Hölderlin, a poesia como documento pré-ontológico

ALLEMANN, Beda. Hölderlin et Heidegger. Paris: PUF, 1987.

Ser e Tempo remete, em conexão com a explicação do Cuidado como estrutura fundamental do Dasein, à Fábula de Higino — Cura cum fluvium transiit et… — como documento literário para a análise correspondente, dedicando-lhe um parágrafo inteiro intitulado A prova da interpretação existencial do Dasein como Cuidado, com o auxílio da explicitação espontânea pré-ontológica do Dasein.

A questão do que autoriza admitir essa interpretação revela que a aptidão da fábula para corroborar descobertas ontológicas não se explica pelo simples fato histórico de que o motivo do Cuidado tenha sido transmitido sob muitas formas.

A questão formulada em termos alternativos — se é o conceito ôntico de cuidado que deixa transparecer as estruturas ontológicas, ou se é a perspicácia ontológica que as descobre mesmo no conceito ôntico — está certamente mal colocada, pois esquece que toda compreensão ôntica remete de antemão a uma compreensão do ser pré-ontológica que é seu fundamento.

O fato de que o testemunho citado seja de natureza poética é, nesse momento, desprovido de qualquer importância — trata-se unicamente da explicitação espontânea do Dasein que se enuncia no texto.

A despeito da ausência essencial de relação entre Ser e Tempo e o fenômeno da poesia enquanto tal, nada parece se opor de saída à valorização dos resultados da análise existencial em vista de uma teoria da poesia — porém é preciso ver claramente, de início, que tal uso não levaria em conta o caráter provisório da análise fundamental.