Hölderlin, a estrutura temporal da poesia

ALLEMANN, Beda. Hölderlin et Heidegger. Paris: PUF, 1987.

O uso de Heidegger pela crítica literária existencialista orienta-se sobretudo para a retomada de estruturas existenciais que parecem particularmente apropriadas à interpretação da poesia, sendo necessário distinguir sistematicamente tal crítica da interpretação que interroga a estrutura da temporalidade poética com referência à análise temporal de Heidegger.

É lícito pensar que, para o próprio Heidegger, a questão do tempo e da estrutura temporal da poesia desempenhou um papel em sua aproximação de Hölderlin, ainda que de modo muito velado.

Nessa perspectiva, parece plenamente indicado prestar atenção à concepção do tempo na poesia de Hölderlin, a partir da qual pode revelar-se uma correspondência íntima dessa poesia com o pensamento de Heidegger.

A análise temporal em Ser e Tempo repousa sobre a análise do poder-ser-inteiro próprio do Dasein, por sua vez explicitado a partir do ser-para-a-morte.

Constata-se então um antagonismo entre a concepção do tempo de Hölderlin na época de Empédocles e a interpretação do tempo em Heidegger — antagonismo que não poderia ser mais extremo.

A questão de como essas concepções opostas do fenômeno central — a relação entre Morte e Temporalidade — podem ser reduzidas à unidade encontra uma das últimas frases do livro sobre Kant como possível elo: “Mas a finitude no Dasein deixa-se desenvolver somente como problema, sem 'pressuposto' de infinitude?”

Tal interpretação da questão deve, porém, lembrar primeiro uma frase da Postface de A origem da obra de arte: “Fala-se de obras imortais da arte, e da arte como valor de eternidade. Fala-se assim nessa língua que não olha de perto quando se trata das coisas essenciais, porque teme que olhar de perto signifique ao fim: pensar.”

O reenvio à infinitude na frase em questão é efetuado com uma intenção bem determinada, que faz parte do domínio em que se diz o Giro — a questão não significa que deva haver, acima de tudo, ainda um intemporal, um infinito, uma eternidade.

As frases finais do livro sobre Kant remetem às questões anteriormente colocadas: se o conhecimento ontológico que ocorre na imaginação transcendental é “criador”, e se a transcendência constitui a essência da finitude, a essência finita não se tornaria precisamente infinita por esse comportamento “criador”?

Isso só é possível se ficar claro que a questão de uma infinitude “pressuposta” remete necessariamente à condição de todo pressuposto — a transcendência, isto é, a finitude mais originária do Dasein.