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SIMBOLISMO DA ÁGUA

DEGHAYE, Pierre. De Paracelse à Thomas Mann: les avatars de l’hermétisme allemand. Paris: Dervy, 2000.

  • O Conto (Das Märchen) de Goethe, publicado no final das Conversações de Emigrantes Alemães (1795), é uma obra enigmática cuja chave ainda não foi encontrada, e o evento central que nela se narra é a edificação de uma ponte sobre um rio.
    • A ponte edifica-se por si mesma, as suas pilastras emergem pelo seu próprio movimento, sendo verdadeiramente uma emanação da água.
    • O seu surgimento é o cumprimento de uma profecia: antes do ponte definitiva, um primeiro ponte luminosa é formada pelo corpo da serpente, ao sol do meio-dia e à meia-noite, composta de pedras preciosas cujas cores compõem a luz.
    • Após a morte voluntária da serpente, as pedras preciosas dispersam-se, são recolhidas e lançadas ao rio, onde se reúnem para formar as pilastras da ponte definitiva.
  • O simbolismo da água no Conto articula-se em três formas distintas: a água do rio, a água do lago e a umidade do pântano, cada qual com uma qualidade espiritual própria.
    • A água do rio é inicialmente tenebrosa, violenta e maléfica; à medida que a ponte se edifica, transforma-se em luminosa, apaziguada e fonte de rejuvenescimento.
    • A água do lago é tranquila, circunscrita e dócil: propaga a música de uma harpa formando ondas, e porta o velho sábio (o homem da lamparina) que desliza sobre ela como um patinador sem que a água esteja gelada.
    • A umidade do pântano, situada a oeste, é a água mais vil, mas é dela que emana a primeira aparição da luz no Conto: as chamas (os fogos-fátuos) emitem uma luminescência que é ouro vulgar, comparável à matéria vil com que se produz o ouro dos sábios.
  • O ouro vulgar dos fogos-fátuos, derramado na barca do barqueiro, não pode ser aceite pelo rio e é lançado numa fenda profunda na montanha a oeste, onde dorme a serpente que o devora.
    • No ventre da serpente, o ouro vulgar transforma-se em verdadeira luz que ilumina as profundezas sob a montanha, revelando um santuário que, segundo a profecia, será erguido na margem leste quando a ponte definitiva for visível.
    • A luminescência do pântano torna-se assim uma verdadeira luz à medida que a serpente a assimila, fazendo-a resplandecer sobre o rio ao curvar o seu corpo em forma de ponte semelhante a um arco-íris.
  • A luz nasce do acordo entre o fogo e a água, cuja união se realiza progressivamente no rio e parece assegurada na paz do lago; a luz da lamparina é o fruto dessa união.
    • A lamparina do velho sábio é descrita por ele como o espírito que o move; espirra (spratzeln), indicando a presença da água em contacto com o fogo, mas sem combate, antes criando uma atmosfera de paz e harmonia.
    • A luz da lamparina é o ouro da sabedoria: transforma pedras em ouro, mas esse metal é de natureza superior ao ouro vulgar dos fogos-fátuos; o fogo da lareira deve apagar-se para que a lamparina do sábio irradie.
    • O simbolismo da água explicita-se segundo um movimento ascendente: da natureza inferior das chamas dos fogos-fátuos, eleva-se de claridade em claridade, espiritulizando-se como o fogo e o ouro.
  • O surgimento do templo sepultado sob a montanha marca o cumprimento da profecia: o templo deve aparecer na margem leste para que a ponte definitiva seja visível.
    • O santuário é uma nave que voga sobre as águas do abismo: os rochedos abrem-se, a fenda profunda onde habitava a serpente enche-se de água, e o flot do abismo, ao contrário das águas ameaçadoras da primeira noite, porta a nave anunciadora da salvação.
    • A travessia realiza-se sob o rio, de oeste para leste, nas profundezas abissais; quando a ponte for construída, far-se-á à luz do dia e nos dois sentidos.
    • A cabana do barqueiro, iluminada por dentro pelo sábio que ela havia sepultado, transforma-se em tabernáculo de prata, tornando-se o santo dos santos dentro do santuário maior.
  • No interior do templo celebra-se uma investidura e um casamento: o jovem príncipe recebe as insígnias da realeza e desposa Lilia, Flor de Lis, e quando a ponte aparece, ambos são o rei e a rainha.
    • A ponte é um símbolo de união, havendo uma analogia perfeita entre o que se cumpre no rio e o himeneu celebrado no santuário: há correspondência entre os elementos e o mundo humano.
    • A água do rio dá a vida: a esposa do homem da lamparina, que nela tinha mergulhado a mão que ficou negra, banha-se ao amanhecer do glorioso advento e sai transfigurada em bela jovem; todo aquele que se banhar será rejuvenescido.
    • O velho sábio, porém, está dispensado do banho, pois já nasceu segundo o espírito; o seu rejuvenescimento exterior apenas torna aparente o que era já interiormente.
