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macdonald:imaginacao

Imaginação fantástica

1. A falta em inglês de uma palavra correspondente ao alemão Märchen obriga ao uso do termo conto de fadas, ainda que o conto nada tenha a ver com fada alguma, uso que poderia de resto ser justificado, se fosse necessária justificativa ou desculpa, pelo antigo emprego da palavra fada, ao menos em Spenser.

2. À pergunta sobre o que é um conto de fadas, a melhor resposta é ler Ondina, que é um conto de fadas, e depois ler este e aquele outro para ver o que é um conto de fadas, pois descrevê-lo ou defini-lo seria como descrever o rosto humano abstrato ou enumerar o que deve constituir um ser humano, já que um conto de fadas é apenas um conto de fadas, como um rosto é apenas um rosto, sendo Ondina, de todos os contos de fadas conhecidos, talvez o mais belo.

3. Muitos que não tentariam definir o homem se arriscariam a dizer algo sobre o que um homem deve ser, mas nem isso convém aqui em relação ao conto de fadas, pois a longa produção passada nesse gênero ilustraria mal um juízo hoje mais amadurecido, restando apenas dizer algumas coisas úteis para a leitura correta dos contos de fadas que se gostaria de escrever ou que vale a pena ler.

4. Alguns pensadores se sentiriam gravemente tolhidos se só pudessem usar formas existentes na natureza ou nada inventar senão de acordo com as leis do mundo dos sentidos, sem que isso signifique desejo de escapar do domínio da lei, pois nada que seja sem lei pode mostrar a menor razão para existir ou ter, quando muito, mais que uma aparência de vida.

5. O mundo natural tem suas leis, com as quais ninguém deve interferir nem na representação nem no uso, mas elas mesmas podem sugerir leis de outro tipo, e o homem pode, se quiser, inventar um pequeno mundo próprio com leis próprias, pois há nele algo que se deleita em evocar formas novas, o mais perto talvez que pode chegar da criação, chamando-se produtos da Imaginação essas formas quando são novas encarnações de velhas verdades e obra da Fantasia quando são meras invenções, por mais belas que sejam, embora em ambos os casos a Lei tenha trabalhado diligentemente.

6. Inventado o mundo, a lei suprema que entra em jogo é a da harmonia entre as leis pelas quais o novo mundo começou a existir, às quais o inventor deve manter-se fiel durante toda a criação, pois no momento em que esquece uma delas torna a história, por seus próprios postulados, incrível, já que para viver um instante num mundo imaginado é preciso ver obedecidas as leis de sua existência, e quando são quebradas cai-se fora dele, cessando imediatamente de agir a imaginação, cujo exercício é essencial à mais passageira submissão à imaginação alheia, como ocorreria se as graciosas criaturas de alguma região infantil do País das Fadas falassem cockney ou gascão, o que rebaixaria o conto, por mais belamente iniciado, ao nível do burlesco, a menos digna de todas as formas literárias, e assim as invenções de um homem podem ser tolas ou engenhosas, mas se ele não se mantém fiel às suas leis ou faz uma lei colidir com outra, contradiz-se como inventor e não é artista, pois não combina bem seus instrumentos ou os afina em tons diferentes, já que a mente humana é produto da Lei viva, pensa por leis, habita no meio da lei e da lei extrai seu crescimento, só podendo chegar a algum resultado trabalhando com a lei, e as ideias desarmônicas que ocorram, se usadas, tornarão a obra enfadonha até ser abandonada por puro desinteresse, sendo a Lei o único solo em que a beleza cresce e a beleza o único tecido com que a Verdade pode vestir-se, cabendo à Imaginação o papel de alfaiate que corta suas vestes sob medida e à Fantasia o de aprendiz que junta as peças ou, quando muito, borda as casas dos botões, de modo que quem obedece às leis trabalha como seu criador e quem não obedece é tão tolo quanto quem amontoa pedras e chama o monte de igreja.

7. No mundo moral é diferente, pois ali se pode revestir de formas novas e empregar livremente a imaginação, mas nada se deve inventar, nem inverter suas leis para qualquer fim, nem interferir nas relações das almas vivas, já que as leis do espírito humano devem valer tanto neste mundo quanto em qualquer mundo inventado, e assim não seria ofensa supor um mundo em que tudo repelisse em vez de atrair o que o cerca, mas seria perverso escrever um conto que mostrasse um homem chamado bom fazendo sempre coisas más ou um homem chamado mau fazendo sempre coisas boas, ideia absolutamente sem lei, pois nas coisas físicas pode-se inventar, mas nas morais deve-se obedecer e levar suas leis também para o mundo inventado.

