Eco, Umberto
STAUDER, Thomas. Colloqui con Umberto Eco. Milano: La nave di Teseo, 2024.
Como filósofo leigo – ele havia perdido sua fervorosa fé católica ao final de seus estudos¹¹ –, Eco considerava a morte uma das tarefas mais importantes a serem enfrentadas, um limiar inevitável para todos os seres humanos, que deve ser ponderado de forma racional e antecipada. Em seu terceiro romance, A Ilha do Dia Anterior, ele fez com que o protagonista Roberto formulasse reflexões semelhantes:
Somente o filósofo sabe pensar na morte como um dever, a ser cumprido de boa vontade e sem medo. […] Por que eu teria passado tanto tempo conversando sobre filosofia se agora não fosse capaz de fazer da minha morte a obra-prima da minha vida? (IGP, 433)
Durante a conversa sobre esse romance, chamei a atenção de Eco para a extraordinária presença do tema da morte nessa obra; sua resposta foi que isso não podia ser explicado apenas pelo fato de que a trama se passava no período barroco, dominado pelo pensamento da vanitas, mas também estava ligado ao fato de que ele estava envelhecendo e, portanto, atribuía cada vez mais importância à reflexão sobre a morte. Naquela ocasião, ele também me contou que já havia escolhido como epitáfio uma citação de A Cidade do Sol, de Tommaso Campanella, e que a havia incluído em seu testamento: “Espere, espere. – Não posso, não posso.”
Quando, depois de termos falado sobre Número zero, estávamos indo para o Quattro Mori – um dos restaurantes habituais de Eco perto de seu apartamento na Piazza Castello –, senti a necessidade de distraí-lo desses pensamentos sombrios, fazendo referência à imortalidade que ele havia conquistado por meio de suas obras. Sua resposta lacônica parecia pouco entusiasmada: “Bah, a imortalidade…” Mais importantes para ele no final de sua vida eram provavelmente a família e, sobretudo, os netos, que ele gostava de ver com frequência, e sobre os quais me contou algumas histórias nessa ocasião.
Essa adesão a valores privados, simples mas essenciais, distantes das prioridades habituais de um intelectual, já está prefigurada em O Pêndulo de Foucault. Nesse romance, Lia, a companheira de Casaubon, não apenas encarna uma espécie de raciocínio com os pés no chão, desmascarando o suposto plano secreto dos Templários como uma farsa e pondo assim fim às especulações esotéricas baseadas nele; quando engravida, ela também representa a continuidade da vida e, no final, diante da morte, Casaubon percebe que seu filho é a coisa mais importante para ele:
“Dói-me pensar que não verei mais Lia e o bebê, a Coisa, Giulio, minha Pedra Filosofal. Mas as pedras sobrevivem sozinhas. […] Merda. E, no entanto, dói. Paciência, assim que eu morrer vou esquecer isso” (PF, 789-790).
