Linguagem I

FRYE, Northrop. The Great code: the Bible and literature. New York ; London: Harcourt Brace Jovanovich, 1982.

O primeiro problema a ser considerado é a realidade positiva da tradução, especialmente em textos sagrados que se aproximam da poesia.

A teoria de Vico sobre as três idades da história (mítica, heroica e popular) fornece um ponto de partida para pensar o lugar da Bíblia na história da linguagem.

Na literatura grega anterior a Platão, em Homero, nas culturas pré-bíblicas do Oriente Próximo e no Antigo Testamento, encontra-se uma concepção de linguagem poética e “hieroglífica”.

Com Platão, entra-se em uma fase diferente de linguagem, a “hierática”, produzida por uma elite intelectual.

Na fase metonímica, a concepção unificadora torna-se um “Deus” monoteísta, uma realidade transcendente para a qual toda analogia verbal aponta.

Na fase metonímica, a magia verbal é sublimada em uma quase-magia inerente à sequência ou ordenação linear.

Uma terceira fase da linguagem começa a se desenvolver a partir da insatisfação com certos elementos da segunda fase, especialmente o raciocínio silogístico e a falta de critérios para distinguir existentes de não-existentes.

O problema da ilusão e da realidade torna-se central na terceira fase da linguagem.

As três fases da linguagem possuem características distintas em relação ao elemento unificador e ao status da palavra “Deus”.

A concepção de Deus como um substantivo abstrato, imutável e separado do fluxo do devir pode ser uma falácia de concretude deslocada.

Cada fase da linguagem tem uma palavra característica para a entidade humana que usa a linguagem.

Cada fase da linguagem tem suas virtudes e limitações.

A primeira fase da linguagem é inerentemente poética, contemporânea de um estágio da sociedade onde o poeta era o principal repositório do conhecimento.

Os poetas frequentemente acham mais fácil lidar com deuses “pagãos” porque os deuses são metáforas prontas.

A forma de escrita que recria a segunda fase da linguagem em períodos posteriores é frequentemente chamada de “existencial”.

A Bíblia tem suas origens na primeira fase metafórica da linguagem, mas grande parte dela é contemporânea da separação da segunda fase entre o dialético e o poético.

A Bíblia não coincide realmente com nenhuma das três fases da linguagem; é uma quarta forma de expressão, para a qual se adota o termo “kerygma” (proclamação).