8. Objeta-se que se escreve como se o conto de fadas fosse algo importante e pergunta-se se ele deve ter um significado.

9. Um conto de fadas não pode deixar de ter algum significado, pois se tem proporção e harmonia tem vitalidade, e vitalidade é verdade, podendo a beleza ser nele mais evidente que a verdade, mas sem a verdade a beleza não existiria e o conto não daria prazer, embora cada um que sente a história leia seu significado segundo sua própria natureza e desenvolvimento, um lendo nela um significado e outro, outro.

10. Pergunta-se então como ter certeza de não estar lendo no conto o próprio significado em vez de extrair dele o do autor.

11. Não há por que ter essa certeza, pois pode ser melhor ler no conto o próprio significado, operação talvez mais elevada do intelecto que a mera extração do significado do autor, e o significado do leitor pode ser superior ao dele.

12. Pergunta-se ainda o que dizer a uma criança que pergunte o que significa o conto de fadas.

13. Se não se sabe o que significa, nada mais fácil que dizê-lo, e se se vê nele um significado, ali está ele para ser dado à criança, pois uma verdadeira obra de arte deve significar muitas coisas, e quanto mais verdadeira sua arte, mais coisas significará, enquanto um desenho tão distante de ser obra de arte que precise da inscrição ISTO É UM CAVALO pouco importa que ninguém saiba o que significa, já que a obra está ali menos para transmitir um significado que para despertá-lo, devendo ser posta de lado se nem sequer desperta interesse, pois o significado pode estar lá, mas não para quem não o capta, assim como a quem não reconhece um cavalo ao vê-lo o nome escrito embaixo de pouco servirá, não sendo, afinal, ofício do pintor ensinar zoologia.

14. As crianças, porém, dificilmente se preocuparão com o significado, pois encontram o que são capazes de encontrar, e mais seria demais, não se escrevendo para crianças, mas para os de alma infantil, tenham cinco, cinquenta ou setenta e cinco anos.

15. O conto de fadas não é uma alegoria, ainda que possa conter alegoria, e só um verdadeiro artista pode produzir, de qualquer modo, uma alegoria estrita que não canse o espírito, pois uma alegoria há de ser obra-prima ou lodaçal.

16. O conto de fadas, como a borboleta ou a abelha, serve-se de todos os lados, sorve de cada flor saudável e não estraga nenhuma, assemelhando-se muito à sonata, que todos sabem significar algo e cuja interpretação, com a faculdade de falar com a devida vagueza e de escolher metáforas suficientemente soltas, permite a aproximação de mentes numa consciência mais ou menos satisfatória de simpatia, mas se dois ou três homens escrevessem cada um o que a sonata significa para si, pouca aproximação de uma ideia definida resultaria, e esse pouco seria mais que o necessário, pois se veria que ela despertou sentimentos aparentados, se não idênticos, mas provavelmente nenhum pensamento comum, sem que a sonata tenha por isso fracassado, já que não se propôs nem se deve esperar que transmita algo definido ou nocionalmente reconhecível.

17. Objeta-se que as palavras não são música e que ao menos elas se destinam e se prestam a transmitir um significado preciso.

18. Muito raramente as palavras transmitem o significado exato de quem as usa, e se podem ser usadas para transmitir um significado definido, não se segue que nunca devam transmitir outra coisa, pois são coisas vivas que podem ser empregadas de diversos modos para diversos fins, transmitindo um fato científico ou lançando no coração de uma mãe a sombra do sonho de seu filho, juntadas como as peças de um mapa recortado ou dispostas como as notas numa pauta, sem que a música nelas deva ser desprezada por pouco contribuir para a precisão do significado, já que têm comprimento, largura e contorno, mas também algo a ver com a profundidade, devendo não só descrever, mas também impressionar, assim como a causa das lágrimas de uma criança pode ser inteiramente indefinível sem que a mãe careça de antídoto para sua vaga aflição, e o que não tem contorno evidente pode ser forte em cor, pois um conto de fadas, uma sonata, uma tempestade que se forma ou uma noite sem limites arrebatam sem que se comece logo a lutar com eles perguntando de onde vem seu poder e para onde levam, estando a lei de cada um na mente do compositor e fazendo um homem sentir de um modo e outro de outro, sendo a sonata para um um mundo de perfume e beleza e para outro apenas consolo e doçura, e o encontro das nuvens para um uma dança selvagem com um terror no coração e para outro uma marcha majestosa de hostes celestes com a Verdade no centro indicando o rumo mas ainda contendo a voz, já que as maiores forças residem na região do não compreendido.

