que não sabe ceder e, cegado pela cólera, traspassa toda medida humana.
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Homero concebe a até, assim como a moira, de um modo estritamente religioso, como uma força divina que o homem pode apenas resistir, e a frase de Heráclito, ethos anthrōpō daimōn, se acha no término do caminho que os gregos percorreram no conhecimento do destino humano.
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A preferência dos gregos pela poesia gnômica, a tendência a estimar quanto ocorre de acordo com as normas mais altas e a partir de premissas universais, o uso frequente de exemplos míticos considerados como tipos e ideais imperativos, todos estes traços têm seu último origem em
Homero.
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Nenhum símbolo tão maravilhoso da concepção épica do homem como a representação figurada do escudo de Aquiles, onde Hefesto representa a terra, o céu e o mar, o sol infatigável e a lua cheia e as constelações que coroam o céu, além das duas mais belas cidades dos homens.
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Em uma das cidades há bodas, festas, convites, cortejos nupciais e epitalâmios, os jovens dançam em torno, as mulheres os miram admiradas, e o povo se acha reunido na praça do mercado, onde se desenvolve um litígio sobre o preço de sangue de um morto.
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A outra cidade se acha sitiada por dois exércitos numerosos que querem destruí-la ou saqueá-la, mas seus habitantes não querem se render e saem secretamente e armam uma emboscada à beira de um rio, onde se dá uma batalha e voam as lanças no meio do tumulto.
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Há também um campo onde os lavradores traçam seus sulcos arando com suas juntas, uma fazenda em tempo de colheita, um vinhedo com seus alegres vindimadores, um soberbo rebanho de búfalos cornudos, uma formosa dehesa no fundo de um vale, e um lugar para a dança onde moças e moços dançam.
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Um divino cantor que canta com voz sonora completa esta pintura plenária da vida humana, com sua eterna, simples e magnífica significação, e em torno ao círculo do escudo e abraçando a totalidade das cenas, flui o Oceano.
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A harmonia perfeita da natureza e da vida humana, que se revela na descrição do escudo, domina a concepção homérica da realidade, e um grande ritmo análogo penetra a totalidade de seu movimento, observando o poeta como se levanta e se põe o sol sobre os esforços cotidianos.
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Homero não é naturalista nem moralista, não se entrega às experiências caóticas da vida sem tomar uma posição diante delas nem as domina desde fora, e as forças morais são para ele tão reais como as físicas.
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As paixões humanas são compreendidas com mirada penetrante e objetiva, conhecendo sua força elementar e demoníaca que arrasta o homem, mas seus últimos limites são, para
Homero, leis do ser, não convenções do puro dever.
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Não há nele simples aceitação passiva das tradições, nem mera relação dos fatos, mas um desenvolvimento íntimo e necessário das ações que se sucedem passo a passo, em inviolável conexão de causas e efeitos.
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Desde os primeiros versos, a ação dramática se desenvolve, em ambos os poemas, com ininterrupta continuidade, e a narração da cólera de Apolo que segue a pergunta Canta, ó musa, a cólera de Aquiles delimita estreitamente e declara a causa essencial da desventura.
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A ação não se desdobra como uma inconexa sucessão temporal, regendo nela sempre o princípio de razão suficiente, e toda ação tem uma vigorosa motivação psicológica.
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No mundo em que
Homero vive, nada grande ocorre sem a cooperação de uma força divina, e a inevitável onisciência do poeta não se revela na forma em que fala das secretas emoções de suas personagens, mas vê as conexões entre o humano e o divino.
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Não é fácil assinalar os limites a partir dos quais esta representação da realidade é, em
Homero, um artifício poético, mas é evidentemente falso explicar sempre a intervenção dos deuses como um recurso da poesia épica.
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Se se perseguem claramente os exemplos de intervenção divina na épica homérica, vê-se um desenvolvimento espiritual que vai desde as intervenções mais externas e esporádicas até a guia constante de certos homens pela divindade, como Odisseu é conduzido por inspirações sempre renovadas de Atena.
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Também no antigo Oriente os deuses atuam não só na poesia, mas também nos acontecimentos religiosos e políticos, sendo eles os que verdadeiramente atuam nas ações e sofrimentos humanos, como nas inscrições reais dos persas, babilônios e assírios e nos livros históricos dos judeus.
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Também na Ilíada se dividem os deuses em dois campos, mas alguns traços de sua elaboração são novos, como o esforço do poeta para manter, na dissensão que promove entre os deuses da guerra de Troia, a lealdade dos deuses entre si, a unidade de seu poder e a permanência de seu reino divino.
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A última causa de todo acontecimento é a decisão de Zeus, e inclusive na tragédia de Aquiles vê
Homero o decreto de sua suprema vontade, não se achando em contradição a compreensão natural e psicológica dos mesmos acontecimentos.
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A epopeia mantém uma duplicidade peculiar, onde toda ação deve ser considerada ao mesmo tempo desde o ponto de vista humano e desde o ponto de vista divino, e a cena deste drama se realiza em dois planos.
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Persegue-se constantemente o curso sub specie das ações e projetos humanos e o dos mais altos poderes que regem o mundo, aparecendo com claridade a limitação, a miopia e a dependência das ações humanas em relação a decretos sobre-humanos e insondáveis.
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A intervenção dos deuses nos fatos e sofrimentos humanos obriga o poeta grego a considerar sempre as ações e o destino humanos em sua significação absoluta, a subordiná-los à conexão universal do mundo e a estimá-los de acordo com as mais altas normas religiosas e morais.
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Desde o ponto de vista da concepção do mundo, a epopeia grega é mais objetiva e mais profunda que a épica medieval, contendo já em germe a filosofia grega, e se revela com a maior claridade o contraste com a concepção do mundo puramente teomórfica dos povos orientais.