PARQUE DOS CERVOS

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Escrever é um ato de osmose pelo qual certas coisas penetram para sempre em quem escreve — através da pena e da mão —, porque não querem separar-se de quem as escreve, assim como quem escreve não quer separar-se delas.

Na alegria, move-se num elemento que está completamente fora do tempo e do real — com presença perfeitamente real.

A história maravilhosa do Faraó Micerino, condenado pelos deuses a morrer jovem, é uma parábola do poeta — inimigo involuntário da lei da necessidade.

O amor é por essência trágico porque dele — somente dele — a flecha do presente voa instantaneamente para o futuro, fixando um termo ignoto do qual a alma não pode de modo algum se subtrair.

“O grande enigma da vida humana não é o sofrimento, é a desventura” — descoberta que poucos fazem, e talvez a única pedra angular sobre a qual seja dado firmar o pé.

O crítico é um eco — mas não é também a voz da montanha, da natureza, para a qual a voz do poeta se dirige?

O modo pelo qual um poeta extrai de seu trabalho passado novas iluminações para sua consciência assemelha-se ao de Münchhausen para alcançar a lua: cortando a corda abaixo de si para alongá-la acima.

A pura poesia é hieroglífica — decifrável somente em chave de destino.

Poesia hieroglífica e beleza são inseparáveis e independentes — sente-se a justiça de um texto muito antes de ter compreendido seu significado, graças ao puro timbre que é só do mais nobre estilo.

As profundas ruas rápidas entre as casas sem luz dos pobres de Masaccio são as ruas do bairro de San Frediano — mas no afresco são as Ruas dos Pobres: Florença ou Jerusalém, Roma ou Palmira.

O máximo de sabor de cada palavra requer os elementos reunidos da força vital e da espiritual: violência e doçura, lentidão e rapidez, imprevisto e inevitável, enraizamento e leveza.

Haroun al-Rashid é a eterna e encantadora imagem do artista — vaga a noite inteira em vestes de mercador, identifica-se com o último carregador, marinheiro ou bandido, arrisca com ele a vida ou o corte da mão.

A verdade é sempre um pouco maior do que o verdadeiro — a verdade que fala por hipérboles exatas.