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7. ASSUNÇÃO

Serafita

  • Os últimos cânticos de Séraphîta não foram expressos por palavra, olhar, gesto ou qualquer sinal humano, mas como a alma fala a si mesma, pois no instante em que se revelava em sua verdadeira natureza, suas ideias já não eram escravas das palavras humanas.
    • A violência de sua última prece havia rompido os laços que a prendiam à forma humana.
    • Como uma branca pomba, sua alma permaneceu por um momento pousada sobre aquele corpo cujas substâncias esgotadas iriam se aniquilar.
  • A aspiração da Alma em direção ao céu foi tão contagiante que Wilfrid e Minna não perceberam a Morte ao contemplar as radiantes centelhas da Vida.
    • Wilfrid e Minna são as duas testemunhas presentes à transfiguração de Séraphîta.
  • Wilfrid e Minna tinham caído de joelhos quando Séraphîta se erguera em direção ao seu oriente, e partilhavam de seu êxtase.
    • O gesto de prostração é simultâneo ao movimento ascensional do ser transfigurado.
  • O temor do Senhor, que cria o homem uma segunda vez e o lava de seu barro, havia devorado seus corações.
    • A expressão evoca a ideia de um renascimento espiritual operado pelo terror sagrado.
  • Os olhos de Wilfrid e Minna se velaram às coisas da Terra e se abriram às claridades do Céu.
    • A visão terrestre cede lugar a uma percepção de ordem superior, inacessível aos sentidos comuns.
  • Embora tomados pelo tremor de Deus, como o foram alguns daqueles Videntes chamados Profetas entre os homens, Wilfrid e Minna permaneceram nesse estado ao se encontrarem no raio onde brilhava a glória do ESPÍRITO.
    • O tremor de Deus é descrito como a mesma experiência vivida pelos Profetas das escrituras.
    • A glória do ESPÍRITO é apresentada como um raio luminoso no qual os dois permanecem sustentados.
  • O véu de carne que lhes havia ocultado o ESPÍRITO até então se evaporava insensível e lhes deixava entrever a substância divina.
    • A materialidade do corpo é concebida como um obstáculo que se dissolve progressivamente diante da visão espiritual.
  • Wilfrid e Minna permaneceram no crepúsculo da Aurora Nascente, cujos débeis clarões os preparavam para ver a Verdadeira Luz, para ouvir a Palavra Viva, sem morrer.
    • A Aurora Nascente funciona como limiar entre o visível e o invisível, entre o humano e o divino.
    • A Palavra Viva é apresentada como algo que, em sua plenitude, destruiria os que a ouvissem sem preparação.
  • Nesse estado, os dois começaram a conceber as diferenças imensuráveis que separam as coisas da Terra das coisas do Céu.
    • A compreensão das diferenças entre os dois planos surge como uma forma de conhecimento ainda parcial, mas inaugural.
  • A VIDA na beira da qual Wilfrid e Minna se mantinham unidos, trêmulos e iluminados como duas crianças sob um abrigo diante de um incêndio, não oferecia nenhuma presa aos sentidos.
    • A imagem de duas crianças sob um abrigo diante de um incêndio traduz simultaneamente o fascínio e o terror da experiência mística.
  • As ideias que lhes serviram para exprimir sua visão estavam para as coisas entrevistas assim como os sentidos aparentes do homem estão para sua alma — envelope material de uma essência divina.
    • A linguagem humana é reduzida à condição de invólucro grosseiro incapaz de conter o que foi vislumbrado.
  • O ESPÍRITO estava acima deles, perfumava sem odor, era melodioso sem o auxílio dos sons; onde eles estavam, não havia superfícies, ângulos nem ar.
    • As categorias sensíveis — cheiro, som, matéria — são transcendidas na presença do ESPÍRITO.
  • Wilfrid e Minna não ousavam interrogar nem contemplar o ESPÍRITO, e se encontravam em sua sombra como se encontra alguém sob os ardentes raios do sol dos trópicos, sem se arriscar a levantar os olhos por medo de perder a vista.