19. Indo mais longe, o melhor que se pode fazer pelo semelhante, depois de despertar sua consciência, não é dar-lhe coisas em que pensar, mas despertar coisas que estão nele, ou fazê-lo pensar por si mesmo, assim como o melhor que a Natureza faz é produzir estados de ânimo em que surgem pensamentos de alto alcance, sem que nenhum de seus aspectos desperte um único pensamento, sugira uma só coisa definida ou faça dois homens no mesmo lugar e no mesmo instante pensarem o mesmo, e sem que por isso seja um fracasso, pois desperta algo mais profundo que o entendimento, a potência subjacente aos pensamentos, pondo em movimento o sentimento e assim o pensamento, de muitos modos e não de um só, sendo geradora de estados de ânimo e provocadora de pensamentos, como devem ser a sonata e o conto de fadas.

20. Objeta-se que assim um homem pode imaginar na obra o que quiser, inclusive o que o autor nunca pretendeu.

21. Não o que quiser, mas o que puder, pois se não for um homem verdadeiro extrairá o mal do melhor, e não importa como trate qualquer obra de arte, e se for verdadeiro imaginará coisas verdadeiras, pouco importando se o autor as pretendeu ou não, já que lá estão mesmo que ele não possa reivindicar tê-las posto, residindo uma diferença entre a obra de Deus e a do homem em que a obra de Deus não pode significar mais do que Ele quis, enquanto a do homem deve significar mais do que ele quis, pois em tudo o que Deus fez há camada sobre camada de significação ascendente e Ele exprime o pensamento em formas cada vez mais elevadas desse pensamento, e são as coisas de Deus, seus pensamentos encarnados, as únicas de que o homem dispõe, modificadas e adaptadas a seus fins, para exprimir seus próprios pensamentos, de modo que suas palavras e figuras inevitavelmente se combinam na mente de outro de maneiras que ele não previu, tantos são os pensamentos aliados a cada pensamento, as relações implicadas em cada figura e os fatos insinuados em cada símbolo, podendo o próprio autor descobrir verdades no que escreveu, já que lidava o tempo todo com coisas vindas de pensamentos além dos seus.

22. Objeta-se que ao menos se deveria explicar a própria ideia a quem a pedisse.

23. Quem não sabe desenhar um cavalo não deve escrever ISTO É UM CAVALO sob o que tolamente pretendia que o fosse, e qualquer chave para uma obra de imaginação seria quase tão absurda, pois o conto está ali não para esconder, mas para mostrar, e se nada mostra à janela de alguém, este não deve abrir-lhe a porta, mas deixá-lo lá fora no frio, já que pedir explicação equivale a exigir que as rosas sejam fervidas para serem aceitas, e ainda que os contos não sejam rosas, não devem ser fervidos.

24. Enquanto se julga que o cão sabe latir, não há por que ficar acordado latindo por ele.

25. Se o objetivo de um escritor é a convicção lógica, não deve poupar esforço lógico, não só para ser compreendido, mas para evitar ser mal compreendido, mas se seu objetivo é comover pela sugestão, fazer imaginar, deve assaltar a alma do leitor como o vento assalta uma harpa eólia, despertando a música que nele houver, e o conto de fadas deve ser como um vaga-lume que ora brilha, ora se apaga, mas pode voltar a brilhar, e que, preso numa mão que não ama sua espécie, se converte numa coisa insignificante e feia que não pode brilhar nem voar.

26. O melhor modo de lidar com a música não é aplicar-lhe as forças do intelecto, mas ficar quieto e deixá-la agir sobre a parte do ser para a qual existe, pois a ganância intelectual estraga inúmeras coisas preciosas, e quem quer ser homem e não quer ser criança acaba inevitavelmente por tornar-se um homenzinho, isto é, um anão, sem precisar de consolo, pois certamente se julgará uma criatura muito grande.

27. Se alguma nota dessa música partida fizer brilhar os olhos de uma criança ou turvar por um instante os de sua mãe, o trabalho não terá sido em vão.

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