Margarida compreende que o diabo não é apenas um personagem distinto de Fausto: sente-o nos lábios do seu bem-amado; é ela, criatura fraca, que triunfa do Mal, e não Fausto, o homem dotado de todos os privilégios do nascimento e da inteligência.
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Ao imolar-se para satisfazer a justiça divina, Margarida projeta todo o seu amor na cólera de Deus; pela virtude do seu sacrifício, transforma a justiça em misericórdia e restabelece a imagem de Deus segundo o seu amor.
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A Gretchentragödie é uma verdadeira tragédia; o drama de Fausto é-o menos, pois o prólogo celeste apaga a tragédia ao fazer de Fausto o símbolo do homem bom cuja aspiração, embora obscura, nunca se desencaminha.
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O prólogo é concebido no espírito da Teodiceia de Leibniz: o pecado não é mais do que o erro de que todo o esforço humano permanece necessariamente marcado, e quando Fausto representa o gênero humano no seu conjunto, a clareza prevalece contra a sombra; mas quando se vê nele não o herói de uma humanidade diversificada ao infinito, mas uma pessoa cuja poderosa individualidade agrava a singularidade, a realidade do Mal ressurge com uma evidência terrível.
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Às duas perspectivas que se cruzam em Fausto — a da individualidade trágica e a da visão otimista de uma humanidade que redime na sua totalidade os pecados singulares — correspondem duas imagens de Deus.
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O titan amaldiçoado sugere a imagem de um Deus cruel que exalta o homem para o precipitar no abismo; o homem bom justifica Deus ao dar-lhe a possibilidade de o salvar: Wer immer strebend sich bemüht, / Den können wir erlösen.
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Ifigénia justifica os deuses fazendo triunfar a bondade pela sua própria humanidade, convencendo o rei bárbaro a abolir a lei do sacrifício e salvando a imagem da Deusa que serve; mas em Ifigénia em Táuride há um fundo de trevas não resolvido, que permanece latente na luz, como a noite que segundo Böhme está implicada no dia.
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Em Ifigénia, Tântalo, o titan amaldiçoado e arquétipo de Fausto, não é salvo e permanece entregue ao suplício; quanto a Orestes, o que é redimido é apenas a fraqueza humana congénita (Gebrechen) e não o crime (Verbrechen).
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É desse mesmo fundo tenebroso que se nutre a realidade do Mal em Fausto: longe de ser abolido, ele ressurge no fim da obra imediatamente antes da apoteose celeste, e sem ele Fausto seria uma fábula patética, não uma tragédia.