    • A sombra do ESPÍRITO é paradoxalmente protetora, pois sua luz plena seria insuportável.
  • Os dois sabiam estar perto do ESPÍRITO sem poder explicar por quais meios se encontravam como em sonho na fronteira do Visível e do Invisível, nem como haviam deixado de ver o Visível e como percebiam o Invisível.
    • A fronteira entre o Visível e o Invisível é descrita como um estado análogo ao sonho.
  • Wilfrid e Minna diziam um ao outro: “Se ele nos tocar, vamos morrer!” — mas o ESPÍRITO estava no infinito, e eles ignoravam que nem o tempo nem o espaço existem no infinito, e que estavam separados dele por abismos, embora aparentemente próximos.
    • A proximidade percebida e a distância real coexistem paradoxalmente no plano do infinito.
    • O diálogo interior entre os dois é: — Se ele nos tocar, vamos morrer!
  • As almas de Wilfrid e Minna não sendo capazes de receber em sua totalidade o conhecimento das faculdades daquela Vida, delas não tiveram senão percepções confusas, proporcionadas à sua fraqueza.
    • A limitação da percepção é apresentada como uma misericórdia necessária à sobrevivência dos dois.
  • Caso a PALAVRA VIVA, cujos sons distantes chegaram aos seus ouvidos e cujo sentido entrou em sua alma como a vida se une aos corpos, soasse em plena potência, um único acento dessa Palavra os teria absorvido como um turbilhão de fogo se apodera de uma leve palha.
    • A PALAVRA VIVA é concebida como uma força de intensidade aniquiladora em sua plenitude.
  • Wilfrid e Minna viram apenas o que sua natureza, sustentada pela força do Espírito, lhes permitiu ver; ouviram apenas o que podiam ouvir.
    • A experiência mística é filtrada pela capacidade de cada ser, não dada em sua totalidade indiscriminadamente.
  • Apesar dessas atenuações, Wilfrid e Minna estremeceram quando eclodiu a VOZ da alma sofrente, o canto do ESPÍRITO que aguardava a vida e a implorava com um grito.
    • O canto do ESPÍRITO é descrito como expressão de um ser que aguarda e implora a vida.
    • Esse grito os gelou até a medula dos ossos.
  • O ESPÍRITO batia à PORTA-SANTA.
    • A imagem da Porta-Santa corresponde ao limiar do Santuário celeste, guardado por um Coro.
  • Um CORO respondeu ao ESPÍRITO com uma interrogação que resoou pelos mundos, e se seguiu o diálogo da última prova antes da entrada no Santuário.
    • O diálogo se desenvolve assim: — Que queres? / — Ir a Deus. / — Venceste? / — Venci a carne pela abstinência, venci a falsa palavra pelo silêncio, venci a falsa ciência pela humildade, venci o orgulho pela caridade, venci a terra pelo amor, paguei meu tributo pelo sofrimento, purifiquei-me ardendo na fé, desejei a vida pela oração: espero adorando, e estou resignado.
    • Nenhuma resposta se fez ouvir após a enumeração das vitórias do ESPÍRITO.
    • O ESPÍRITO então respondeu: — Que Deus seja bendito — acreditando que ia ser rejeitado.
  • As lágrimas do ESPÍRITO caíram em orvalho sobre as duas testemunhas ajoelhadas, que estremeceram diante da justiça de Deus.
    • O orvalho das lágrimas do ESPÍRITO sobre Wilfrid e Minna marca o contato entre o plano celeste e o humano.
  • De repente soaram as trombetas da Vitória conquistada pelo ANJO nessa última prova, e seus ecos alcançaram os espaços, preencheram-nos e fizeram tremer o universo, que Wilfrid e Minna sentiram ser pequeno sob seus pés.
    • O universo inteiro treme sob o anúncio da vitória, e os dois Videntes o sentem diminuído sob si.
    • Wilfrid e Minna foram tomados de uma angústia causada pela apreensão do mistério que estava prestes a se cumprir.
