====== SOMBRA DE WILLIAM JAMES ====== //ROWLANDSON, William. Borges, Swedenborg and Mysticism. Oxford: Peter Lang AG, Internationaler Verlag der Wissenschaften, 2013.// * A questão de Borges como teórico do misticismo é complicada pelo fato de ele próprio recusar o título de investigador ou teólogo, preferindo ser considerado um homem de letras, embora faça afirmações contundentes sobre textos místicos. * William James formulou os quatro princípios mais conhecidos do misticismo acadêmico. * Borges não figura na Stanford Encyclopaedia of Philosophy pelos mesmos motivos que rejeita rótulos teóricos. * A Burgin, Borges declarou interesse nos problemas teológicos como alimento para a imaginação, não como objeto de fé. * A separação entre místico e estudioso do misticismo é problemática, pois figuras como Teresa de Ávila e Swedenborg são simultaneamente místicos e analistas de suas próprias experiências. * Stace define "místico" estritamente como aquele que teve experiência mística pessoal, independentemente do grau de erudição. * Staal usa o termo "estudante do misticismo" para distinguir o pesquisador do praticante. * Emerson correlacionou leituras de Böhme e Swedenborg com sua própria experiência extática. * Borges avaliou suas duas experiências "fora do tempo" com o mesmo interesse com que discutiu Swedenborg, Silesius e Xul Solar. * William James, como Borges, negou possuir natureza mística, mas reconheceu que sua sensibilidade mística o predispôs ao estudo do fenômeno. * James descreveu quatro experiências de "alargamento súbito e incompreensível do campo consciente". * Há argumento de que James se descreveu a si mesmo ao narrar o "self dividido" do anônimo francês em "The Sick Soul" das Varieties. * Alicia Jurado, retomando sugestão de Estela Canto, classifica Borges como "pensador místico", não apenas místico. * A distinção entre "místico" e "pensador místico" implica distância crítica e ceticismo no segundo caso. * Para estudar textos místicos, o pesquisador precisa aceitar ao menos a possibilidade de que as reivindicações dos místicos merecem consideração séria, o que o aproxima necessariamente do próprio objeto. * Kripal argumenta que a erudição no campo do misticismo é impulsionada pelas experiências subjetivas (secretas e eróticas) dos próprios pesquisadores. * Segundo Kripal, tais experiências determinam escolhas hermenêuticas: quais textos são estudados, quais passagens "ganham vida", quais interpretações são alcançadas. * A distinção entre místico e estudioso não pode ser tornada tão absoluta quanto Stace propõe, pois Borges insistia em que a experiência textual equivale à experiência não textual. * Lawrence descreve Borges como "espírito afim" de Swedenborg, sugerindo que ambos percorreram o mesmo terreno por caminhos diferentes. * Kathleen Raine sustenta que a poesia de Blake proporciona experiência tangível do êxtase divino, não apenas descrição. * A questão epistemológica central é o abismo entre conhecimento por contato direto e conhecimento por descrição, debatido por James e Russell. * Van Dusen afirma que os escritos de Swedenborg têm como propósito fundamental conduzir o leitor à experiência de Deus, transformando o leitor dedicado em místico. * David St Amour, citado por Van Dusen, obtinha consolo espiritual dos textos de Swedenborg mesmo sem compreendê-los. * Emerson, Henry James Sr., William James, Yeats e Borges consideravam o estilo de Swedenborg seco e insípido. * Staal defende que o exame do estado místico requer abordagem metódica e desapaixonada, e que os místicos provavelmente não são os melhores formuladores de teorias sobre o misticismo. * A metáfora proposta é: o místico como explorador, o estudioso como cartógrafo. * Staal critica pesquisadores que se contentam com especulação sem experimentar ao menos parte do caminho disponível. * James e Borges exemplificam o caso em que o estudioso deriva conhecimento tanto textual quanto experiencialmente. * Borges, como Jung, resistia à designação de místico, preferindo ser visto como empiricista sóbrio