A investigação sobre a natureza do conhecimento conduz a uma dúvida identitária, cujo emblema é o “pecado infinito” de Édipo: interpretar infinitamente, sem um início e sem uma saída
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Édipo peca porque “interpreta demasiado infinitamente”, sentindo a exaltação provocada por Nietzsche diante do abrir-se de um mundo passível de interpretações infinitas
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O mundo se presta a interpretações infinitas, projetando sobre a investigação cognitiva a sombra do problema do “simulativo” com a realidade
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Não se é feito para saber, mas para agir como se soubesse — esse “como se” é a garantia necessária do pensamento, mas uma garantia que deve permanecer inconsciente porque é insuportável reconhecê-la, pois para o filósofo-bestia ela é a paralisia e a derrisão
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Ao colocar esse “como se” no centro da ação, o mundo voltou a ser um enigma, um enigma composto também pelas suas várias soluções
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Estruturalmente incapaz de conhecer o mundo na sua inteireza, o homem é forçado a reduzi-lo, adaptando-o às formas parciais das próprias representações, tornando o mundo enigmático
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O enigma é uma formulação misteriosa cuja resposta também é misteriosa, o que o distingue do problema, mesmo que nas origens gregas as duas palavras se sobrepusessem
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Quem pensa é obrigado a cometer um “pecado infinito” — o que segundo
Hölderlin tinha origem em Édipo: interpretar infinitamente, sem um primum e sem um desfecho, num movimento incessante, abrupto, fragmentado e recursivo
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Édipo é aquele que abre a enigmaticidade, sobre ele se derrama a força destrutiva da pergunta à qual, só entre muitos, consegue responder
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O enigma da Esfinge demonstra o poder misterioso que distingue o enigma do problema, pois a própria solução (o homem) é um mistério mais obscuro do que qualquer pergunta feita pelo monstro
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Édipo representa a periculosidade de toda investigação cognitiva; ao interrogar Tirésias, peca por hýbris, querendo saber “mais do que possa suportar ou compreender”
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O homem moderno, que vive no mundo tornado “fábula” pelo afastamento do divino, não pode aceitar a verdade sobre sua própria condição, ou seja, sua falta de fundamento
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Ao por de lado o “mundo verdadeiro” da transcendência, o homem perdeu também seu fundamento último, e tudo o que aparece se torna um aglomerado de signos que não remetem a nada
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O homem, como Édipo, percorre um caminho cognitivo autodestrutivo, precisando fingir o conhecimento, simular a ignorância do fato de que a realidade se tornou enigmática
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Édipo é um símbolo da condição humana, forçado a interpretar continuamente a natureza de signos que não compreende, pagando o preço altíssimo da sua investigação mais difícil: aquela sobre si mesmo