  • Produziu-se um grande movimento como se as legiões eternas se pusessem em marcha e se dispusessem em espiral, e os mundos redemoinharam como nuvens arrastadas por um vento furioso.
    • O movimento das legiões eternas em espiral antecede a aparição do Mensageiro.
  • De súbito os véus se rasgaram, e Wilfrid e Minna viram no alto um astro incomparavelmente mais brilhante que os mais luminosos astros materiais, que se desprendeu, caiu como um raio cintilando sempre como um relâmpago, e cuja passagem fazia empalidecer o que até então haviam tomado por LUZ.
    • O astro que cai como um raio é o Mensageiro encarregado de anunciar a boa nova.
    • O Mensageiro trazia por penacho de seu capacete uma chama de vida.
  • O Mensageiro deixou atrás de si sulcos imediatamente preenchidos pelo fluxo dos clarões particulares que atravessava, e trazia uma palma e uma espada; tocou o ESPÍRITO com sua palma.
    • O toque da palma opera a transfiguração do ESPÍRITO.
    • O ESPÍRITO se transfigurou e suas asas brancas se desdobraram sem ruído.
  • A comunicação da LUZ que transformava o ESPÍRITO em SERAFIM, o revestimento de sua forma gloriosa como armadura celeste, projetou tais irradiações que os dois Videntes foram fulminados.
    • A metamorfose do ESPÍRITO em SERAFIM é descrita como um revestimento de glória que irradia de forma insuportável.
  • Como os três apóstolos aos olhos dos quais Jesus se mostrou, Wilfrid e Minna sentiram o peso de seus corpos opondo-se a uma intuição completa e sem nuvens da PALAVRA e da VERDADEIRA VIDA.
    • A alusão é à Transfiguração de Jesus diante de Pedro, Tiago e João, narrada nos Evangelhos.
    • O corpo é aqui apresentado como obstáculo à visão plena do divino.
  • Wilfrid e Minna compreenderam a nudez de suas almas e puderam medir o pouco de claridade delas pela comparação com a auréola do Serafim, diante da qual apareciam como uma mancha vergonhosa.
    • A auréola do Serafim serve de medida para a insuficiência espiritual dos dois mortais.
  • Os dois foram tomados de um ardente desejo de se mergulhar novamente na lama do universo para sofrer as provas, a fim de poder um dia proferir vitoriosamente à PORTA-SANTA as palavras ditas pelo radiante Serafim.
    • O desejo de retornar ao sofrimento terrestre nasce da consciência da insuficiência espiritual e da visão do que aguarda os purificados.
  • O Anjo se ajoelhou diante do SANTUÁRIO que podia enfim contemplar face a face e disse, designando Wilfrid e Minna: “Permiti-lhes ver mais adiante, eles amarão o Senhor e proclamarão sua palavra.”
    • A intercessão do Serafim em favor dos dois mortais é o ato que abre a visão seguinte.
  • A essa prece, um véu caiu; e, seja porque a força desconhecida que pesava sobre os dois Videntes houvesse momentaneamente aniquilado suas formas corporais, seja porque houvesse feito surgir seu espírito para fora, eles sentiram em si como uma separação do puro e do impuro.
    • A queda do véu marca o acesso a uma camada mais profunda da visão celeste.
  • As lágrimas do Serafim se elevaram ao redor de Wilfrid e Minna sob a forma de um vapor que lhes ocultou os mundos inferiores, os envolveu, os transportou, lhes comunicou o esquecimento dos significados terrestres e lhes emprestou a capacidade de compreender o sentido das coisas divinas.
    • O vapor formado pelas lágrimas do Serafim funciona como agente de purificação e de elevação da percepção.
  • A Verdadeira Luz apareceu e iluminou as criações, que lhes pareceram áridas quando viram a fonte de onde os mundos Terrestres, Espirituais e Divinos extraem o movimento.
    • A Verdadeira Luz revela a origem comum do movimento em todos os planos da criação.