  • Lilia é a encarnação da beleza amaldiçoada: irresistível e encantadora, não pode ser tocada sem que quem a toque morra, e quem se deixa fascinar pelo seu olhar se consome.
    • O jovem príncipe, consumido pela paixão, lança-se ao seio de Lilia e cai inanimado; pela virtude da lamparina ressuscitará e, no santuário sobre as águas do abismo, unir-se-á a Lilia.
    • O vermelho que colore as faces de Lilia quando o rei ressuscitado a pode finalmente abraçar é, para Goethe como para os alquimistas, a cor do cumprimento: a plenitude da luz que brilha eternamente sobre o rosto da rainha.
    • A aurora que faz resplandecer a ponte é o efeito do amor; a luz que enche os fiéis do templo de admiração e de Ehrfurcht (reverência), palavra cara a Goethe, é do domínio do sagrado.
  • Eros é a força universal que comanda toda a ação do Conto, desde os fogos-fátuos que correm em busca de Lilia até ao sacrifício da serpente e à morte e ressurreição do príncipe.
    • Eros age nas profundezas da terra onde desperta o desejo de luz da serpente, no fluxo do rio, na água do abismo que se eleva em direção ao céu, e na onda do lago que porta o homem da lamparina.
    • A correspondência entre a união dos amantes reais e a edificação da ponte não é acidental: a força que une os elementos é a mesma que desposa o príncipe e Lilia; Goethe teria podido inscrever no frontal do templo o verso que escreverá para a festa do mar Egeu no Faust II: So herrsche denn Eros, der alles begonnen!
    • O mesmo princípio (Stirb und werde) governa o sacrifício da serpente e a morte e ressurreição do príncipe: é necessário morrer para nascer; as pedras preciosas do corpo da serpente, dispersas e reunidas, imortalizam-na nas pilastras da ponte indestrutível.
  • O círculo é a figura ideal da ponte e do espaço de luz que ela delimita nas águas, encontrando eco tanto na cosmogonia bíblica (Deus traça um círculo à superfície das águas para separar a luz e as trevas) como nas palavras do príncipe.
    • O príncipe exclama antes da sua morte: Vou continuar a percorrer este triste círculo? (Soll ich länger den traurigen Kreis abmessen?); esse círculo de sofrimento infinito tornar-se-á o espaço onde o milagre se cumpre.
    • No Conto, é o Amor que delimita o espaço de salvação no meio do fluxo ameaçador, dominando o caos; o homem da lamparina afirma que o Amor cria as formas, sendo a primeira forma que o Amor faz aparecer a da luz recortada no caos líquido.
    • O simbolismo do Dilúvio e da arca está presente: o rio que transborda evoca as águas do Dilúvio, e o templo que voga sobre as águas evoca a arca de Noé; a arca profética de Jeremias, sepultada no monte Nebo e destinada a permanecer secreta até ao dia da misericórdia divina, pode também ter estado presente no espírito de Goethe.
  • A dívida da velha esposa do sábio, contraída por fraqueza humana e impossível de quitar por si mesma, é a figura da dívida do gênero humano que será remida no banho da aurora do novo milênio.
    • É a sombra do gigante que roubou os três legumes destinados ao rio; mesmo quando a luz jorrar ao amanhecer glorioso, essa sombra subsistirá, pois nunca haverá luz sem sombra; contudo, nesse dia do renovamento, a sombra tornar-se-á útil como gnômon, assujeitada à luz.
    • A analogia com a concepção cristã do pecado e da remissão é evidente: a dívida de que a criatura é incapaz de se libertar, a parte de trevas que é a sua causa, a impureza a lavar, a misericórdia concedida em virtude de um sofrimento exemplar, a redenção pelo amor.
    • Goethe era favorável à doutrina da apocatástase (o restabelecimento de todas as coisas), como o diz no texto de 1773 apresentado como traduzido do francês sob a máscara de um pastor de aldeia; a hipótese de que o Conto seria um tratamento esotérico desse tema tabu, envolto em aparência poética, é plausível e explicaria o esoterismo do Conto tão frequentemente mencionado.
  • O simbolismo do renovamento do mundo remete ao mito cosmogônico do primeiro começo: no fim dos tempos, o primeiro ato da cosmogonia reproduz-se, e um mundo novo surge da água.
    • O reino que se instaura não é um Estado profano mas um reino espiritual cujo templo é o centro; o povo é composto de verdadeiros fiéis e peregrinos que vão e vêm sobre a ponte em direção ao centro e irradiam pela extensão do reino.
    • Para entrar no novo milênio, o velho casal deve casar-se de novo, em referência à teoria swedenborguiana dos casamentos celestes, que Goethe conhecia: as uniões terrestres são renovadas no céu quando as afinidades entre as almas se confirmam.
    • A leitura ao nível do mito, no sentido que Mircea Eliade lhe restituiu (o relato de um evento primordial que se desenrola na aurora do tempo e que toma um valor exemplar), é a que melhor capta a dimensão do Conto, pois quando um reino toma as dimensões do macrocosmo, deixa de ser uma entidade política.
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