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TAPETE VOADOR

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

O “Livro das Noites” transborda de tapetes — tudo nele se passa, por assim dizer, sobre eles: Salomão voa num tapete para a batalha com os gênios rebeldes, enquanto os pássaros rasgam o ar acima dele e as feras marcham abaixo, à sombra daquele tapete; a amante astuta se faz enrolar nele para se introduzir à presença do seu senhor; cadáveres se ocultam em tapetes enrolados; sobre ele se dorme, se ama, se tocam instrumentos harmoniosos — e sobretudo se narra e se ora.

  • “E debruçando-se timidamente na porta, viu um pequeno oratório; ajoelhado sobre um tapete, um jovem recitava com voz harmoniosa o Santo Alcorão.”
  • O pequeno e leve tapete de oração que o piedoso muçulmano carrega em suas viagens permite que, nas cinco invocações diárias, usufrua em qualquer lugar da pureza de um espaço privilegiado, não tocado por pé infiel.
  • Nele está figurada a abside de oração em arco ogival, a ser voltada na direção de Meca — síntese ritual de uma mesquita, com uma lâmpada votiva suspensa no centro ou a ânfora lustral invertida, destilando flores, geralmente três cravos.
  • Um versículo do Alcorão fornece quase sempre a decoração mais estranha e liricamente eloquente — cânones metafísicos vinculam o tapete islâmico que abomina a figura humana, aprisionando-o, como toda obra de arte de consumada sabedoria, “na cruel beleza de uma estilização desdenhosa, preço e fruto de uma atávica educação contemplativa.”

Por que voa o tapete? — essa pergunta introduz o mistério central que o ensaio investiga.

  • Nos contos tradicionais ocidentais pode acontecer que uma princesa desperte num palácio desconhecido a mil milhas do reino de seu pai, e o cavalo alado é comum a muitas latitudes — mas o tapete voador permanece único, maravilhosamente inexplicável.

Livros encantadores sobre a arte do tapete revelam a imemorial geografia desse objeto — que é no fundo a geografia das Noites, tecida e narrada pelas mesmas migrações e miscigenações: turcos e gregos, judeus e persas, árabes e ciganos do Egito, sírios, armênios, circassianos, curdos, turcomanos, tártaros, mongóis.

  • O tapete mais antigo conhecido tem dezenove séculos — um tapete persa encontrado perfeito numa tumba real nos montes Altai, que atesta, com seus dez mil quilômetros de viagem, a total credibilidade da inacreditável Rota da Seda.
  • “Clima seco e duro, copiosa abundância de lãs e rebanhos, necessidade de transporte veloz e fácil” aproximam as estéticas e as técnicas.
  • Os diferentes planos da vida íntima e espiritual se unificam no tapete, fazendo dele “uma miniatura esquisitamente completa da tradição, que nada exclui, contanto que seja contemplado em seu máximo de pureza.”

Os “mestres do tapete” — bardos itinerantes do tear — passam de aldeia em aldeia, de região em região, como o antigo narrador de fábulas, dispensando aos artesãos locais os tesouros de sua portentosa memória.

  • Em todo lugar há o visionário singular — nômade que muito viu e muito guardou no coração; escravo tecelão arrancado à pátria, cuja nostalgia servida por mãos aladas é comprada a peso de ouro; poeta que apreende nexos e harmoniza figuras; místico cujo tapete implica oração e jejum, que dedica o ex-voto simbólico a Quem, enquanto ele atava e cortava as lãs multicoloridas, quis atravessar-lhe o urdume com um raio do seu esplendor.
  • “O gênio, em uma palavra, que é sempre gênio da raça como seu nome indica: uma mente habitada por um demônio, que unifica audazmente uma herança de energias biológicas, intelectuais, espirituais.”
  • O exemplar humano capaz de atar os dez mil nós do tapete de Senneh num decímetro quadrado sem perder de vista “uma visão total de luminoso sub-bosque onde o branco jasmim dá frescor a garças e rosados flamingos” — “um sempre em microscópico espaço” que deveria nos perturbar se considerássemos de quais meditações o anonimato régio de outrora revestia o solo sobre o qual o homem punha o pé.