  • Cada mundo tinha um centro para o qual tendiam todos os pontos de sua esfera, esses mundos eram eles mesmos pontos que tendiam ao centro de sua espécie, e cada espécie tinha seu centro voltado para grandes regiões celestes que comunicavam com o inesgotável e flamejante motor de tudo o que existe.
    • A estrutura da criação é concebida como uma hierarquia de centros em movimento convergente em direção a um motor único.
  • Assim, desde o maior até o menor dos mundos, e desde o menor dos mundos até a menor porção dos seres que o compunham, tudo era individual e, no entanto, tudo era um.
    • A coexistência do individual e do uno é apresentada como lei fundamental da criação.
  • A questão do desígnio do Ser fixo em sua essência e em suas faculdades — que as transmitia sem as perder, que as manifestava fora de Si sem as separar de Si, que tornava todas as suas criações fixas em sua essência e mutáveis em suas formas — não podia ser respondida pelos dois convidados à festa, que apenas viam a ordem e a disposição dos seres, admirando o fim imediato; somente os Anjos iam além, conheciam os meios e compreendiam o fim.
    • Os dois mortais têm acesso à visão da ordem, mas não ao conhecimento dos meios e do fim, reservado aos Anjos.
  • O que os dois eleitos puderam contemplar e do que trouxeram um testemunho que iluminou suas almas para sempre foi a prova da ação dos Mundos e dos Seres, a consciência do esforço com que tendem ao resultado.
    • A visão da ação convergente dos mundos e dos seres constitui o núcleo do testemunho espiritual de Wilfrid e Minna.
  • Wilfrid e Minna ouviram as diversas partes do Infinito formando uma melodia viva, e a cada tempo em que o acorde se fazia sentir como uma imensa respiração, os Mundos arrastados por esse movimento unânime se inclinavam para o Ser imenso que, de seu centro impenetrável, fazia tudo sair e a si tudo reconduz.
    • A melodia viva do Infinito é descrita como uma alternância de vozes e silêncio análoga à respiração.
    • A incessante alternância de vozes e silêncio parecia ser a medida do hino santo que ressoava e se prolongava pelos séculos dos séculos.
  • Wilfrid e Minna compreenderam então algumas das misteriosas palavras dAquele que na terra lhes havia aparecido a cada um sob a forma que o tornava compreensível — a um como Séraphîtüs, à outra como Séraphîta — quando viram que lá tudo era homogêneo.
    • Séraphîtüs é o nome sob o qual o ser apareceu a Wilfrid; Séraphîta é o nome sob o qual apareceu a Minna.
    • A homogeneidade do plano celeste resolve o enigma da dupla forma assumida pelo ser na Terra.
  • A luz gerava a melodia, a melodia gerava a luz, as cores eram luz e melodia, o movimento era um Número dotado da Palavra; tudo era ao mesmo tempo sonoro, diáfano, móvel, de tal modo que cada coisa penetrando a outra, a extensão era sem obstáculo e podia ser percorrida pelos Anjos na profundeza do infinito.
    • A sinestesia total — luz, melodia, cor, movimento e palavra — caracteriza a natureza do plano celeste.
  • Wilfrid e Minna reconheceram a puerilidade das ciências humanas das quais lhes havia sido falado.
    • O reconhecimento da puerilidade das ciências humanas surge como consequência direta da visão do plano divino.
  • Para os dois, foi uma visão sem linha de horizonte, um abismo no qual um desejo devorador os forçava a se mergulhar; mas, presos a seus miseráveis corpos, tinham o desejo sem ter a potência.
    • O corpo é novamente apresentado como o limite que separa o desejo espiritual da plena realização.
  • O Serafim recolheu levemente suas asas para tomar seu voo e não mais se voltou para eles: já não tinha nada em comum com a Terra.
    • O gesto de recolher as asas marca a ruptura definitiva do Serafim com o plano terrestre.
  • O Serafim se lançou, e a imensa envergadura de sua plumagem cintilante cobriu os dois Videntes como uma sombra benéfica que lhes permitiu levantar os olhos e vê-lo arrebatado em sua glória, acompanhado do jovial arcanjo.