e intelectual. * Aniela Jaffé explica que Jung evitava o rótulo de místico porque, em seu tempo e ainda hoje, tal classificação lança dúvida sobre a confiabilidade do trabalho científico. * A divisão entre empiricista e místico é central para James em Varieties e para Russell em Religion and Science. * No caso de Borges, a resistência parece menos ligada ao temor de má conduta acadêmica e mais ao receio de parecer crédulo ou entregue a declarações de fé. * O uso do termo "místico" varia historicamente e culturalmente, carregando implicações de irracionalidade em diferentes contextos. * No tempo de Emerson, o termo designava uma personalidade emocional e religiosamente inclinada. * Na Espanha contemporânea, "él es un místico" pode referir-se coloquialmente a um sonhador distraído. * A contradição entre investigação intelectual e experiência mística é problemática porque pressupõe a superioridade de um método sobre outro, divisão reforçada desde o Iluminismo. * Borges argumentou que Platão e Sócrates tratavam razão e mito como caminhos epistemológicos equivalentes. * Em Siete Noches, Borges apontou que o pensamento ocidental moderno opera por binários que impedem o engajamento pleno com práticas espirituais budistas. * Kripal e Ferrer tentaram corrigir essa divisão radical; Ferrer propôs um "método participativo" que supera a divisão sujeito-objeto. * O título de místico também carrega implicações éticas que inibem o estudioso de declarar abertamente sua dimensão experiencial, por medo de reivindicar superioridade moral. * Van Dusen é o único estudioso encontrado que declara sem constrangimento sua própria natureza mística, em seu ensaio "A mystic looks at Swedenborg". * Borges refere-se a Swedenborg como "el elegido", sugerindo a natureza especial com que o sueco foi dotado. * A modéstia amplamente documentada de Borges tornava improvável que ele se auto-denominasse místico. * Borges pode ser considerado um estudioso do misticismo na tradição de James, Underhill, Stace e Zaehner, embora nunca tenha formulado uma teoria definitiva. * A pesquisa sobre as afinidades entre James e Borges é surpreendentemente escassa. * A tese de doutorado inédita de Marcel Fernandes (2008), Borges and Pragmatism, é o estudo mais extenso localizado. * Fernandes argumenta que Borges ocupa uma posição pragmática, não puramente nominalista, ao explorar a dialética nominalismo-realismo de forma estética. * Fernandes propõe que Borges utilizou o pragmatismo jamessiano para fins estéticos, opondo perspectivas idealistas e nominalistas em suas ficções. * As histórias de Borges colocam o idealismo platônico contra o nominalismo de Aristóteles, Hume e o próprio James. * Funes pode ser visto como nominalista extremo; Lönnrot, como realista. * Fernandes sugere que a omissão do prólogo de Borges à tradução espanhola do Pragmatism de James na coletânea de 1975 pode indicar que Borges queria ocultar o motor intelectual de suas ficções. * Nubiola (2000) publicou apelo por maior pesquisa sobre a influência jamessiana em Borges. * Stephens (2000) argumentou que o estilo literário de Borges pressupõe um fundamento de empirismo jamessiano. * Almeida (2002) explorou a influência de James e Peirce sobre Borges; Bosteels (2007) analisou a influência do pragmatismo. * A corrente de influência de James sobre Borges no campo do misticismo foi menos analisada do que em outras áreas. * Báez-Rivera (2004) é o único estudioso identificado que estabelece conexão entre a avaliação de Borges de suas próprias experiências místicas e sua leitura de William James. * Báez-Rivera introduz o conceito de Borges como "agnostótico", derivado do termo "agnostoteísmo" cunhado por Julián Velarde. * Esse aspecto "agnostótico" conecta-se à noção de "iminência de uma revelação" e à pesquisa de Flynn sobre a busca de Deus na obra de Borges. * James definiu a paisagem dos estudos sobre misticismo mais do que qualquer outro estudioso, e sua análise encontra-se primariamente em Varieties of Religious Experience e em dois ensaios pouco conhecidos. * Borges