O tapete é uma linguagem — e quem possui sua ciência pode ler um bukara como um resplandecente e sanguíneo poema.

  • As tradições abominam invencivelmente o vago, o sentimental e o gratuito: preceitos e limites transmitidos condenam implicitamente, mesmo no mais humilde artesanato, toda devaneação.
  • “Como a fábula ou a parábola, o tapete não trata, obstinadamente, senão do real, e somente em virtude do real toca as geometrias do espírito, as matemáticas contemplativas.”
  • Falar de simbolismo no tapete não é menos infantil do que falar nele para a fábula e a parábola — sentidos e além-sentidos estão nele atados juntos tão estreitamente quanto o urdume à trama.
  • “Em cada homem — como nas histórias daquele antigo mestre, das quais cada ouvinte não ouvia senão uma parte, mas completa e perfeita — lerá a mensagem destinada a ele e a ninguém mais.”

A mente que contempla um tapete pode repousar suavemente sobre essa objetividade subjetiva, como num bosque animado por uma fonte escondida.

  • “As sábias medidas, o desenho concêntrico, o refresco balsâmico de cores puras, destiladas da natureza e refrescadas em águas correntes, convertem o tapete num fulcro de contemplação, não indigno às vezes de um delicado parentesco com o sagrado mandala.”
  • O tapete é uma supremamente viva língua morta: possuímos a chave de algumas frases, mas não do curso inteiro — o nomadismo multiplica ao infinito as coxias dos significados.
  • Se na China o triângulo sugere o cumprimento do desejo, na Ásia Central não pode reproduzir senão a tenda do nômade; o escorpião indiano é o amuleto salutar que preserva da lepra, mas no Cáucaso fala do ardor desdenhoso de quem prefere a morte à rendição, e na China — “secretamente, refinadamente” — da insatisfação do erudito.

Os colores criam a premissa simbólica do tapete, como os antigos modos litúrgicos.

  • O amarelo-ouro, extraído da planta do sumagre, “antigo penhor de grandeza e fortuna que estende o sol a nossos pés”, é oferecido ao senhor indiano em busca de repouso.
  • O verde que resplandece no estandarte do Profeta é reservado na Turquia ao tapete de oração.
  • O azul evoca, sombrio, a meditação sobre o eterno; pálido, a melancolia amorosa — “e o agressivo, fustigante negro, imagem de revolta, é a tinta viril por excelência, escolhida como emblema pelas hordas mongóis.”

Sobre esse campo poético preliminar se tece o discurso das figuras — a argúcia divina do lagarto, a regeneração espiritual da pinha, a fortuna caprichosa que foge no voo delirante do morcego.

  • Felicidade espiritual está encerrada no vaso chinês; doce morte na espécie da orquídea; o dragão de cinco patas lembra a formidável majestade que aterrorizou Confúcio à vista do imperador.
  • “Sempre mais de perto o símbolo aperta o absoluto: na sagrada taça do lótus, na árvore da vida semelhante a um candelabro flamejante — eixo do mundo, via vertical entre o homem e a divindade —, no imortal pavão que tão frequentemente abre o seu círculo infinito nos sarcófagos cristãos dos primeiros séculos.”
  • Nas províncias cristãs da Ásia, onde o mundo animal era excluído dos tapetes cerimoniais que decoravam as igrejas, também a abside de oração podia estilizar-se em porta de catedral ou mitra de bispo.
  • “Nas terras dos Médici, aqueles enxutos florentinos nunca quiseram esconder com tapetes orientais a elegância ascética dos pavimentos de cotto, mas pintaram belíssimos tapetes aos pés de suas Madonas.”

Por sua natureza a poesia transita de forma em forma — e os motivos do tapete se ocultam às vezes um no outro, um atrás do outro, acrosticamente.