    • A sombra das asas do Serafim é protetora, tornando possível a visão do voo ascensional.
  • O Serafim ascendeu como um sol radiante que sai do seio das ondas — mas mais majestoso que o astro e prometido a destinos mais belos, não encadeado como as criações inferiores em uma vida circular, seguiu a linha do infinito e tendeu sem desvio ao centro único para se mergulhar na vida eterna, receber em suas faculdades e em sua essência o poder de gozar pelo amor e o dom de compreender pela sabedoria.
    • A trajetória do Serafim contrasta com o movimento circular das criações inferiores, pois segue a linha reta do infinito.
    • O centro único é o destino final onde o amor e a sabedoria se realizam em plenitude.
  • O espetáculo que subitamente se revelou aos olhos dos dois Videntes os esmagou por sua imensidão, pois se sentiam como pontos cuja pequenez só podia ser comparada à menor fração que o infinito da divisibilidade permite ao homem conceber, posta diante do infinito dos Números que somente Deus pode encarar como a si mesmo.
    • A pequenez de Wilfrid e Minna é medida pela distância entre a menor fração concebível e o infinito dos Números.
  • Que rebaixamento e que grandeza nesses dois pontos — a Força e o Amor — que o primeiro desejo do Serafim colocava como dois anéis para unir a imensidão dos universos inferiores à imensidão dos universos superiores.
    • Wilfrid e Minna são identificados respectivamente como a Força e o Amor, destinados a funcionar como elos entre os dois planos da criação.
  • Wilfrid e Minna compreenderam os laços invisíveis pelos quais os mundos materiais se ligavam aos mundos espirituais, e ao se lembrarem dos sublimes esforços dos mais belos gênios humanos, encontraram o princípio das melodias ao ouvir os cânticos do céu que davam as sensações das cores, dos perfumes, do pensamento, e que recordavam os inumeráveis detalhes de todas as criações, como um cântico da terra reanima ínfimas lembranças de amor.
    • Os gênios humanos são evocados como aqueles que, na Terra, mais se aproximaram da melodia celeste.
  • Tendo chegado por uma exaltação inaudita de suas faculdades a um ponto sem nome na linguagem, os dois puderam lançar por um momento os olhos sobre o Mundo Divino, onde estava a festa.
    • O Mundo Divino é descrito como o lugar de uma festa cuja natureza transcende qualquer denominação linguística.
  • Miríades de Anjos acorreram todos com o mesmo voo, sem confusão, todos semelhantes, todos dessemelhantes, simples como a rosa dos campos, imensos como os mundos.
    • A paradoxal semelhança e dessemelhança dos Anjos corresponde à coexistência do individual e do uno já descrita anteriormente.
  • Wilfrid e Minna não os viram chegar nem partir; eles semearam subitamente o infinito com sua presença, como as estrelas brilham no éter indiscernível.
    • A aparição dos Anjos é simultânea e sem transição, análoga ao brilho das estrelas no éter.
  • O cintilamento de seus diademas reunidos se acendeu nos espaços como os fogos do céu no momento em que o dia aparece nas montanhas.
    • A imagem do amanhecer nas montanhas serve de analogia para a irrupção luminosa dos diademas angélicos.
  • De suas cabeleiras saíam ondas de luz, e seus movimentos excitavam fremimentos ondulatórios semelhantes aos das ondas de um mar fosforescente.
    • A luminosidade das cabeleiras angélicas e o ondular de seus movimentos evocam um mar fosforescente em agitação.
  • Os dois Videntes avistaram o Serafim todo obscuro no meio das legiões imortais, cujas asas eram como o imenso penacho das florestas agitadas por uma brisa.
    • O Serafim aparece obscuro em comparação com as legiões imortais, indicando que sua transfiguração ainda está em curso.
  • De imediato, como se todas as flechas de uma aljava se lançassem juntas, os Espíritos varreram com um sopro os vestígios de sua antiga forma; à medida que o Serafim subia, tornava-se mais puro; logo não lhes pareceu senão um leve desenho do que haviam visto quando ele se transfigurara — linhas de fogo sem sombra.
