Dostoiévski
A ligação de Heidegger com Dostoiévski é bem conhecida (cf. Gerigk 2017). Dostoiévski é uma das poucas figuras não alemãs que ele cita consistentemente como influência em Ser e Tempo, e mantinha um retrato do russo em destaque em seu escritório. De fato, após assumir a cátedra de Husserl na Universidade de Freiburg, Heidegger supervisionou pessoalmente a aquisição da obra completa de Dostoiévski pela biblioteca da universidade (Schmid 2011). Mas suas referências mais reveladoras aparecem em cartas à sua esposa, Elfride. Em uma delas, escrita dos campos de batalha da Lorena em 1918, Heidegger pede dois itens para lhe dar algum conforto: uma fotografia do dia do casamento de Elfride “ao lado do girassol, com [seu] vestido de Worpswede [e] um exemplar de Os Irmãos Karamázov” (LW, 48, ênfase minha). E em uma nota reveladora de 1920, ele diz a Elfride que foi através dos escritos de Dostoiévski que aprendeu o que significava ter uma “pátria” (Heimat) e ter as “raízes no solo”. Ele continua incentivando-a a ler os escritos políticos de Dostoiévski para compreender adequadamente sua própria crítica à modernidade (LW, 72-73). Mas o que significa ter raízes no solo, e como a experiência moderna de desenraizamento pode contribuir para nossas explosões de raiva?
A experiência de estar desenraizado e sem lar, tanto para Dostoiévski quanto para Heidegger, é moldada pelo clima niilista que tomava conta da Europa e da Rússia em meados do século XIX. Nietzsche se refere à situação de maneira famosa em termos da “morte de Deus”, descrevendo o niilismo como o momento histórico em que “os valores mais elevados se desvalorizam. Falta o objetivo; o ‘por quê?’ não encontra resposta” (1968, 2). Sem uma concepção compartilhada do sagrado, não há valores vinculativos ou absolutos morais aos quais possamos recorrer em busca de orientação e inspiração. Nas palavras de Nietzsche,
Deixamos a terra para trás e embarcamos no navio! Queimamos nossas pontes — mais do que isso, demolimos a terra atrás de nós! Agora, pequeno navio, cuidado! . . . Chegam as horas em que reconhecerás que é infinito, e que não há nada mais aterrorizante do que o infinito. Ai de mim, — quando [108] a saudade da terra te dominar . . . já não há mais nenhuma “terra.” (2001, 141, ênfase minha)
(Aho2019)