  • “No que parece a mera grega preto-vermelha de uma borda afloram quietamente as fauces de uma inconcebível fera das quais brota um arbusto, e em seu gracioso estender-se ao voo o pintarroxo se dissimula pela folha do galho de que se destaca.”
  • O boteh — a ilustre e misteriosa palmeta oval tão difundida no tapete do Oriente — ora é amêndoa, ora chama, ora pérola: “nunca simétrica, confiada às leves e sublimes distorções da natureza, inclina-se aqui para a direita, ali para a esquerda, reunindo nessas irregularidades deliciosas a essência comum às três espécies.”
  • Até as borduras são eloquentes — “fala antes o número das bordas, que pode chegar até doze ou treze, cinto dentro de cinto, discurso dentro de discurso; uma hierarquia de alusões é atribuída à sucessão das bordas, do interior para o exterior.”
  • “Que ela me jogue a seus pés, que me pise, enrolei cem fórmulas de glória em toda língua em torno ao meu fuso” — é a gesta amorosa narrada ocultamente por um tapete persa do século XVI conservado em Munique.
  • Um outro, em Milão, fala uma linguagem diferente: “Aqui se encontra o atalho que conduz à fonte de vida, e os próprios animais ferozes nele possuem um refúgio.”

Por que voa o tapete? — a pergunta retorna, agora em busca de resposta.

  • Na língua árabe clássica, uma raiz comum liga tapete e borboleta — e não só pela fascinação das cores.
  • O tecer e o atar aludem por si mesmos às peripécias urdidas para os homens por mãos invisíveis.
  • O vocábulo grego que indica o instante sem retorno, a ser colhido como uma flor miraculosa — kairos — é usado para definir outro indefinível: “a momentânea, lampejante fissura entre o urdume e a trama em que a lançadeira penetra fulminantemente, como a lâmina mortal entre os dois pedaços de uma armadura.”
  • Um livro de sabedoria sobre a Pérsia mística lança, quase com negligência, a pequena chave de ouro que pode dar acesso à última “câmara do tapete” — aludindo a uma recomposição espiritual do Éden, ou de um mundo anterior ao Éden, onde pedra e estrela, rosa e cristal, fonte e espinheiro, o feroz e o delicado se aparentam numa dimensão que os abarca todos.
  • Esse livro fala de cidades de esmeralda — “Jabalqa e Jabarsa das mil portas” — onde são realizadas ao infinito, “como num tapete persa, as diferentes espécies de imagens originárias formando uma hierarquia de graus diversificados pela sutileza ou a densidade.”
  • “Essas cidades fazem coroa, por assim dizer, ao Monte Kaf, centro e ao mesmo tempo círculo do mundo” — cujo coração é a inextricável cosmogonia da História de Hasib el Karim ou da Rainha das Serpentes.

Quatro rios paradisíacos que nascem às vezes da abside de oração dizem que o tapete oriental quer oferecer um espelho da divina frescura de um mundo sem culpa.

  • Nos mosaicos cristãos, esses rios brotam da rocha sobre a qual se ergue o Cordeiro, ou atravessam tragicamente o manto cósmico do bispo bizantino.
  • “Os místicos cristãos liam no misterioso jardim do Cântico uma imagem do jardim da inocência, onde a alma não está empenhada em outra operação senão 'vigiar desde o começo da primavera o crescimento das flores.'”
  • Não é razoável que as meditações de tais homens se concluam às vezes em levitações, nos voos em que o corpo parece soltar-se do arco tenso da mente arrebatada? São José de Copertino é talvez o testemunho máximo desses estados, tão habituais na história da contemplação ocidental — e a dança contemplativa de São Domingos, “erguido do chão sobre a ponta dos alhos, mãos estendidas e unidas acima da cabeça como uma flecha”, oferece um perfil ainda mais gráfico.
  • Os dois enigmas se resolveriam então mútua e simultaneamente: “o tapete voa porque é terra espiritual; os desenhos do tapete anunciam essa terra, reencontrada no voo espiritual — não Iram das Colunas, perigosa tentativa de imitação do inimitável, mas a humilde lembrança e presságio de seu modelo.”
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