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SENTIDOS SOBRENATURAIS

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Quem se aproxima dos recintos sagrados pelas vias do século é tomado por duas angústias complementares: o terror de “perder” neles os cinco sentidos e, inversamente, o temor de permanecer carnal demais para esses recintos.

  • “Que a intimidade com o divino seja daqueles cinco sentidos a suprema ocasião — a ocasião da metamorfose — não será fácil comunicar-lhe isso, não é fácil há pelo menos dois séculos.”
  • De recente, segundo “a infalível escolha contemporânea da solução suicida tanto para o corpo como para o espírito”, preferiu-se deixá-lo acreditar que seus cinco sentidos podem servi-lo bem, tais como são, também para a vida sobrenatural.
  • “Entre natureza e sobrenatureza não se imporia mais nenhum hiato: a Encarnação de Cristo haveria providenciado a aplainar discriminações, abater recintos, rasgar véus de santuários.”
  • A liturgia, soberana iniciadora, resplandece, “luz coberta”, somente sobre as rochas mais inacessíveis — o Monte Atos, alguma cume beneditina — ou em mínimos columbários perdidos, esquecidos nas metrópoles.
  • O único poeta religioso hoje vivo, Andrei Sinjavski, fechou em duas palavras a gesta perdida da qual se torna cada vez mais imperativo recordar: “Não se trata de superar a natureza, mas de substituí-la por outra natureza a nós desconhecida.”

1.

No coração de sua carta aos Romanos, o bispo Inácio de Antioquia — conduzido lentamente a Roma acorrentado a dez leopardos, onde o esperava o anfiteatro — escreveu dois períodos que se cruzam como veia e artéria.

  • “Sou trigo de Deus e sou moído pelo dente das feras para ser encontrado puro pão de Cristo. Não me proporcioneis nada além de ser oferecido em libação a Deus… É o pão divino que eu quero, que é a carne de Jesus Cristo da estirpe de Davi; e por bebida quero o seu sangue, que é o amor incorruptível.”
  • Os conteúdos são os comuns à segunda geração cristã, a que havia lido a Palavra nos próprios olhos daquelas ícones do Verbo: Pedro, João, Paulo — “o léxico vertiginosamente canônico da teofagia jorrava diretamente da Rocha originária.”
  • Três séculos mais tarde, o bispo João Crisóstomo, de sua cátedra, fala ao povo de Constantinopla: “Ele deu àqueles que o desejavam não só de vê-lo, mas de tocá-lo, de saboreá-lo, de morder sua carne… Nós saboreamos aquele que está sentado nos céus e adorado pelos Anjos, e eles não ousam olhá-lo enquanto nós dele nos alimentamos… Retornemos então da mesa eucarística como leões respirando fogo pelas narinas, tornados terríveis ao demônio.”
  • Um milênio depois, Francisco de Sales — “personagem entre os mais misteriosos dessa excessivamente misteriosa Contrarreforma” — faz ecoar o último eco do alto grito oriental de volta até Inácio: “Jesus, nosso alimento, sobre o qual exercemos o máximo dos domínios… qual não deverá ser nosso desejo de que ele nos possua, nos coma, nos mastigue, nos engula, faça de nós a seu prazer?”
  • No mundo cristão primitivo o milagre era tautológico — “a maravilhosa carnalidade da vida divina não precisava nem mesmo de prodígios”; recordavam-se, tremendo, das palmas aplicadas aos corpos selados pelo mal, dos dedos enfiados nos ouvidos dos doentes, da saliva posta sobre suas línguas, espalmada em suas narinas, amassada numa escarrada com o barro para abrir suas pálpebras.
  • “Adoráveis, inexplicáveis mãos do Verbo, das quais, através do ato central de seu culto, os éons dos éons haveriam de conservar memória.”

2.

