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Beckett

BECKETT, SAMUEL (1906-1989)

Jean-Pierre SARRAZAC

  • A criação literária de Samuel Beckett assume a forma de exílio, isolamento e resistência ao longo de toda a existência, marcada por sucessivas fugas, deslocamentos e recusas que atravessam a vida do escritor nascido em 1906 numa família protestante da periferia de Dublin.
    • Formação no Trinity College de Dublin com estudo de línguas românicas, especialmente italiano e francês.
    • Viagens prolongadas pelos países correspondentes a essas línguas e exercício da função de leitor de inglês na École normale supérieure da rue d’Ulm em 1928.
    • Fixação duradoura na França durante a maior parte da vida adulta e redação em francês de grande parcela da produção literária.
    • Recusa constante da celebridade até a morte em 1989, apesar do reconhecimento internacional no teatro e da atribuição do Prêmio Nobel de Literatura em 1969.
  • A ausência de comentários de Samuel Beckett sobre o próprio trabalho contrasta com a abundância e a contradição das interpretações críticas, que multiplicaram diversas figuras do escritor sem conseguir estabilizar uma leitura sistemática de sua obra.
    • Interpretações que identificam sucessivamente ou simultaneamente um Beckett “existencialista”, “metafísico” ou “absurdista” nos anos cinquenta.
    • Reconhecimento de um Beckett “popular” assinalado por Bernard Dort no início da década de oitenta.
    • Identificação de um Beckett “literal” vinculada a Alain Robbe-Grillet e ao movimento do nouveau roman.
    • Persistente impossibilidade de enquadrar o autor de Molloy e de En attendant Godot em um sistema interpretativo estável.
  • A multiplicidade de talentos de Samuel Beckett, presente na poesia, no romance, no teatro, na rádio, na televisão, no cinema e no ensaio crítico, conduz paradoxalmente à redução deliberada da produção, ao apagamento das fronteiras entre gêneros e artes e à substituição da ideia de obra pela noção fragmentária.
    • Capacidade criadora que atravessa diversos meios artísticos e literários.
    • Transformação da abundância de aptidões em economia voluntária de produção.
    • Supressão das delimitações tradicionais entre gêneros literários e entre artes distintas.
    • Substituição da obra unitária pela forma fragmentária deliberadamente decepcionante.
    • Uso de jogos de linguagem que vão do trocadilho simples às construções sintáticas complexas e às singularidades lexicográficas presentes em romances e peças.
    • Predominância da intenção de expressar a condição humana, no sentido atribuído por André Malraux, em vez de explorar a desagregação comunicativa associada a Eugène Ionesco.
    • Identificação no homem contemporâneo de um ser puramente linguístico cuja existência se constitui e se desfaz pela palavra ou pelo fluxo mental.
    • Testemunho sóbrio da tragicomédia de existir no mundo.
  • A reputação pessimista da obra de Samuel Beckett convive paradoxalmente com uma intensa força humorística que suscita risos inesperados e revela a vitalidade de uma escrita dominada pelo humor.
    • Recepção marcada por reações de riso entre leitores e espectadores diante da tonalidade paradoxal da obra.
    • Domínio do humor, compreendido ou não como polidez do desespero.
    • Humor frequentemente sarcástico inserido numa empresa literária considerada por Theodor W. Adorno uma das mais significativas do período posterior à catástrofe mundial da Segunda Guerra Mundial.
    • Contexto histórico definido pelo pós-Hiroshima e pelo pós-Holocausto.
    • Catastrophe como título irônico de um dos dramaticules de Beckett e como motivo recorrente da produção literária e dramática.
    • Presença do motivo do “fiasco” como repercussão individual da falência universal.

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