herdou o apreço por James de seu pai e de Macedonio Fernández. * A Borges confessou a di Giovanni que as Varieties inspiraram sua própria interpretação do misticismo, ao lado de leituras de Swedenborg e Blake. * Cohen (1973) argumenta que Borges encontrou a inspiração para o Aleph em uma biografia de Jakob Böhme reproduzida nas Varieties de James. * A partir da obra de Borges, é possível reconstituir uma teoria de trabalho sobre o misticismo composta de oito características: pré-religioso, original, espontâneo, revelatório, inefável, fora do tempo, transitório e transformador. * Nem todas essas características são articuladas diretamente por James. * A hipótese central é que a compreensão de Borges sobre o misticismo é inerentemente influenciada por sua leitura de William James. * Borges considerava o misticismo autêntico como pré-religioso, valorizando em Swedenborg a crítica à instituição eclesiástica e a possibilidade de uma experiência "pura" posteriormente colorida pela autoridade religiosa. * Borges afirmou que Swedenborg cometeu um erro ao ajustar suas ideias ao marco dos dois Testamentos. * A leitura de Swedenborg por James era essencial para sua discussão sobre metafísica e experiência religiosa, segundo Eugene Taylor. * Taylor afirma que a origem da filosofia de James é swedenborgiana e transcendentalista, não cartesiana, kantiana ou hegeliana. * James considerava que a experiência religiosa genérica é distinta das "sobrecrencas" idiossincráticas de cada indivíduo. * Nota: Jeremy Carrette contestou a tese de Taylor sobre a influência de Swedenborg em James, citando correspondências em que James se distancia explicitamente de Swedenborg. * A posição pré-religiosa de Borges não é perennialista, mas pragmática, aproximando-se da "terceira via" identificada por Daniels entre perennialismo e construtivismo. * O perennialismo (Huxley, Stace, Underhill) sustenta que todas as experiências místicas são variedades de uma mesma experiência fundamental. * O construtivismo (Katz, Gimello) argumenta que as próprias experiências são irrevogavelmente determinadas por fatores culturais, sociais e linguísticos, não havendo experiência pura. * A terceira via (Hick, Zaehner) reconhece "semelhanças de família" entre experiências místicas de diferentes culturas sem afirmar identidade essencial. * Borges oscila entre os dois polos de modo pragmático, explorando esteticamente a dialética entre Platão e Aristóteles descrita em "Ruiseñor de Keats" e "Flor de Coleridge". * A originalidade é para Borges um dos atributos mais louváveis de Swedenborg, especialmente sua teologia radical em que o homem, e não Deus, decide se a alma habitará o céu ou o inferno. * Borges empregou o termo "innovación" para descrever a visão swedenborgiana de que a salvação exige também desenvolvimento intelectual. * Blake, segundo Borges, acrescentou uma terceira salvação: pela arte, com o argumento de que Cristo pregou por parábolas, formas estéticas. * O julgamento de Borges é ao mesmo tempo estético (textos originais têm maior apelo) e ético (a originalidade de Swedenborg representa uma declaração de liberdade filosófica). * Jantzen (1995) é citada para sustentar que "misticismo" é uma construção social que muda conforme padrões de autoridade e relações de gênero. * A apresentação de Swedenborg como místico natural e livre de influências eclesiásticas revela uma leitura seletiva, pois Swedenborg nasceu em família profundamente religiosa e foi influenciado por tradições esotéricas. * Conan Doyle escreveu que Swedenborg "sugou teologia com o leite materno". * Schuchard (2006) investigou a conexão de Swedenborg com a Moravian Chapel em Fetter Lane, Londres, e com comunidades cabalísticas e rosacruzes europeias. * Swedenborg buscou, no início dos anos 1730, literatura neoplatônica, hermética e cabalística para demonstrar cientificamente a realidade da alma. * Schuchard sustenta que Swedenborg estava inserido em círculos esotéricos e maçônicos europeus, tese contestada por Talbot com argumentos biográficos e