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CONSCIÊNCIA NO MAL
VOUGA, Daniel. Baudelaire et Joseph de Maistre. Paris: J. Corti, 1957
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A situação desolada do poeta levanta a questão de se existiria uma saída para além do mero saber aristocrático, e se o dandy poderia agir contra o mal em vez de apenas reconhecê-lo.
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Baudelaire, como dandy e aristocrata, ocupa posição de quem sabe, sem necessariamente agir.
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A frase das Notas sobre a Bélgica ilustra o paradoxo: fazer o mal conscientemente como gesto republicano.
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A pergunta central é se o desgosto de si mesmo poderia converter-se em luta efetiva contra o mal.
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O suicídio se apresenta como saída possível para Baudelaire em certos momentos, recomendada por espíritos fraternais como Alphonse Rabbe e evocada a propósito da morte de Poe.
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Rabbe, em sua Filosofia do desespero, defende o direito de suprimir a própria existência como explosão de alma generosa indignada com o mundo.
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Baudelaire, comentando a morte de Poe e a de Gérard de Nerval, afirma que o suicídio pode ser a ação mais racional da vida.
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A carta a Ancelle de 30 de junho de 1845 registra a intenção de suicídio sem chagrin, motivada por inutilidade, fadiga e crença na imortalidade.
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Uma segunda crise suicida aparece nas cartas a Poulet-Malassis e a Madame Aupick na primavera de 1861.
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O que reteve Baudelaire foi o sentimento de um certo dever.
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A natureza humana é irredutivelmente má, e a virtude só existe como resultado de razão, cálculo e revelação sobrenatural, na linha direta de Joseph de Maistre.
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O crime é originalmente natural, puisado no ventre materno; a virtude é artificial e surnaturelle.
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Deuses e profetas foram necessários em todos os tempos para ensinar a virtude à humanidade animalizada.
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O bem é sempre produto de uma arte, nunca da natureza.
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Esse pessimismo anti-humanista e o recurso à revelação sobrenatural seguem estritamente o pensamento de Maistre.
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O bem não existe como realidade positiva, sendo apenas a vontade de não sucumbir ao mal, e o dandy baudelairiano está mais próximo da recusa da carne do que da revolta prometeica contra Deus.
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Dandys, raffinés, lions e incroyables compartilham uma mesma origem de oposição e revolta contra a trivialidade.
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A revolta do dandy não se dirige contra Deus, mas contra a carne e o asservissement à matéria.
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O orgulho de Baudelaire se motiva pela tentativa constante de uma vida heroica e difícil, não pela posteridade literária.
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As cartas à mãe distinguem virtude perigosa, ligada a espírito mais elevado, do vício ainda mais perigoso que é a covardia e o desânimo.
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O desânimo de Baudelaire tem causa mais profunda na impossibilidade de ser grande homem e santo para si mesmo quando se está inteiramente só diante da própria consciência.
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A solidão diante dos homens e diante de Deus é reivindicada como prova de grandeza e qualidade de estrangeiro aristocrata.
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A solidão diante de si mesmo é mais grave porque priva de qualquer recurso externo: disciplina, encorajamento, revelação, autoridade.
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Os Journaux intimes afirmam por duas vezes: ser um grande homem e um santo para si mesmo é a única coisa importante.
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O espelho no qual o dandy deve viver e dormir nada contém além de Satã, e a consciência no mal é o único farol, irônico e infernal.
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O culto de si mesmo e a auto-idolatria impõem controle despótico sem possibilidade de realização ou perfeição positiva.
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O bem, sendo apenas a contrapartida de um mal que é toda a realidade, permanece irreal e irrealizável.
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O poema L'Irremédiable e L'Heautontimoroumenos dramatizam a consciência como sinistro miroir onde a megera se contempla.
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A ironia voraz é o veneno negro que percorre toda a voz poética.
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Satan não é a encarnação simplista do mal natural, mas a figura que emerge na consciência da duplicidade humana, no tête-à-tête sombre e limpide.