Tudo isso permanecia escrito nos Evangelhos e a Igreja o estreitava e concedia, reproduzindo-o à letra nas imposições de mãos e insuflações de espírito, nas insalivações e administrações de alimento sacramental.

  • “E havia os objetos, os beijos, os atos, as palavras: eles mesmos ditos sacramentais porque prolongavam de algum modo no cotidiano a potência salutar dos sacramentos.”
  • “Essa sutil, terrível circulação — de pneuma, de prana, eu ousaria dizer às vezes de mana — que é a seiva mesma de uma religião, perpetuava-se na doutrina e no culto, mas no ensinamento vicário, por uma lenta alteração da morfologia da linguagem, ia se separando do viver cristão como atrás de um cristal cada vez mais espesso.”
  • “Nos textos da Missa latina celebrava-se imutavelmente uma imolação, continuava-se a suplicar com a antiga sublimidade que o corpo assumido e o sangue bebido do Verbo aderissem às vísceras purificadas das manchas da scelerateza”; mas os elementos corporais do tremendo haviam desaparecido de todas as homilias.
  • “A mesma antiga definição, tremendum hoc mysterium, com seu imenso peso também fônico, havia praticamente caído dos livros litúrgicos. O sacrifício, sempre fielmente lembrado, evaporava no espiritual.”
  • Algo da antiga sensualidade transcendente salvou-se melhor em certas paixões do povo, “tão rapidamente chamadas 'supersticiosas'”: no bisogno de tocar relíquias, de pressionar a boca sobre imagens e estátuas, de arrastar-se de joelhos pelos pavimentos dos santuários — “nada diferente fez a hemorroissa que se arrastou como um verme entre a multidão até aquela túnica tecida de uma só peça.”
  • “O Renascimento, a Reforma, a necessidade incessante das disputas teológicas, o Iluminismo sobretudo: cada prova foi pontualmente superada pela doutrina, mas pareceu arrancar consigo um fragmento da corporeidade radiante, da vívida pele da antiga vida cristã.”
  • “O que por séculos foi esquecido pelos corpos suprime-se sem dificuldade das almas.”

3.

O místico grego Simeão Metafrasto, numa ação de graças após receber as sagradas Espécies, assim orava: “Tu que és fogo que queima os indignos, não me queimes, meu Criador, mas antes passa por todos os meus membros, minhas vísceras, meu coração. Queima as espinhas de todos os meus erros, purifica a alma, santifica os pensamentos, robusteça minhas juntas junto com os ossos, ilumina meus cinco sentidos, prega-me todo com o teu temor… Purifica-me, lava-me, embeleza-me… Faze-me habitação do único Espírito.”

