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INTRODUÇÃO

Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.

Graças ao Sr. Theodor Friedrich, autor de um erudito estudo sobre os contes de Goethe, posso acrescentar algumas precisões relativas à gênese da “Serpente Verde”.

Depreende-se da correspondência trocada, em 1795, entre Goethe e Schiller, que o autor do Märchen pretendia compor um conto conforme a estética literária do gênero. Ora, Goethe estimava que um relato fantástico deve visar apenas a distrair agradavelmente o leitor, proporcionando-lhe surpresas, sem lhe propor enigmas torturantes. Fiel a essa concepção de um conto desprovido de esoterismo, Goethe dedicou-se ao trabalho abandonando-se à sua fantasia, divertindo-se com as imagens que lhe surgiam e cogitando apenas coordená-las em um relato cativante. Não se tendo preocupado em simbolizar fosse o que fosse, como o poeta não se divertiria com as interpretações sutis sugeridas por suas pretensas segundas intenções? Ele havia sistematicamente feito abstração de todo hermetismo, velando as imaginações em delírio de exegese!

Filósofo racionalista, Goethe sorri; responde com polidez, mas não sem ironia, às entusiásticas felicitações do príncipe Augusto de Gotha, para quem o Märchen dissimula uma poderosa Apocalipse. Goethe declara não ter cogitado profetizar e, ainda menos, refletir seus contemporâneos na pesadez de um gigante ou na vulgaridade de cabeças de couve. “Vossa Alteza julgará por minha própria interpretação, que não pretendo publicar senão após 99 predecessores, pois, em tal caso, é sempre apenas o último intérprete que capta a atenção.” (Carta de 21 de dezembro de 1795).

Dialogando mais tarde com Riemer (21 de março de 1809), Goethe tomou como base as interpretações da Apocalipse, então aplicadas a Napoleão, para atribuir uma elasticidade análoga ao Märchen, interpretado por Schubert em um sentido e em sentidos mui diferentes por outros exegetas: “Cada qual nele adivinha algo, mas ninguém consegue discernir ao certo do que se trata”.

Notemos ainda a intenção que Goethe comunicou a W. de Humboldt, em 27 de maio de 1796, de compor um conto, desta vez inteiramente alegórico, “do qual não poderia resultar senão uma obra de arte de valor inferior, se eu não tivesse a esperança de distrair a cada instante da alegoria pela vivacidade da representação”.

Esse conto de esoterismo premeditado jamais viu a luz. Goethe preferiu finalizar, em 1807, A Nova Melusina e, em 1811, O Novo Paris, contos de juventude, de temas sem pretensão, que não inquietaram nenhum exegeta. São relatos divertidos, mas que não dão o que refletir.

O Märchen, ao contrário, fascina o pensador. É um enigma real, do qual o próprio Goethe, por confissão própria, não possuía o segredo, e que não posso ter a pretensão de haver adivinhado, a despeito do talento que houve por bem me atribuir Albert Lantoine. Fiz o melhor que pude, como Charlotte von Kalb, a esposa de Schiller, e, após ela, os intérpretes sucessivos que publicaram seus comentários sobre o Märchen. Já éramos mais de trinta em 1923, segundo o Sr. Theodor Friedrich, mas nenhum de nós penetrou o impenetrável mistério, que é o da natureza humana.

Os personagens do conto são os atores do drama da vida; eles atuam, sob outros disfarces, em todos os poemas de profunda inspiração. Os criadores de mitos souberam evocá-los e eles se revelaram aos artistas que traçaram imagens significativas como as do Tarô.

No Märchen, é a vida atual, cotidiana, que avoluma as águas do Rio, cujas margens figuram o passado cumprido e o futuro projetado, sonhado. Com um remo experiente, o Barqueiro domina a atualidade; sua barca é a de uma fé fixa que resiste às opiniões mutáveis. Clarões caprichosos, os Fogos-Fátuos lambem o ouro superficial do verdadeiro, que semeiam condensado em moeda. São os belos espíritos tagarelas que surgem na noite da inteligência para difundir noções sutis e sugestivas, embora desprovidas de profundidade. Fortuitamente estimulada pelo gosto da alimentação luminosa, a Serpente busca instrução junto aos filósofos frívolos e ilumina-se interiormente; ela digere o ouro e torna-se luminosa à semelhança dos vaga-lumes. Sua fosforescência permite-lhe reconhecer os Reis da cripta sagrada, onde precede o Velho da Lâmpada, cuja sabedoria projeta nas trevas atenuadas uma claridade sem sombra.

Sem ir mais longe, é admissível que tais fantasias sejam vazias de sentido? Se, ao escrever, Goethe estava preocupado com a boa literatura e não com mistérios, ele não pôde escapar às combinações secretas de seu gênio poético. Toda personalidade se complica por estados inconscientes, sobretudo a dos grandes imaginativos, cuja imaginação pode trabalhar à parte do raciocínio deliberado. Nada o prova melhor que o caso do Märchen.

Goethe quis redigir um conto modelo, típico do gênero. Ele obteve êxito para além de sua estética excessivamente estreita. Aceitando o que lhe vinha ao espírito, tornou-se o médium de sua imaginação genial. Esta concebe e coordena o que se sonha à revelia da prosaica razão discursiva. O fenômeno da inspiração explica-se pela ação, sobre o entendimento receptivo, de um pensamento vivo, acumulado e organizado por si mesmo na ambiência do sujeito. Nosso cérebro é sensível apenas a uma pequena parte da ideação que gravita ao nosso redor. Ao artista que busca o belo, o verdadeiro pode vir por acréscimo. Não hesitemos em buscar no conto enigmático de Goethe a verdade profunda, inexpressa, que assombrava o espírito do prodigioso poeta, cuja vidência foi de quilate superior.

Maio de 1935.

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