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Crépet-Blin interpreta L'Heautontimoroumenos como expressão de má consciência e desdobramento de personalidade, interpretação rejeitada aqui.
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O sofrimento infligido sem cólera nem ódio é castigo e expiação, não ato gratuito.
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Satã manifesta-se menos no orgulho que se revolta contra o mal do que no fato de que essa revolta, justa, é corrompida por ser orgulho e desmedida.
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O homem afirma sua dignidade ao recusar o mal que o aviltaria, e ao mesmo tempo se perde e se reconhece culpado e impotente.
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As imagens de L'Irremédiable, do anjo caído ao navio preso no gelo polar, figuram esse círculo vicioso que paralisa e congela.
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O satanismo baudelairiano, embora não emprestado de Maistre, encontra em sua moral a confirmação do sentimento de culpabilidade ligada à carne e ao sangue, ausentes tanto a Redenção quanto a Graça.
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Maistre ignora Satan e não fala de sua própria consciência, mas suas Soirées e seu Eclaircissement fornecem o pessimismo sobre a carne.
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A moral jansenista cristã, diferentemente, sustenta-se em teologia revelada exterior ao homem e não ignora a Redenção nem a distância infinita entre os três ordens pascalianos.
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Em Baudelaire, como em Maistre, faltam o Cristo, a Graça e a esperança que delas decorreria.
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A noção baudelairiana de pecado original derivada de Maistre, somada à ignorância da Redenção e à ideia particular de Deus, impede aceitar o Baudelaire crente, cristão e católico que comentadores como G. de Reynold, Du Bos, Stanislas Fumet e Jean Massin pretendem impor.
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Crer na Queda não implica necessariamente crer na Redenção, nem crer no pecado implica crer na Graça.
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As declarações de Baudelaire sobre ser católico incorrigível ou sobre a ideia católica nas Fleurs du Mal devem ser lidas sem truncamento.
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O católico que Baudelaire reconhece sob as Fleurs du Mal é o Diabo, figura mais católica que qualquer outro segundo ele próprio.
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O catolicismo baudelairiano retém apenas o pecado original, a degradação da humanidade e o poder do mal, na esteira de Maistre.
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Maistre restituía ao vocábulo católico seu sentido etimológico de universal, e Baudelaire compartilha essa perspectiva ao postular uma religião universal e ao ver no misticismo o traço de união entre paganismo e cristianismo.
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Nos Journaux intimes, Baudelaire afirma que há uma religião universal feita para os alquimistas do pensamento.
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A superstição é apresentada como reservatório de todas as verdades.
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O misticismo do paganismo e sua relação de prova recíproca com o cristianismo são pensamentos diretamente derivados do Conde e do Senador de Maistre.
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As declarações de Baudelaire à mãe, de 1853 a 1861, revelam um Deus ausente e inapreensível, cuja existência não se traduz em intervenção na vida do poeta.
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Baudelaire afirma não ter nada a fazer com Deus e o céu, ter orado por três meses sem saber a quem, e desejar crer num ser exterior sem conseguir fazê-lo.
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A fase de oração foi provavelmente a exceção e não a crise de desânimo.
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O poeta delega a outros a oração por ele: à mãe, ao pai morto, a Mariette, a Poe.
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A prece de Baudelaire se reduz, em essência, a um pedido de força para cumprir deveres e trabalhar, não a uma súplica de intervenção divina miraculosa, e sua concepção de Deus como reservatório de força e de justiça segue de perto as ideias de Maistre sobre a eficácia quase mágica da oração.
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Fusées descreve a oração como operação mágica e recorrência elétrica da dinâmica intelectual.
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A dinâmica moral de Jesus e os sacramentos como meios dessa dinâmica reaparecem nos Journaux intimes nos mesmos termos usados por Maistre.
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A oração baudelairiana se aproxima de preceitos de higiene e condutas morais, tornando-se último recurso contra a queda reiterada da vontade.
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O ser exterior e invisível permanece indefinido pela negativa e sem existência real, o que leva Baudelaire a perguntar à mãe como fazer para crer que Deus intervém em sua vida.
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