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Caminho do despertar (Gustavo Meyrink)

UKIM

Resumo

O homem carece do começo não por dificuldade de encontrá-lo, mas pela ideia preconcebida de que é preciso buscá-lo.

  • A vida oferece a cada instante um novo começo.
  • A cada segundo, a pergunta “quem sou eu?” se apresenta sem ser formulada.

Uma existência verdadeiramente nova só desponta quando essa pergunta é levada a sério, capaz de varrer os pensamentos que parasitam a alma.

  • Esses pensamentos constroem no decorrer de milênios o que se chama de “corpo”.
  • Para alcançar o mar aberto, é preciso abrir uma brecha nesse recife e redissolvê-lo no espírito que originalmente era.

Quem não aprende a ver na terra certamente não aprenderá no “além”.

A chave do poder sobre a natureza inferior enferrujou desde o Dilúvio — e essa chave se chama “estar desperto”.

  • Estar desperto é tudo.
  • O homem está preso numa rede de sono e sonho que ele mesmo teceu.
  • Os mais enredados são os que atravessam a vida como gado a caminho do abate — mudos, indiferentes, irrefletidos.

O primeiro passo para o despertar é tão simples que qualquer criança o daria, mas o extraviado esqueceu como caminhar.

  • O extraviado não abandona as muletas herdadas de seus antepassados.
  • Basta estar desperto em tudo o que se faz, sem supor que já se está desperto.

A sensação “AGORA ESTOU DESPERTO” revela, por contraste, que o estado anterior era torpor e sonolência.

  • Esse é o primeiro passo frágil de uma longa jornada da escravidão à onipotência.
  • Cada despertar sobrepassa os pensamentos perturbadores como a copa de uma árvore ultrapassa seus galhos secos.
  • Quando o despertar permeia o corpo, as dores caem como folhas mortas.

Os banhos rituais gelados dos judeus e dos brâmanes, as vigílias dos discípulos de Buda e dos ascetas cristãos, os tormentos dos fakires indianos são rituais externos cristalizados.

  • Esses ritos são como colunas quebradas que testemunham: “Aqui, há muito tempo, erguia-se um templo misterioso dedicado ao despertar.”
  • Todas as escrituras sagradas de todos os povos trazem o fio escarlate da doutrina secreta do despertar.
  • Esse fio é a escada de Jacó, que lutou com o Anjo do Senhor durante toda a “noite” até que o “dia” raiou e ele saiu vitorioso.

Quem quer vencer a morte — cuja armadura é o sono, o sonho e o embotamento — precisa subir de um degrau de despertar ao seguinte.

  • O degrau mais baixo dessa escada celestial já se chama “gênio”.
  • O primeiro inimigo no caminho do despertar é o próprio corpo, que luta até o canto do galo.
  • Quem vislumbra o dia do despertar eterno é separado dos sonâmbulos que se julgam homens sem saber que são deuses adormecidos.

O homem que desperta não mais aguarda humildemente que uma divindade cruel conceda sua graça.

  • Ele perde a felicidade do cão fiel que reconhece um senhor acima de si — mas nenhum homem desejaria trocar de lugar com seu próprio cão.

Todos os que vivem a terra como prisão e todos os crentes que clamam por redenção evocam inconscientemente o mundo dos fantasmas.

  • Fazê-lo com plena consciência é diferente de fazê-lo às cegas.
  • Uma mão invisível raramente transforma em terra firme os pântanos em que tropeçam os que agem sem consciência.

No caminho do despertar, o mundo dos fantasmas revela que seus habitantes são apenas pensamentos que de repente se tornam visíveis.

  • A linguagem das formas difere da linguagem do cérebro, o que faz esses seres parecerem estranhos e autônomos.
  • Chega então a transformação mais estranha: das pessoas ao redor emergem fantasmas, e até o próprio corpo se torna larva.
  • É a solidão mais aterrorizante imaginável — uma peregrinação pelo deserto onde quem não encontra a fonte da vida morre de sede.

Esse é o estigma de todos os que foram mordidos pela “Serpente do mundo espiritual”.

  • Parece que duas vidas precisam ser enxertadas antes que o milagre do despertar ocorra.
  • A separação que normalmente ocorre na morte aqui se dá pela extinção das memórias ou por uma súbita convulsão interior.
  • A chave consiste em tornar-se consciente da própria “forma do Eu” — descobrir a fresta estreita por onde a consciência escorrega entre a vigília e o sono profundo.