textuais. * Talbot (2007) publicou refutação argumentando que as afirmações de Schuchard baseiam-se em proximidade geográfica e má interpretação das fontes. * Antón Pacheco, citado por Talbot, sustenta que semelhanças entre a exegese bíblica de Swedenborg e a cabalística não implicam necessariamente influência direta. * Talbot argumenta que Schuchard interpretou textos eróticos de Swedenborg como descrições deste mundo, quando seriam descrições do próximo. * Nota: confusão análoga aparece em Emerson, que atribuiu a Swedenborg a predição da descoberta de Urano. * A influência de Swedenborg sobre correntes esotéricas após sua morte é documentada por Garrett (1984) e Bergquist (2002), o que torna ingênua a afirmação de Borges de ser o primeiro a investigar a afinidade entre a doutrina das correspondências e a Cabala. * Garrett registra a absorção da imagística swedenborgiana em rituais da maçonaria ocultista em Paris, Avignon, São Petersburgo e Estocolmo. * Bergquist menciona que o aspecto cabalístico de Swedenborg foi discutido no Círculo de Eranos, que reunia Jung, Henry Corbin, Mircea Eliade, Ernst Benz e Gershom Scholem. * Borges afirmou em diversas ocasiões que sua compreensão da Cabala derivava de Scholem, a quem conheceu em Israel. * Borges não demonstra familiaridade com o ramo da literatura mística relativo a psicodélicos, mas sua posição implica que tais experiências não constituem misticismo genuíno, pois o estado místico autêntico é espontâneo e não mediado. * Meher Baba condenou os "atalhos para o divino"; Huxley chamou-os de "graça gratuita". * O conservadorismo declarado de Borges em suas décadas tardias reforça a inferência de rejeição ao misticismo psicodélico. * Borges descreveu sua experiência como algo que lhe foi "concedido", sugerindo agência divina extrínseca. * Borges afirmou que o fim de "El Congreso" tenta, em vão, igualar os êxtases de Chesterton e John Bunyan, declarando nunca ter merecido tal revelação. * A espontaneidade caracteriza também a primeira experiência mística de Swedenborg, descrita por Borges como graça divina independente da vontade do visionário. * Borges chamou Swedenborg de "el elegido" e referiu-se a Londres como a cidade em que Deus lhe confiou sua missão. * Ao comparar Swedenborg com Dante, Borges argumentou que a extensão da visão dantesca indica que ela foi voluntária e produto da "fé poética", não de graça. * O estado místico, em sua ocorrência breve para Borges e repetida para Swedenborg, não é produto da vontade, mas graça divina, perspectiva estendida também ao satori do Zen. * Borges descreveu o satori como iluminação que chega subitamente após anos de meditação, além da lógica. * Suzuki é mencionado como ponto de referência para a percepção de afinidades entre o Zen e aspectos do misticismo ocidental. * A revelação no misticismo borgessiano não é apenas noética, mas diz respeito a matérias além da compreensão consciente ordinária, intimamente ligada à questão da graça divina e ao problema da morte. * O labirinto é o símbolo recorrente do estado de ignorância em que os seres humanos habitam um universo cujo sentido permanece inacessível. * A ausência de propósito divino cognoscível em Borges aproxima-se do pensamento de Schopenhauer sobre a ausência de telos. * A di Giovanni, Borges declarou que o misticismo pode ser a única saída do labirinto, mas que seus deuses não lhe permitiram esse caminho. * A revelação mística é recebida pelo místico, não pelo leitor, que precisa confiar na veracidade do texto sem acesso direto à experiência. * Borges releu o Fédon de Platão para compreender a condição da alma após a morte. * Em uma resenha de J. W. Dunne (1940), Borges compartilha a tese de que após a morte aprenderemos a manejar a eternidade, recuperando todos os instantes da vida. * Borges não pode negar a possibilidade da imortalidade da alma, que aparece em muitos poemas, nem aceitá-la incondicionalmente. * A poesia tardia de Borges apresenta a morte e a revelação mística como possibilidade de que a verdadeira natureza das coisas seja