Os deuses são hóspedes fugidios da literatura, que a atravessam com a esteira dos seus nomes, mas que dela desertam rapidamente, devendo ser reconquistados a cada palavra
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Enquanto subsistiu uma liturgia, o entrelaçamento de gestos e palavras, a aura de destruição controlada, o uso de certas matérias e não de outras, isso saciava os deuses
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Depois restaram apenas, como fragmentos volantes num acampamento abandonado, aquelas histórias dos deuses que eram o subentendido de cada gesto
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“Tudo termina em história da literatura”
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Houve um tempo em que os deuses não eram uma “consuetude literária”, mas um evento, uma aparição súbita, como o encontro com um bandido ou o perfil de um navio
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“Difíceis de ver para os homens são os deuses” (Hino a Deméter), e “nem a todos aparecem os deuses em plena evidência”, enargeîs (Odisseia)
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Enargḗs é o terminus technicus da epifania divina, um adjetivo que contém o fulgor do “branco”, argós, mas acabará por designar uma pura indubitável “evidência”
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Na língua grega não se dá vocativo para theós (“deus”), que tem em primeiro lugar sentido predicativo: designa algo que acontece (Eurípides: “O deuses: é deus o reconhecer os amados”)
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Arato: “De Zeus seja o nosso início, dele que os homens nunca deixam de nomear. Pletas de Zeus são todas as vias, todas as praças dos homens, plenos o mar e os portos. Todos nós de Zeus temos necessidade em cada modo. Com efeito, somos uma sua estirpe”
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A palavra átheos, muito mais frequentemente do que o ser incrédulo para com os deuses, designava o vir a ser abandonado pelos próprios deuses