    • A purificação progressiva do Serafim é visualizada como a dissolução de sua forma em linhas de fogo sem sombra.
  • O Serafim subia, recebendo de círculo em círculo um dom novo, e o sinal de sua eleição se transmitia à esfera superior onde subia sempre purificado.
    • A ascensão do Serafim se dá por esferas sucessivas, cada uma conferindo um dom novo.
  • Nenhuma das vozes se calava, e o hino se propagava em todos os seus modos.
    • O hino celeste é contínuo e se propaga em todos os modos da melodia.
    • O cântico das legiões dizia: — Salve a quem sobe vivo! Vem, flor dos Mundos! Diamante saído do fogo das dores! Pérola sem mancha, desejo sem carne, novo laço entre a terra e o céu, sê luz! Espírito vencedor, Rainha do mundo, voa à tua coroa! Triunfador da terra, toma teu diadema! Sê nosso!
  • As virtudes do Anjo reapareciam em sua beleza, seu primeiro desejo do céu reapareceu gracioso como uma verdejante infância, suas ações o decoraram como constelações com seu brilho, seus atos de fé brilharam como a Jacinta do céu, cor do fogo sideral, a Caridade lhe lançou suas pérolas orientais — belas lágrimas recolhidas — o Amor divino o envolveu com suas rosas, e sua Resignação piedosa lhe tirou pela brancura todo vestígio terrestre.
    • A Jacinta é uma pedra preciosa de cor azul-violácea associada ao fogo sideral.
    • Cada virtude do Anjo se manifesta sob uma forma luminosa e simbólica específica.
  • Aos olhos de Wilfrid e Minna, o Serafim logo não foi mais do que um ponto de chama que se avivava sempre e cujo movimento se perdia na melodiosa aclamação que celebrava sua chegada ao céu.
    • A dissolução progressiva do Serafim em ponto de chama marca o término de sua visibilidade para os dois mortais.
  • Os acentos celestes fizeram chorar os dois banidos.
    • O choro de Wilfrid e Minna diante dos acentos celestes exprime a consciência de seu exílio da pátria espiritual.
  • De repente um silêncio de morte, que se estendeu como um véu sombrio da primeira à última esfera, mergulhou Wilfrid e Minna em uma indizível expectativa.
    • O silêncio universal funciona como preparação para o ato culminante da recepção do Serafim no Santuário.
  • Nesse momento, o Serafim se perdia no seio do Santuário onde recebeu o dom da vida eterna.
    • O Santuário é o destino final do Serafim, onde a vida eterna é conferida.
  • Fez-se um movimento de adoração profunda que preencheu os dois Videntes de um êxtase mesclado de terror.
    • O movimento de adoração profunda percorre simultaneamente todas as esferas do cosmos.
  • Wilfrid e Minna sentiram que tudo se prostrava nas Esferas Divinas, nas Esferas Espirituais e nos Mundos de Trevas.
    • A prostração universal abrange desde as Esferas Divinas até os Mundos de Trevas, sem exceção.
    • Os Anjos dobravam o joelho para celebrar a glória do Serafim, os Espíritos dobravam o joelho para atestar sua impaciência, e nos abismos dobrava-se o joelho tremendo de espanto.
  • Um grande grito de alegria jorrando como uma fonte represada que recomeça seus milhares de jatos floridos ao sol, eclodiu no instante em que o Serafim reapareceu flamejante e gritou: ETERNO! ETERNO! ETERNO!
    • O triplo grito — ETERNO! ETERNO! ETERNO! — é a proclamação do Serafim ao assumir a posse do infinito.
    • Os universos o ouviram e o reconheceram; ele os penetrou como Deus os penetra, e tomou posse do infinito.
  • Os Sete Mundos Divinos se moveram à voz do Serafim e lhe responderam; e nesse momento fez-se um grande movimento como se astros inteiros purificados se elevassem em deslumbrantes claridades tornadas eternas.