finalmente revelada, em perspectiva platônica. * Em "The Unending Rose", Attar de Nishapur imagina a Rosa eterna que o Senhor mostrará a seus olhos mortos. * "Elogio de la sombra" conclui com a esperança de que a morte será a revelação da identidade verdadeira do poeta: "Pronto sabré quién soy". * A análise da revelação em Borges expõe o paradoxo identificado por James: algo é aprendido na experiência mística, mas esse algo é inefável, o que levanta a questão de como o místico pode transmitir o caráter noético da experiência. * A lucidez da prosa de Swedenborg não pode ser considerada prova empírica de suas visões. * A morte pode ser uma nova área de ignorância: os mortos em Swedenborg vagam sem compreender nada; os anjos travam debates teológicos, o que implicaria que nem mesmo eles possuem revelação completa. * Jung descreve os mortos como ávidos por contato humano por carecerem de conhecimento, no início dos Sete Sermões aos Mortos. * O poema "Ajedrez" ilustra a regressão infinita de contingência: as peças ignoram os jogadores, os jogadores ignoram Deus, Deus ignora um deus superior. * Nota: Jung narra o episódio da campainha tocando sozinha que precedeu a composição dos Sete Sermões. * A inefabilidade, para Borges, reside na impossibilidade de comunicar a experiência mística por palavras, pois palavras pressupõem experiência compartilhada. * Borges declarou a Barnstone que suas duas experiências místicas não podem ser colocadas em palavras, comparando a situação a descrever o sabor do café a alguém que nunca o provou. * James define a inefabilidade como a marca mais prática do estado místico: o sujeito afirma que a experiência desafia a expressão e que sua qualidade deve ser diretamente vivida. * Borges afirmou que os sufis do islã recorreram a alegorias de rosas, embriaguez e amor carnal para sugerir a inefável união da alma com a divindade. * Borges distingue Swedenborg dos sufis pela capacidade do sueco de capturar a essência de sua experiência em latim erudito, o que situa a inefabilidade não na transmissão da experiência ao texto, mas do texto ao leitor. * A perspectiva jamessiana é que o leitor comum trata as experiências místicas de forma incompetente. * A ênfase de Borges na incapacidade dos poetas sufis pode indicar limitação vocabular desses poetas, não necessariamente a natureza inefável da experiência. * A singularidade de Swedenborg residiria não na radicalidade de suas visões, mas em seu domínio deslumbrante do latim. * O tempo é para Borges o mistério essencial, e a experiência de estar fora do tempo constitui o componente primário da experiência mística. * Borges descreveu em "Sentirse en muerte" o senso de mover-se para fora do tempo e experienciar a eternidade. * A Barnstone, Borges declarou ter tido apenas duas experiências de "tempo sem tempo" em oitenta anos. * Santo Agostinho é citado: "O que é o tempo? Se ninguém me pergunta, sei. Se me perguntam, ignoro." * A visão do Aleph abrange espaço e tempo infinitos, sem distinção entre passado, presente e futuro, e constitui tentativa irônica e paródica de retratar um arrebatamento místico. * Borges afirmou a Biguenet e Whalen que a eternidade é sem tempo: Deus ou um místico percebe em um momento todos os nossos ontem. * Ayora (1973) identifica aspecto gnóstico no tratamento borgessiano do tempo, sugerindo que a circularidade temporal em Borges constitui rejeição da cosmovisão cristã hegemônica. * Exemplos ficcionais da irregularidade do tempo: Hladík experimenta um ano em um instante; Menard torna-se Cervantes do século XVII; o Borges jovem e o velho se encontram em "El Encuentro" e "Veinticinco de agosto, 1983". * O misticismo borgessiano é marcado pelo paradoxo de que a eternidade só pode ser experienciada de forma transitória, pois a visão mística não pode ser sustentada por longo tempo. * James descreve a transitoriedade: estados místicos não se sustentam além de meia hora ou, no máximo, uma ou duas horas. * Borges considerava a visão de Dante não verdadeiramente mística em razão de sua extensão: "uma