  • “É perfeitamente aparente, numa tal súplica, como a aquisição dos sentidos sobrenaturais implica a oblação dos naturais: estes lançados naqueles, acesos e consumidos naqueles, como as resinas preciosas na mistura do santo crisma.”
  • “'Eros não é senão o feixe de mirra', escreve um comentador de Inácio, 'que deve arder e desaparecer no fogo do ágape.' Que se possa falar aqui de repressão ou sublimação é degradante ao só lembrar.”
  • “'Saltarão os santos na glória, exultarão em seus leitos', recordou uma contemplativa moderna a primeira noite na qual, aferrada pela visitação divina, seu límpido corpo se elevou alguns centímetros acima da cama.”
  • “Nada é somente metafórico no domínio do invisível, onde a palavra é condição da substância como a substância o é da palavra, e menos ainda o é o tema nupcial.”
  • “A Santa Comunhão é ato de amor consumado com Deus, corpo a corpo, carne a carne. É condição preliminar do ato de amor tornar-se amável. Esta é a ascética.”
  • É Ireneu de Lião a estatuir: “Nossos corpos que recebem a Eucaristia não são mais corruptíveis” — e Inácio mesmo havia definido o Sacramento phàrmakon athanasìas: medicina de imortalidade.
  • “'Se um corpo', diz João Clímaco, 'vindo a contato com outro corpo sofre sob sua influência uma transformação, como não mudaria um homem que toque o corpo de Deus puramente?'”
  • “E eis o desabrochar, a floração daqueles novos órgãos e sentidos de inimaginável delicadeza: os olhos que veem o que outros não veem, além dos véus do espaço e nas grutas das consciências; os ouvidos que arrebatam locuções, músicas inexprimíveis; as narinas que farejam o horror e a graça; as papilas que sugam na hóstia sabor de maná, de sangue, de mel, de néctar.”
  • “A pele emana uma claridade semelhante a um fósforo ou a um flúor — povos a viram e pintores a testemunharam porque o nimbo e a mandorla de luz não são um achado simbólico da iconografia sagrada.”
  • Filipe Neri, antes da Missa, “nas profundas sacristias esculpidas, pelos altos corredores das velhas igrejas romanas, buscava diversão brincando com bichanos, gatinhos, pequenos pássaros e a canina ilustre, Capriccio” — e os cálices com os quais celebrava estavam todos marcados por seus dentes, de tão avidamente que os mordia ao sugar o “sangue vivificante.”
  • “'Uma alma apaixonada por Deus', chegou a dizer, 'vem a [um ponto] tal que é preciso que diga: Senhor, deixa-me dormir.'”
  • “Cor meum et caro mea exultaverunt in Deo meo” — onde não esteja essa dupla exultação, semelhante àquela que fez saltar o menino no ventre de Isabel, a soleira não parece ter sido cruzada.

4.

O Padre síriano Isaac formula em poucas frases a regeneração dos sentidos: “Quando, por obra da graça, [uma criatura vivente] adquire os sentidos do homem interior, recebe o leite de uma região colocada fora dos sentidos [naturais]… torna-se criatura visível do reino do Espírito e vem a receber o mundo novo que é o livre do múltiplo.”

  • “É a esse leite, parece, que alude o Intróito da Missa do Domingo in Albis — Quasi modo geniti infantes, rationabile, sine dolo, lac concupiscite: uma citação de São Pedro.”
  • “A nutrição, essa imprescindível entre as operações carnais, que assimila ao corpo uma parte da natureza e conjuga microcosmo a macrocosmo, a encontramos, em símbolo ou em substância, sempre à cabeça dos alfabetos espirituais.”
  • “As igrejas, e antes ainda as tradições, conjugaram estritamente a nutrição e a morte — libações funerárias, oferendas de comida aos mortos, bancas em torno ao cadáver.”
  • Gógol meditou esplendidamente sobre a Última Ceia como supremo banquete fúnebre: “Desaparecida de repente a mesa fúnebre, não há mais que o altar sacrificial… O Verbo suscitou o Verbo eterno. O sacerdote, erguendo a palavra como um gládio, realizou a imolação.”
  • “Nessa morte-festa come-se, ainda vivo, o morto imortal. Ele mesmo come, por assim dizer, a si mesmo enquanto outro o come — e que outro alimento pode saborear Deus senão a sua própria divindade?”
  • “Até no sufrágio perdura a nutrição, e este é o verdadeiro alimento dos mortos” — na Missa de defuntos que aparecia ofuscante numa cripta de abadia, o monge pousava sobre a hóstia grande as duas frágeis pequenas hóstias destinadas às duas casais, nos dois versantes opostos da vida; “e o fragmento de hóstia que se tinge e se dissolve no vinho era a vida que se dissolve mas não se perde na morte: vita mutatur, non tollitur.”
  • O santo sulista Pompílio Pirrotti, recitando as orações de sufrágio, circulava entre os crânios dos ossários pondo entre seus dentes pedacinhos de pão: “Oh, este sim que tem fome!”

5.

O santo é o homem em cuja pessoa parece impossível rastrear o vestígio da ferida originária — “e de fato quem quer que haja tido a ventura de encontrar um santo não lhe será fácil, pelo resto de sua vida, pronunciar sem extrema cautela a palavra beleza.”

