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MATILA C. GHYKA. SORTILÈGES DU VERBE

No princípio era o Verbo.

Todos, ao falar ou escrever, utilizam palavras, ou seja, sinais ou símbolos fonéticos ou gráficos; além disso, algumas pessoas amam as palavras por si mesmas, da mesma forma que amariam gatos ou cerâmicas chinesas.

Confesso desde já que pertenço precisamente a essa categoria de amantes da palavra em si; essa é minha única desculpa para a apresentação deste ensaio, não sendo nem filólogo nem gramático de profissão, mas um simples amador. Amador, aliás, implica amor; é aos amantes de palavras e até mesmo de jogos de palavras que se dirige este divertimento semântico.

Os primeiros a atribuir às palavras um valor intrínseco definido, por vezes um poder mágico, foram os egípcios.

As “palavras de poder” ou “hékau” são mencionadas já no século XVI a.C. em um capítulo especial do Livro dos Mortos (capítulo que trata do uso das palavras de poder para chegar até Osíris no outro mundo); onde desempenham um papel ainda mais importante do que os talismãs ou sinais puramente formais; o Livro dos Mortos mostra que a alma do falecido deve valer-se dessas “palavras de poder” durante toda a viagem ao outro mundo.

Encontraremos essas senhas nos mistérios, nas tabuinhas funerárias pitagórico-órficas, depois nos ritos das corporações de lapidadores, pedreiros, maçons profissionais e, finalmente, na maçonaria “especulativa”; sua linha de transmissão está ligada à dos símbolos gráficos, dos quais o mais importante é o pentagrama dos pitagóricos, símbolo da harmonia e, aliás, sinal da proporção áurea.

É Ísis que, no Egito, assim como na Grécia sua correspondente Deméter — Ceres dos mistérios de Eleusis —, é a divindade especialmente associada às palavras mágicas… a expressão «Ísis, a senhora das palavras mágicas» surge com frequência.

Uma inscrição de caráter fortemente «incantatório» diz:

«Eu sou Ísis, a Deusa, a Senhora das palavras de poder… as palavras cujas vozes são Magia.»

No texto gnóstico copta chamado Papiro Bruce (em Oxford), no qual Gnose e Magia estão intimamente entrelaçadas, já se fala do “Grande Nome” secreto, inexprimível, cujo mistério lança sua sombra sobre toda a Cabala; trata-se do Esquema incommunicável, soletrado “Yod Hé Vav Hé”. Das dez Sefirot do Zohar, ou “Livro do Esplendor”, são também “palavras de poder” e, ao mesmo tempo, as “noções numéricas de Deus”. A palavra 1) que permitia ao Rabino Dœw animar ou “colocar em espera” seu Golem também se relaciona com a magia egípcia, que afirmava poder criar homúnculos por meio da insuflação de palavras mágicas; a Verdade (Emeth) do Rabino Dœw evoca Maat, a deusa egípcia da Verdade, que desempenha um papel tão importante no Julgamento da Alma. A busca pela “Palavra Perdida” marca os ritos dos Rosacruzes e dos Maçons. E sabe-se que o Evangelho segundo São João começa com a afirmação: “No princípio era o Verbo.”

O apóstolo São João e São João Batista aparecem, aliás, com persistência nas tradições gnósticas, assim como nas dos Templários e da Maçonaria (ritos “joanitas”).

Quanto a esse aspecto “incantatório” das palavras consideradas como “feitiços” ou talismãs, já me dediquei a isso em outras obras; tentei, além disso, analisar, no que diz respeito aos ritmos na duração (em oposição aos desenvolvimentos rítmicos no espaço), o valor rítmico das palavras tomadas como elementos dos fonemas ((Em francês, o fonema consiste em uma sequência de sílabas átonas seguidas de uma tônica (sílaba marcada por um acento de intensidade); o francês é uma língua de acento iâmbico. Mas, às vezes, o fonema se reduz a uma única sílaba tônica.

Exemplo:

Sim! / Grande Mar / de delícias / dotadas /…

As mãos cheias / dos dias leves / que carregamos…

Na prosódia, as sílabas mudas no final do verso fazem parte do último fonema.), sendo estes, por sua vez, os elos de um tecido formado por frases. Seja na prosa ou nos textos poéticos, o ritmo (“periodicidade percebida”, como o define P. Servien) está em toda parte, evidente ou oculto, ligado de maneira sutil aos ritmos vivos, fisiológicos e afetivos. É na poesia que os “números” do ritmo são mais evidentes; é especialmente sob esse ponto de vista do número (vale lembrar que rythmos e arithmos, ritmo e número, são no grego antigo as duas faces do mesmo conceito) que, nos estudos acima mencionados, tentei detectar certas leis nas ondulações rítmicas da linguagem.

Aqui, por outro lado, não nos ocuparemos de forma alguma do ritmo nem de seus números, mas, repito, desses elementos da trama do discurso que são as palavras, o que poderíamos chamar, para mudar de imagem, de “tijolos” da linguagem.

Esses tijolos têm, cada um, sua individualidade, sua textura e sua estrutura; têm também seu passado arqueológico, ou seja, uma etimologia, e uma ação semântica de sugestão por associação de ideias, evidente ou obscura. Esses três pontos de vista: substância (textura-estrutura), etimologia e ação semântica, misturam, aliás, suas raízes e seus efeitos da maneira mais íntima, como podem constatar todos aqueles que tentam fornecer um quadro lógico a um estudo desse tipo. Vagaremos, portanto, primeiro à vontade pela floresta dos signos, ora um bosque obscuro, ora um parque com alamedas claramente traçadas; depois, aproveitando o fato de que toda palavra pode, precisamente por ser um signo, ser considerada uma metáfora, passaremos dessas metáforas condensadas para as mais articuladas, que conferem a todo texto literário suas imagens mais ou menos cintilantes, seus reflexos analógicos.

E, por meio da metáfora e da analogia, sua irmã mais abstrata, seremos levados de forma bastante natural a examinar, por fim, certas técnicas de composição nas quais o artista, ajustando os “tijolos” elementares do discurso, serve-se da analogia, de suas perspectivas, de seus reflexos e de suas recorrências, como outrora o arquiteto grego e depois o gótico faziam com os jogos de proporções harmoniosamente relacionados ao tema principal da planta, que ele encaixava em seus traçados reguladores sinfônicos.

O Jogo do Mesmo e do Outro.

1)
A palavra soletrada era Aleph Mem Tau, ou Verdade; ao suprimir a primeira letra, transformava-se em Meth, a Morte.
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