visão tão prolongada quanto A Divina Comédia é impossível". * Borges descreveu suas próprias experiências como transitórias: "surgiu e desapareceu". * O poema "Testigo" examina como sonhos e visões diurnas ocorriam a Swedenborg em espasmos breves e iluminadores. * As experiências místicas transitórias de Borges foram de tal poder transformador que constituíram a motivação central de seu interesse pelo misticismo, pelas anomalias do tempo e pelas tradições religiosas. * O desejo de Borges, já octogenário, de passar período de retiro no Japão visava correlacionar suas experiências com as tradições espirituais orientais. * James define a qualidade noética: estados místicos são estados de conhecimento, iluminações e revelações de verdades inacessíveis ao intelecto discursivo, que conferem autoridade ao místico. * Para Borges, Silesius, Swedenborg e Blake obtiveram verdadeiro insight sobre os mistérios da existência por via intuitiva e experiencial, não por falseamento, loucura ou delúcio. * James conclui sua exploração do misticismo com um resumo pragmático em três pontos: os estados místicos têm autoridade absoluta para quem os experiencia; não impõem obrigação de aceitação aos de fora; e abalama a pretensão da consciência racionalista de ser o único árbitro do que se pode crer. * A perspectiva de Borges é claramente jamessiana nesse ponto, embora não se possa determinar se James foi a influência primária. * Pode-se argumentar que a conclusão pragmática de James é "borgessiana avant la lettre". * Nota de rodapé: James afirma que estados místicos não contradizem fatos sensoriais, mas acrescentam significado suprassensorial; a questão permanece aberta se tais estados são janelas para um mundo mais extenso e inclusivo. * A avaliação borgessiana do misticismo é inevitavelmente subjetiva, revelando que a figura de Swedenborg em Borges é, na verdade, "Swedenborges", um espelho dos valores filosóficos do próprio Borges. * Cohen (1973) é o único crítico identificado que nota a semelhança entre o Swedenborg do poema "Emanuel Swedenborg" e o próprio Borges, descrevendo o poema como "autorretrato do Borges privado disfarçado sob o nome de Emanuel Swedenborg". * Borges enfatizou em Swedenborg os traços mais próximos de si mesmo: intelecto prodigioso, existência solitária e estudiosa, desdém pela ortodoxia, interesse na Cabala, prosa sóbria. * Nota: Borges destacou que Swedenborg escreveu bons hexâmetros latinos e se interessou pela literatura inglesa (Spenser, Shakespeare, Cowley, Milton, Dryden) por seu poder imaginativo. * A rejeição borgessiana de Pascal, Luis de León, Juan de la Cruz e Teresa de Ávila revela preferências culturais pessoais mais do que avaliação mística sistemática. * Báez-Rivera (2004) sugere que a recusa de Borges em reconhecer os místicos espanhóis pode ser "uma piada" para provocar conservadores católicos. * O amor de Borges por Swedenborg não se separa de seu amor pelas sagas islandesas, pela poesia anglo-saxônica e por sua ancestralidade de Northumberland. * Teresa de Ávila não era dócil nem obediente à autoridade eclesiástica, mas profundamente envolvida nas maquinações políticas de seu tempo, o que Borges parece ignorar. * A leitura seletiva de Borges é inevitável e estrutural: cada biógrafo ou crítico de Swedenborg concentra-se no que lhe é mais caro, como Conan Doyle (mediunidade), James (dialética entre ortopráxis e heteropráxis), Schuchard (mundo erótico e esotérico) e Talbot (piedade e refutação das teses eróticas). * Em suma, Borges prestou atenção não apenas à dimensão estética e imaginativa dos textos místicos, mas aos desafios ontológicos e epistemológicos que eles suscitam, sintetizando, como James, uma série de características definidoras da experiência mística a partir da leitura profunda e da experiência pessoal. * Diferentemente de James, Borges nunca articulou essas características em enumeração explícita. * A figura de William James e as Varieties of Religious Experience estão manifestamente presentes na plataforma teórica de Borges sobre o misticismo.