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Essência de vidro

CARRIÈRE, Jean-Claude. Fragilité. Paris: Odile Jacob, 2006.

  • Em Medida por Medida, um primeiro-ministro chamado Angelo assume subitamente o poder de forma experimental, enquanto o duque observa disfarçado de monge.
    • Angelo é descrito como um personagem odioso, puritano e organizado.
    • Ele considera o sexo como seu velho inimigo e a fornicação como o pior pecado.
    • Aplica uma lei antiga para condenar Claudio à morte por ter engravidado uma donzela.
  • Isabel, irmã de Claudio e virtuosa por vocação, vai ao encontro de Angelo para pedir clemência.
    • Isabel prepara-se para entrar num convento.
    • Angelo, perturbado pela atração que sente por Isabel, propõe-lhe que ceda a seus desejos em troca da vida do irmão.
    • Isabel recusa com horror, preferindo a morte do irmão ao próprio desonra, que a faria “morrer para sempre”.
  • O confronto entre Isabel e Angelo revela dois fanáticos no alto do sentimento e da escrita.
    • Ambos expressam visões sobre a natureza humana.
    • Isabel afirma que o homem é “muito ignorante daquilo de que tem mais certeza, sua essência de vidro”.
    • Angelo confessa: “Nós somos todos frágeis”, em pleno acordo com Isabel.
  • A fragilidade humana, descrita como essência de vidro, aplica-se aos fanáticos e terroristas contemporâneos.
    • Talibãs e outros extremistas conhecem e exploram a fragilidade física e mental alheia.
    • Eles fazem o “pari do vidro”, apostando na fragilidade das pessoas.
    • A morte contemporânea ocorre de forma súbita, como em ataques em trens ou cidades em paz.
  • Os assassinos modernos são, em profundidade, semelhantes às suas vítimas, também feitos de vidro.
    • A violência exercida não prova uma certeza profundamente estabelecida.
    • Se houvesse certeza absoluta em um deus todo-poderoso, não haveria necessidade de exterminar infiéis.
    • O gesto terrorista é uma prova de vaidade e fraqueza íntima, não de fé inabalável.
  • A fragilidade dos fanáticos nasce de frustrações ancestrais, orações sem resposta e incerteza sobre si mesmos.
    • Atos como executar uma filha na saída da escola ou explodir uma bomba num estádio não são cometidos por indivíduos seguros de si.
    • A incoerência humana explode junto com os explosivos, revelando os seres de vidro.
    • Os destroços e a violência são o espelho onde se lê a própria imagem.

Fumês do poder

  • Em Medida por Medida, Angelo reivindica a lei, que por sua vez se reivindica de Deus, necessário antigamente para estabelecer legislações.
    • Moisés, Manu e Licurgo precisaram de montanhas sagradas para chamar outros seres em socorro.
    • O poder de ordenar e punir, mesmo abusivo, não repousa sobre nenhuma base verdadeiramente aceitável.
    • O direito divino e o direito humano são apenas convenções e aparências, sem transformar o homem.
  • O poder absoluto é uma ilusão, pois sua origem é nebulosa e quem o proclama frequentemente não se submete a ele.
    • Inúmeros potentados violaram as proibições que deveriam fazer respeitar.
    • O poder é fumaça, um modelo que se deforma, uma autoridade que se negocia.
    • A impossibilidade de aceitar os próprios ordens de coração simples revela a fraqueza humana.
  • Reis e ditadores de todos os tipos tentam tornar suas posições hereditárias ou institucionais diante da consistência brumosa do poder.
    • Eles sonham com dinastias, peregrinações a túmulos, e multiplicam brasões, slogans e pirâmides.
    • Tremem ao pensar que suas estátuas gigantescas serão destruídas, como as de Saddam Hussein e Stálin.
    • A imagem de uma enorme efígie de Lênin flutuando no Danúbio em direção ao Mar Negro representa o poder afogado.
  • Aqueles que têm o poder sabem que nada revela a fraqueza como uma aparição de força.
    • Colocados no alto da escala, não conseguem esconder nada sob os olhos afiados do povo.
    • O duque pode ter deixado as rédeas do poder a Angelo para que a fragilidade deste aparecesse publicamente.
    • A sabedoria africana afirma: “Quanto mais alto o macaco sobe, mais sua bunda aparece”.

O peso dos espectros

  • Ao abordar o fanatismo e a obediência cega, é Shakespeare quem vem em auxílio, desta vez com Hamlet.
    • Hamlet, após ver o fantasma do pai, jura apagar da memória todos os registros triviais e ditados.
    • O personagem exclama: “Teu mandamento apenas viverá / No livro e volume do meu cérebro, / Puro de toda matéria vulgar. Sim, pelo céu!”
    • O príncipe Hamlet é descrito como indeciso, frágil e contraditório.
  • Apesar de ver e ouvir o espectro do pai, Hamlet logo depois se refere à morte como “a terra desconhecida de onde nenhum viajante retorna”.
    • O personagem hesita entre vingança e esquecimento, realidade e sonho, razão e loucura.
    • Sua decisão súbita de submissão ao espectro é rapidamente esquecida, retornando às incertezas.
    • O juramento de abandono total da cultura, reflexão e razão mostra que todo engajamento definitivo obedece às ordens de um fantasma.

Shakespeare sob nossos olhos

  • Uma cena televisionada de Saddam Hussein, trinta anos atrás, ilustra a precariedade de toda posição poderosa.
    • Saddam, de terno e gravata, preside uma reunião do partido Baas e anuncia a descoberta de uma conjuração.
    • Ele lê nomes de uma lista; os acusados levantam-se, pálidos, e são levados por soldados para execução imediata.
    • Os tiros dos pelotões de fuzilamento são ouvidos dentro da sala, e os sobreviventes podem ter formado o pelotão no dia seguinte.
  • O arbítrio do regime visa inspirar terror a todos, pois a inocência não existe sob tal sistema.
    • Um dos acusados tenta protestar, mas é calado à força e levado para fora.
    • Oficiais poderosos, com família e projetos, enfrentam a morte em menos de um minuto.
    • Saddam, mais tarde, também teria de defender a própria vida diante de juízes, enquanto todos na sala aplaudem fervorosamente após a lista ser guardada.

Pânico individual em um local público

  • No aeroporto de Barcelona, um homem vestido de terno gris fala ao telefone de maneira cada vez mais agitada e nervosa.
    • O homem anda de um lado para o outro, sua na testa, fala alto e rápido sobre estruturar algo impossível.
    • Ele viola o descanso alheio, parecendo indiferente e literalmente louco, talvez falando sozinho.
    • Diferente dos oficiais de Saddam, ele não está ameaçado de morte, mas exibe sua insegurança e desamparo.
    • Sua estrutura interna se desloca como uma casa em desabamento, até que ele se afasta gesticulando e desaparece.
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