    • Os Sete Mundos Divinos constituem a mais alta esfera da criação, que responde ao chamado do Serafim recém-recebido.
    • A hipótese é levantada de que o Serafim teria recebido por primeira missão chamar a Deus as criações penetradas pela palavra.
  • O ALELUIA sublime já ressoava no entendimento de Wilfrid e Minna como as últimas ondulações de uma música acabada, e os clarões celestes já se apagavam como as tintas de um sol que se põe em seus cueiros de púrpura e ouro.
    • O apagamento gradual dos clarões celestes marca o retorno dos dois à condição terrestre.
  • O Impuro e a Morte retomavam sua presa.
    • A retomada pelo Impuro e pela Morte expressa o fim do estado de êxtase e o retorno à condição mortal.
  • Ao reentrar nos laços da carne, da qual seu espírito havia sido momentaneamente desligado por um sublime sono, os dois mortais se sentiam como pela manhã de uma noite preenchida por brilhantes sonhos cujo lembrança voa na alma, mas cuja consciência é recusada ao corpo e que a linguagem humana não saberia exprimir.
    • A experiência mística é comparada a um estado intermediário entre o sono e a vigília, cuja memória permanece inacessível ao corpo e à linguagem.
  • A noite profunda em cujos limbos os dois giravam era a esfera onde se move o sol dos mundos visíveis.
    • O sol dos mundos visíveis é apresentado como pertencente à esfera mais obscura em relação ao que acabaram de vislumbrar.
  • Wilfrid disse a Minna que era preciso descer, e ela respondeu que deveriam fazer como o Serafim havia dito, pois tendo visto os mundos em marcha para Deus, conheciam agora o bom caminho, e seus diademas de estrelas estavam lá em cima.
    • O diálogo entre os dois é: — Desçamos lá embaixo. / — Façamos como ele disse. Depois de termos visto os mundos em marcha para Deus, conhecemos o bom caminho. Nossos diademas de estrelas estão lá em cima.
  • Wilfrid e Minna rolaram pelos abismos, reentraram na poeira dos mundos inferiores e viram de repente a Terra como um lugar subterrâneo, cujo espetáculo lhes foi iluminado pela luz que traziam em sua alma e que os envolvia ainda de uma nuvem onde se repetiam vagamente as harmonias do céu em dissipação.
    • A Terra é percebida como um lugar subterrâneo, invertendo a hierarquia habitual entre alto e baixo.
  • O espetáculo que se apresentou era o que outrora feriu os olhos interiores dos Profetas: ministros de religiões diversas todas proclamadas verdadeiras, reis todos consagrados pela Força e pelo Terror, Guerreiros e Grandes se dividindo mutuamente os Povos, Sábios e Ricos acima de uma multidão ruidosa e sofrente que esmagavam ruidosamente sob seus pés — todos acompanhados de seus servidores e mulheres, todos vestidos de ouro, prata e azul, cobertos de pérolas e pedras preciosas arrancadas das entranhas da Terra, roubadas do fundo dos Mares, e pelas quais a Humanidade havia durante longo tempo se empregado, suando e blasfemando — mas essas riquezas e esplendores construídos de sangue foram como velhos farrapos aos olhos dos dois Proscritos.
    • A visão que então se abre é identificada como aquela que outrora atingiu os olhos interiores dos Profetas.
    • Reis, guerreiros, sábios, ricos e ministros religiosos são vistos revestidos de riquezas arrancadas da Terra e do Mar pelo sofrimento humano.
    • Essas riquezas e esplendores, construídos de sangue, aparecem aos dois como velhos farrapos.
  • Wilfrid interrogou por três vezes aqueles que estavam alinhados e imóveis, e ao terceiro chamado todos entreabriram suas vestes e deixaram ver corpos ressecados, roídos por vermes, corrompidos, pulverizados, trabalhados por horríveis doenças.
    • A pergunta de Wilfrid é repetida três vezes: — Que fazeis assim enfileirados e imóveis?
