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Clarice Lispector (Crônicas): Dies Irae

domingo 24 de maio de 2020

Eu não sabia que só o meio-termo não é pecado mortal. Eu tinha vergonha do meio-termo. Os pecados são mortais não porque Deus mata, mas porque eu morro deles. Eu é que não pude arcar com os pecados mortais. O que não consegui com eles é isto o que hoje me violenta e a que respondo com violência. Os meus pobres meios canhestros não me conseguiram nem terra nem céu e a fúria me toma. Ah mas se por um instante eu entender que a fúria é contra os meus erros e não contra os dos outros – então esta cólera se transformará nas minhas mãos em flores. Em flores e em coisas leves e em amor. Eu ainda não sei controlar meu ódio mas já sei que meu ódio é um amor irrealizado e meu ódio é uma vida ainda nunca vivida. Pois vivi tudo – menos a vida. E é isto o que não perdoo em mim e como não suporto não me perdoar então não perdoo os outros. A este ponto cheguei: como não consegui a vida quero matá-la. A minha cólera – que é ela senão reivindicação? – a minha cólera – eu tenho que saber neste minuto raro de escolha – a minha cólera é o verso de meu amor.


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