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Aforismos de Zürau

Franz Kafka; Roberto Calasso. Aforismi Di Zurau. Milano: Adelphi, 2016.

  • Todas as manhãs, na Bodleian Library de Oxford, na sala 132 do edifício moderno — severa, não diferente de uma sala de colégio — o manuscrito do Castelo era estudado naqueles cadernos escolares sem pautas.
    • O primeiro caderno estava coberto de ponta a ponta da página com uma escrita miúda e angular, às vezes a lápis
    • Os demais deixavam livre a folha da esquerda, reservada para correções que porém apareciam muito raramente; os títulos dos novos capítulos eram às vezes indicados nessa folha da esquerda, enquanto o texto prosseguia na folha da direita, à mesma altura, sem sequer ir para outra linha — o fim do capítulo era assinalado apenas com uma espécie de efe oblíqua
  • A pasta dos Aforismos de Zürau apresentava uma paisagem totalmente diversa — folhas soltas, cento e três, de formato retangular, 14,5 × 11,5 cm, em papel muito fino de um amarelo pálido, obtidas cortando em quatro uma certa quantidade de papel de carta.
    • Os fragmentos estavam todos numerados em progressão, no canto superior direito, e variavam da frase única e breve — como os fragmentos 16, 23, 30, 44, 68, 77 — ao bloco de uma dezena de frases — como os fragmentos 86 e 104
    • Max Brod publicou esse texto pela primeira vez em Frankfurt em 1953, incluindo-o na coletânea de escritos póstumos Preparativos de casamento no campo e apondo-lhe o título que se tornaria célebre: Considerações sobre o pecado, a dor, a esperança e o verdadeiro caminho
  • Kafka jamais havia concebido, para nenhum de seus textos, uma disposição de página e de sequência semelhante — e embora não haja nenhum vestígio, direto ou indireto, de referências feitas por Kafka à existência desses aforismos, impõe-se o pensamento de que ele tivesse projetado publicá-los de maneira correspondente à forma como os havia disposto naquelas folhas finas.
    • Esse pensamento é reforçado pela circunstância de que a quase totalidade dos fragmentos havia sido extraída, às vezes com leves modificações, de dois cadernos em oitavo que Kafka estava escrevendo naqueles meses — como se tivessem sido retirados de uma certa forma para serem articulados em outra
    • Oito aforismos que não aparecem nesses cadernos foram acrescentados por Kafka posteriormente — plausivelmente no curso do ano 1920 — e separados dos anteriores por um breve traço de pena, mantido nesta edição
  • Considerado tal como foi concebido, o manuscrito faz ressaltar o aspecto de unicum que caracteriza os Aforismos de Zürau — de fato inaproximáveis de qualquer precedente, salvo por afinidades ocultas, talvez em primeiro lugar com Hebbel e Kierkegaard, que aliás era uma das leituras de Kafka naquele período.
    • A denominação “aforismos” deve ser entendida como uma vaga aproximação, pois esses fragmentos não respeitam sequer a forma clássica do aforismo — tal como a encontramos igualmente em Kraus ou em Chamfort
    • Os fragmentos respeitam essa forma em certo número de casos — 28, 62, 94, 100 — mas dela se afastam bruscamente em muitos outros; o fragmento 47, por exemplo, só pode ser definido como apólogo
  • Quanto mais de perto se estudava aquelas folhas finas e suas conexões com os cadernos e as cartas escritas por Kafka nos meses de Zürau, mais evidente se tornava que esses textos deveriam ser lidos exatamente na forma em que Kafka os havia disposto — como estilhaços de meteoritos caídos em planícies desertas.
    • Curiosamente, esses fragmentos foram publicados e traduzidos várias vezes, mas nenhuma edição seguiu até agora esse caminho — o que induziu a tentá-lo
  • Ao texto foi acrescentado o capítulo XV de K., que trata não apenas desses aforismos mas de toda a estadia de Kafka em Zürau e do significado que ela veio a assumir em sua vida.
    • Na revisão dessa tradução — que remonta ao período em que K. estava sendo escrito — foi um prazer e um alívio contar com a acribia e a agudeza de Maddalena Buri
    • Difíceis de compreender, os Aforismos de Zürau são difíceis de traduzir, inclusive onde se apresentam enganosamente límpidos — o propósito foi o de não atenuar as asperezas nem as estranhezas, que fazem parte do “esplendor velado” desses fragmentos
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