Hesíodo (Jaeger)

Paideia

Hesíodo representa uma esfera social completamente distinta do mundo homérico dos nobres, revelando na vida campesina da Beócia do final do século VIII a.C. uma segunda fonte fundamental da cultura grega.

Hesíodo não apenas retrata a vida camponesa em si, mas também testemunha a ação da cultura nobre e da poesia homérica sobre as camadas mais profundas da nação grega.

As condições do campo no tempo de Hesíodo revelam uma considerável independência espiritual e jurídica dos camponeses, a despeito do poder dos nobres proprietários de terras.

A ocasião externa do poema de Hesíodo é o processo judicial com seu irmão Perses, mas o conflito transcende o caso pessoal e torna-se a voz do descontentamento coletivo dos camponeses.

Em tal ambiente não pode surgir um puro ideal de educação humana como nos tempos mais afortunados da vida nobre, tornando ainda mais relevante investigar a contribuição do povo à elaboração da cultura aristocrática.

A vida espiritual mais alta no campo emana das camadas superiores, mas Hesíodo, formado no ambiente camponês, educou-se no conhecimento de Homero antes de despertar para a vocação de rapsodo.

O poema de Hesíodo permite conhecer o tesouro espiritual que os camponeses beocios possuíam independentemente de Homero, incluindo mitos antiquíssimos e uma sabedoria prática milenar.

A segunda parte dos Erga revela elementos culturais dos camponeses em completa oposição com a cultura nobre, sem nada que se assemelhe à formação total da personalidade exigida pelo ideal cavaleiresco.

Em Hesíodo introduz-se pela primeira vez o ideal do direito como ponto de cristalização de todos os elementos da vida camponesa, numa elaboração poética em forma de epopeia.

Assim como Homero eleva o destino dos heróis a um drama dos deuses e dos homens, Hesíodo eleva o vulgar acontecimento civil de seu processo judicial à dignidade de uma verdadeira epopeia sobre a luta pelos poderes do céu e da terra pelo triunfo da justiça.

A experiência de vida funda-se, para o poeta, nas leis permanentes que regem a ordem do mundo, enunciadas em forma religiosa e mítica, e a Teogonia e os Erga formam uma unidade espiritual indissociável.

O uso normativo do mito em Hesíodo revela-se com maior clareza na sequência entre a história de Prometeu e a narrativa das cinco idades do mundo, ligadas por uma fórmula de transição característica.

As alocuções dirigidas a Perses e aos juízes repetem-se na parte seguinte do poema, onde a maldição da injustiça e a bênção da justiça são mostradas mediante as imagens religiosas da cidade justa e da cidade injusta.

A ideia do direito, tal como aparece em Hesíodo, não é produto original da vida camponesa primitiva, mas tem sua fonte mais antiga em Homero, sendo, porém, reelaborada com uma paixão religiosa inteiramente nova.

Imediatamente após a advertência que fecha a primeira parte dos Erga, Hesíodo dirige-se a Perses em versos que se tornaram célebres e que sozinhos bastariam para tornar o poeta imortal.

A questão fundamental de se a areté pode ser ensinada é colocada por Hesíodo no início de toda ética e de toda educação.

As doutrinas práticas particulares que se seguem à parte geral dos Erga conferem ao trabalho o mais alto valor, estruturando uma ética profissional arraigada na ordem natural da existência.

O rico tesouro de experiências do trabalho e da vida que se desdobra na segunda parte dos Erga procede de uma tradição popular milenar e profundamente arraigada, sendo o elemento mais comovente do poema.

Na poesia de Hesíodo realiza-se, diante dos olhos do leitor, a formação independente de uma classe popular até então excluída de toda educação consciente.

A verdadeira raiz da poesia de Hesíodo reside na educação, e não no domínio da forma épica nem na matéria em si mesma.

Hesíodo é o primeiro poeta grego que fala em nome próprio de seu meio ambiente, elevando-se além da esfera épica à realidade e às lutas atuais.