    • Somente à terceira interpelação, com a imposição das mãos, os poderosos respondem revelando seus corpos em decomposição.
  • Wilfrid proclamou que aqueles conduziam as nações à morte, que haviam adulterado a terra, desnaturado a palavra, prostituído a justiça, e que depois de ter comido a erva dos pastos, agora matavam os rebanhos, afirmando que iria avisar seus irmãos capazes de ouvir a Voz, para que pudessem ir se abastecer nas fontes que haviam ocultado.
    • O discurso de Wilfrid é: — Conduzis as nações à morte. Adulterastes a terra, desnaturastes a palavra, prostituístes a justiça. Depois de ter comido a erva dos pastos, matais agora os rebanhos? Acreditais estar justificados mostrando vossas chagas? Vou avisar aqueles de meus irmãos que ainda podem ouvir a Voz, para que possam ir se abastecer nas fontes que escondestes.
  • Minna disse a Wilfrid que deveriam reservar suas forças para orar, pois ele não tinha nem a missão dos Profetas, nem a do Reparador, nem a do Mensageiro, e que, estando ainda apenas nos confins da primeira esfera, deveriam tentar franquear os espaços sobre as asas da oração.
    • Minna estabelece uma distinção entre a missão dos Profetas, a do Reparador e a do Mensageiro, afirmando que Wilfrid não possui nenhuma delas.
    • A fala de Minna é: — Reservemos nossas forças para orar; tu não tens nem a missão dos Profetas, nem a do Reparador, nem a do Mensageiro. Ainda estamos apenas nos confins da primeira esfera, tentemos franquear os espaços sobre as asas da oração.
  • Wilfrid e Minna trocaram entre si palavras de amor e de força, reconhecendo-se mutuamente como o único ser com quem a alegria e a tristeza eram compreensíveis, e se comprometeram a orar e a caminhar juntos, pois conheciam o caminho.
    • O diálogo final entre os dois é: — Tu serás todo o meu amor! / — Tu serás toda a minha força! / — Vimos os Altos Mistérios, somos um para o outro o único ser aqui embaixo com quem a alegria e a tristeza são compreensíveis; oremos, portanto, conhecemos o caminho, caminhemos.
  • Minna pediu a mão de Wilfrid, dizendo que se fossem sempre juntos, a via lhe seria menos rude e menos longa, e ele respondeu que somente com ela poderia atravessar a grande solidão sem se permitir uma queixa.
    • O diálogo é: — Dá-me a mão — disse a Jovem. — Se formos sempre juntos, o caminho me será menos rude e menos longo. / — Contigo somente — respondeu o Homem — poderei atravessar a grande solidão sem me permitir uma queixa.
    • Minna concluiu dizendo que iriam juntos ao Céu.
  • As nuvens vieram e formaram um dossel sombrio, e de repente os dois amantes se encontraram ajoelhados diante de um corpo que o velho David defendia da curiosidade de todos e que quis sepultar ele mesmo.
    • David é o velho servo que vela o corpo de Séraphîta e recusa a curiosidade alheia, querendo realizar ele mesmo a sepultura.
  • Lá fora, eclodia em sua magnificência o primeiro verão do século dezenove, e os dois amantes creram ouvir uma voz nos raios do sol, respiraram um espírito celeste nas flores novas e se disseram de mãos dadas: “O imenso mar que reluz lá embaixo é uma imagem do que vimos lá em cima.”
    • O verão do século dezenove é o enquadramento temporal do retorno ao mundo sensível.
    • O diálogo é: — O imenso mar que reluz lá embaixo é uma imagem do que vimos lá em cima.
  • O senhor Becker perguntou a Wilfrid e Minna para onde iam, e eles responderam que queriam ir a Deus, convidando-o a vir com eles.
    • Becker é o pai de Minna, personagem que representa a racionalidade e o mundo terrestre ordinário.
    • O diálogo final é: — Para onde vão? — Queremos ir a Deus — disseram eles. — Venha conosco, meu pai?
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