A quarta causa sugerida: o fascínio pelo tema do sepultamento em vida.
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O assunto do enterro vivo atormenta e cativa o imaginário do final do século XVIII e início do XIX.
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É ubíquo na ficção e no teatro góticos, comum nas artes gráficas e em versos e fantasias em prosa.
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Também aparece, por vezes obsessivamente, na especulação científica e filosófica.
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A conjectura de conexões maiores: o motivo codificaria uma consciência do poder judicial arbitrário, sendo um correlativo ficcional para os fatos do encarceramento nos conventos e Bastilhas do Antigo Regime.
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A iconografia de julho-agosto de 1789, com suas representações da emergência à luz do dia das vítimas “há muito enterradas”, sugere essa sobreposição.
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Outro contexto possível: o interesse quase histérico, dos anos 1760 ao final do século XIX, nos fenômenos galvânicos de “reanimação” nervosa e muscular, no mesmerismo, nos contatos extra-sensoriais com os mortos.
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O medo de ser sepultado vivo relacionar-se-ia a complexas incertezas sobre a determinação e a finalidade da morte, a intimações generalizadas de energias psíquicas ainda ativas após a morte clínica e o enterro.
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A teia de significados e sensibilidades ainda não satisfatoriamente desvendada pelos historiadores do pensamento e das letras.
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A concentração, nesse tema, de diversos e profundos fios de sentimento.
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A sanção clássica para uma preocupação presente: a descida de Antígona para a morte em vida falava às gerações Revolucionária e Romântica com uma imediação rivalizada apenas pelo final de Romeu e Julieta.
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A frequência de comparações entre as duas peças em relação ao motivo do enterramento.