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ROSEA CRUZ

Pessoa: Philosopho Hermetico I

Seleção do espólio do autor por Pedro T. Mota

sexta-feira 1º de agosto de 2014

Excertos de «ROSEA CRUZ

«E a Gnose», perguntou ele, «o que sabem os senhores do que foi realmente a Gnose? Tratam-na ainda, e a tratarão sempre, como uma seita religiosa, um movimento herético. Há, é verdade, quem se lembre de a considerar como uma sobrevivência de qualquer cousa anterior ao Cristianismo. A ideia é justa, muito justa, mas como é errado, ao mesmo tempo!»

«Assim como na vida há dois lados — o lado pelo qual ela é exterior, luz, vida pratica, logar do senso comum, da ciência, da arte, da filosofia, e o lado pelo qual ela é O DESCONHECIDO — assim há duas ciências — a ciência que o senhor conhece, a metafísica que sabe, e a outra ciência, a que se não sabe ostensivamente nunca, a que não se socializa ou torna conhecida, a ciência oculta, a magia, que os senhores não só ignoram, como ignorarão sempre, porque, pela natureza das coisas, são condenados a ignorá-la. Bem sei, bem sei que a curiosidade moderna se vai aproximando em alguns pontos da ciência; mas á medida que ela se aproxima, a outra recua. O milagre — isso a que chamam milagre existe, creia-o senhor. Mas quando se tenta investigá-lo desaparece. Parece á razão vulgar — e está na natureza útil das coisas que assim seja que é porque o milagre não existe. Não é. é porque ele não é sociável, não é passível para a ciência exterior, que em livros e experiências se estuda e ensina.»

Verão o que se averígua dos fenômenos chamados do espiritismo. Não se averiguará senão, quando muito, certas coisas ininteressantes. O modo real e íntimo como eles se dão — esse não é revelável.

Ninguém lê os livros de ciência hermética que se tem publicado. E quem os lê ou os põe de parte rindo, ou os abandona tediento de os não ter podido compreender. É que na própria natureza da magia está providencialmente envolvida a impossibilidade de ela — a ciência suprema — se poder tornar publica como ciência. Mais lhe direi — porque não ha mal em dizer lho — o saber da ciência real anda envolvido em nem sequer pensar em divulgá-la. As razões lógicas e superficiais, já lhas dei. As razões intimas e essenciais nem sequer posso pensar em querer dar lhas. Não me compreende bem, porque isto não é para que se compreenda? Lembra-se do que dizia Jesus? «Que quem compreender isto que o compreenda? «É o filósofo hermético a falar da ciência real aos outros. Mas por mais que queira não quer nunca revelá-la. De maneira que tudo o que diz, tem de o fechar com essa frase «quem poder compreender que compreenda». E ha quem possa compreender. Há iniciados ab origine. Digo-lhe isto, porque não lhe revelo nada. Quando perceberão os senhores o sentido real, portanto não literal, daquela frase de Jesus: e alguns foram eunucos desde o ventre materno, e outros fizeram-se eunucos pelo reino dos céus». Que ingenuidade a sua julgando que eunuco quer dizer eunuco ou que reino dos céus tem que ver com reino ou céus ou qualquer coisa que nas palavras transpareça!»


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