  • “O homem de sentidos sobrenaturais está na fonte cristalina da espécie: aquela condição adâmica que Antônio Abade define como 'a pura essência originária da alma'”; um corpo precioso, fresco e resplandecente mesmo na grande idade é o seu selo, e o encanto sobre os animais que acorrem e ternamente obedecem.
  • “Não pode deixar de magnetizar o mundo animal uma incontaminada inocência da qual todavia a animalidade esteja completamente caída.”
  • “'Fechar o círculo, refazer-se, atravessado o amor incorruptível, um desses pequenos' — isso e nada mais é o 'céus novos e terra nova' do Apocalipse: corpo novo e mente nova, microcosmo e macrocosmo unificados na êxtase, livres, precisamente, do múltiplo.”
  • “Das figuras e fórmulas anemiadas de ontem, que todavia, como finíssimas cascas de ovo, ainda recolhiam toda a substância, o término do processo foi uma súbita inversão.”
  • “A inexpiável crucificação da beleza, o martírio universal do símbolo… subtraiu à percepção quanto o tremendo tem de mais próprio: aquele divino realismo que supera toda realidade criada.”
  • “O transcendente, mais uma vez, se mostra condição ineludível do real: suprimida a noção, os dentes mordem o vazio.”
  • “Somente se vivam, como viveram durante milênios, sobre esse fino e aterrorizante discrimine, têm sentido os esplendores do rito: as chamas, os incensos, as trágicas vestes, a majestade dos movimentos e dos rostos, o rubato de cantos, passos, palavras, silêncios, todo esse vívido, fulgurante, rítmico cosmo simbólico que sem trégua aponta, alude, remete a um seu duplo celeste, do qual não é senão a sombra impressa sobre a terra.”
  • “Sobre esse discrimine a razão mesma se retira ao seu modesto lugar natural e é antes o corpo que é chamado a reconhecer, saudar, receber o invisível.”
  • “'Nosso corpo', é ainda Antônio Abade quem ensina, 'é o altar onde nosso espírito deve imolar a alma com todas as suas paixões para que Deus desça.'”
  • “Nas igrejas orientais, onde graças ao céu o povo não profere verbo, uma corrente alta e constante que parte das Portas áureas do santuário atravessa os corpos direitos, tensos como arcos, curvando-os nos profundos saludos, jogando-os de joelhos, prostrando-os como um relâmpago até colá-los com a fronte, com o ventre sobre o pavimento.”
  • “Todos os cinco sentidos são lançados ao largo, fora do corpo, fora do 'espaço demoníaco' do mundo: para um estado de vigília aguda, sapientemente suscitado e perpetuado, que já é o começo de sua transmutação.”
  • Sinjavski refere a história de uma velhinha russa que, após o banho, recusa-se a deixar cortar as unhas “aduncas e monstruosas” porque “chegou minha hora, e como farei sem unhas para me trepar lá em cima, no monte de Deus?” — “É difícil que a velha tenha esquecido que seu corpo vai aos vermes. Mas suas figurações do Reino dos Céus são reais ao ponto de tornarem-se tangíveis. E a sua alma imortal ela a concebe com as unhas, a camisa grudada no corpo…”
  • Sinjavski “saúda naturalmente na velha a verdadeira espiritual” — e “parece que somente um homem educado por trinta anos ao ateísmo científico soube apreender o nó vital bloqueado, a veia mestra obstruída que separa e sufoca juntos o corpo e a mente humana.”
  • “No consternante silêncio do mundo religioso, será ainda uma vez aquele que tem domicílio no símbolo e na figura a gritar sem cansar para que o poder do real torne a aprisionar seus céus, o absoluto a transmutar sua terra: naquela nova natureza a nós desconhecida, construída com a divina saliva, que destila o leite e mel da suave razoabilidade.”
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