“As Núpcias de Cadmo e Harmonia” (1988) faz reviver os deuses gregos através de uma operação mitográfica, na qual o narrador se coloca como um aedo moderno
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O tema do sacrifício conecta “A Ruína de Kasch” a “As Núpcias”, cujo narrador veste as vestes de um verdadeiro mitógrafo
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O narrador se coloca em relação aos leitores de modo similar ao aedo em relação ao seu público, baseando-se na autoridade das Musas (as fontes clássicas)
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O sistema de fontes é peculiar: as citações literais são declaradas apenas em apêndice, enquanto alusões e paráfrases não são explicitadas
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O leitor, perdido na rapsódia das histórias divinas, fica totalmente à mercê do autor, moderno aedo
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O engano é um tema fundamental, começando com o rapto de Europa por Zeus disfarçado de touro (a partir das “Dionisíacas” de Nono de Panópolis)
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“O que eles (os deuses) queriam, então? Ser reconhecidos. Cada reconhecimento é visão de uma forma. […] o seu impor-se era antes de tudo estético”
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O mito não é apenas uma forma de conhecimento que precede e supera qualquer outra, mas uma dimensão arquetípica, um universo de ações já cumpridas sobre o qual se modelam todas as ações
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“Estas coisas nunca aconteceram, mas são sempre” (Salústio), e “entra-se no mito quando se entra no risco, e o mito é o encanto que nesse momento conseguimos fazer agir em nós”
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Calasso resiste a uma leitura da mitologia em chave de “psicologia coletiva” (como em Károly Kerényi e Jung), ligando sua visão do mito à concepção do Self da tradição védica
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Os heróis mostram pontos de contato com os escritores da literatura absoluta, pois “sabiam que eram sustentados e atravessados por algo remoto e íntegro, que depois os abandonava como trapos”
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Ao estatuto associal do artista se podem associar as reflexões sobre os órficos: “Só quem fugiu do mundo com fúria pagã e cristã, só quem reside num pedaço da alma que provém de fora, […] só quem ao mundo não pertence inteiramente pode usar o mundo e transformá-lo com tanta eficácia e desfrute”