A luta pela imortalidade é uma batalha pelo controle dos sons e fantasmas que habitam o interior; a espera para que o “Eu” se torne Rei é a espera pelo Messias.

  • As escrituras de todos os povos falam do advento de um novo Reino, do despertar, da vitória sobre o corpo e da solidão.
  • Um abismo intransponível, porém, separa esse caminho do entendimento comum: não há bem nem mal, apenas “verdade” e “falsidade”.
  • Os que dormem acreditam que “estar desperto” é manter os sentidos abertos durante a noite para recitar orações; os que despertam sabem que é o Eu imortal que acorda.
  • Os que dormem creem que o corpo deve ser desprezado por sua pecaminosidade; os que despertam sabem que o pecado não existe e que se desceu à terra para transformar o corpo em espírito.
  • Os que dormem julgam que é preciso levar o corpo à solidão para purificar o espírito; os que despertam sabem que é o espírito que primeiro vai à solidão para transfigurar o corpo.

O início do caminho é o próprio corpo — e quem sabe disso pode começar a jornada a qualquer momento.

Separar-se do corpo não significa abandoná-lo, mas libertar-se dele como se separa a luz do calor.

  • O primeiro inimigo espreita aqui.
  • Os que se separam do corpo para voar pelo espaço seguem o caminho das bruxas — trocam a percepção terrena pela espiritual, empobrecendo-se em vez de se enriquecerem.
  • Esse não é o caminho do despertar.

O corpo usa armas para manter seu domínio: a vida cessaria se o coração parasse; a consciência mergulha na noite ao fechar os olhos.

  • O corpo move a si mesmo, apenas tomando emprestada a vontade do homem.
  • Os pensamentos também vêm do corpo, que os envia para que pareçam próprios e façam sua vontade.

Ficar imóvel como uma estátua revela como o corpo se rebela com ódio, temendo perder o controle.

  • As primeiras armas são físicas: músculos que tremem, sangue fervente, coração que martela, calafrios, oscilação do corpo.
  • Todas essas forças podem ser vencidas pela vontade — mas por trás da vontade há um despertar superior, invisível como o elmo mágico de Siegfried.
  • Mesmo dominando a respiração e os batimentos cardíacos, o resultado seria apenas o de um fakir — o que em árabe significa “pobre”.

As próximas armas que o corpo envia são enxames de pensamentos esquivos.

  • Contra eles, a espada da vontade é impotente — quanto mais se luta, mais eles zumbem.
  • Mandá-los ficar imóveis é desperdício de energia.
  • O único caminho é refugiar-se num grau superior de despertar.
  • Como alcançá-lo é algo que cada um deve descobrir por si mesmo — qualquer conselho alheio nessa luta dolorosa é veneno.

Depois desse estado, apresenta-se o domínio dos fantasmas — aparições aterrorizantes ou esplêndidas que parecem seres de outro mundo.

  • São apenas pensamentos em forma visível sobre os quais ainda não se tem pleno controle.
  • Quanto mais solenes parecem, mais perigosos são.
  • Ao descobrir o “sentido profundo” oculto em cada um desses seres larvais, vê-se com o olho do espírito não só o núcleo vivo deles, mas o próprio.
  • Tudo o que foi tomado é devolvido mil vezes — como aconteceu com Jó.

Ninguém sabe se será dado ao viajante compartilhar as forças prodigiosas dos antigos profetas ou se ele está destinado à paz eterna.

  • Esse caminho leva ao limiar da maturidade — e quem chega até lá torna-se digno de receber o dom.
  • Em todo caso, o viajante terá se tornado uma fênix.

Um dos que ainda possuem a chave da magia permaneceu na terra para buscar e reunir os chamados.

  • Alguns dizem que é o Judeu Errante; outros o chamam de Elias; os gnósticos afirmam ser João Evangelista.
  • Um ser que transformou seu corpo em espírito não pode estar preso a nenhuma forma rígida.
  • O único ser verdadeiramente imortal é o homem desperto — estrelas e deuses desaparecem, ele perdura.

Aquilo que o homem religioso acredita sobre Deus é apenas um estado que ele mesmo poderia alcançar, se acreditasse em si.

  • Em vez disso, ele cria uma imagem para adorar em lugar de se transformar nela.
  • Quem quiser rezar deve rezar ao seu Eu invisível — é o único Deus capaz de responder.
  • Quando o Eu invisível aparece como entidade, reconhece-se por projetar uma sombra — e o próprio corpo se revela como sombra.
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