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Kafka

Gilles Deleuze e Felix Guattari. Kafka. Por uma literatura menor. Tr. Cintia Vieira da Silva.

Como entrar na obra de Kafka? É um rizoma, uma toca. O Castelo tem “entradas múltiplas” cujas leis de uso e distribuição a gente não sabe muito bem. O hotel de América tem inúmeras portas, principais e auxiliares, às quais velam outros tantos recepcionistas, e mesmo entradas e saídas sem portas. Parece, no entanto, que a Toca 1)), na novela com este nome, tem só uma entrada; no máximo, o bicho imagina a possibilidade de uma segunda entrada que teria apenas uma função de vigilância. Mas é uma armadilha, do bicho, e do próprio Kafka; toda a descrição da toca é feita para enganar o inimigo. Entrar-se-á, então, por qualquer parte, nenhuma vale mais que a outra, nenhuma entrada tem privilégio, ainda que seja quase um impasse, uma trincheira estreita, um sifão, etc. Procurar-se-á somente com quais outros pontos conecta-se aquele pelo qual se entra, por quais encruzilhadas e galerias se passa para conectar dois pontos, qual é o mapa do rizoma, e como ele se modificaria imediatamente se se entrasse por um outro ponto. O princípio das entradas múltiplas impede, sozinho, a entrada do inimigo, o Significante, e as tentativas para interpretar uma obra que apenas se propõe, de fato, à experimentação.

1)
Em português, o título da novela é A construção. Manteremos o termo “toca” ao longo do texto devido à sua importância conceitual para Deleuze e Guattari, uma vez que se trata de uma versão animal do rizoma, conceito de extrema importância em Mil platôs. (N.T.
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