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O GOLEM

Meyrink : A Lenda do Golem

Excertos de trad. francesa vertida para português

terça-feira 29 de julho de 2014

Excertos da versão francesa de « Le Golem », vertida para português.

— Eu estava pensando nos sobretudos que estavam balançando ainda há pouco; parece-me tão estranho quando o vento faz mexer objetos sem vida — disse rapidamente Prokop como para justificar seu silêncio. — É realmente esquisito quando objetos que até aquele momento estavam imóveis e como mortos, começam a se levantar e flutuar, vocês não acham? Um dia em que estava numa grande praça vi alguns pedaços de papel rodopiar com fúria selvagem — apesar de eu não sentir o vento, pois me encontrava ao abrigo de uma casa — perseguindo-se um ao outro como se quisessem destruir-se mutuamente. Num segundo estavam calmos e imóveis outra vez, para recomeçar a correr em todas as direções, enfurnando-se nos cantos, e se espalhando como possessos e, finalmente, acabaram por desaparecer definitivamente atrás de uma esquina.

Somente um jornal deixara de segui-los; estava na calçada, abrindo e fechando-se ruidosamente como se estivesse arfando sem fôlego.

Recordo-me que fiquei preocupado, com uma dúvida horrível: no fim de nossas vidas chegaríamos a ser como aqueles pedaços de papel? Não seria um "vento" invisível e misterioso a nos impulsionar em todas as direções, comandando nossas ações, enquanto em nossa ingenuidade estamos convencidos de gozar de nosso livre arbítrio?

Que tal se nossa vida não fosse nada mais que um inexplicável torvelinho de vento? Aquele mesmo vento de quem a Bíblia pergunta: «Sabes tu de onde ele vem e para onde ele vai?»... Não acontece, às vezes, que sonhamos mergulhar em águas profundas e apanhamos peixes prateados, quando, na verdade, tudo não passa de uma corrente de ar frio que se insinua entre nossas mãos?

— Prokop, você está falando igual a Pernath, o que é que está acontecendo? — perguntou Zwack com ar desconfiado.

— A história do livro Ibbur que ouvimos ainda é pouco — é uma lástima que você tenha chegado tão atrasado, assim você não pôde ouvi-la. Foi isso que o levou a meditar —- disse Vrieslander.

— A história de um livro?

— Pela verdade, é uma história sobre o homem que trouxe o livro e que tinha uma aparência esquisita. Pernath não sabe o nome dele e nem onde ele mora, ou o que é que ele queria, e apesar de ele ter uma aparência marcante, não se pode descrevê-lo com certeza. — Zwack ouviu com atenção.

— Isso é realmente interessante — disse após um breve intervalo:

— Este estranho não era imberbe e com os olhos oblíquos?

— Creio que sim — respondi. — Aliás, tenho certeza disso. Você o conhece?

O apresentador de marionetes sacudiu a cabeça. — É que ele me lembra o Golem.

O pintor Vrieslander deixou cair sua faca.

— O Golem? Já ouvi muito falar nele. Você sabe alguma coisa a respeito, Zwack?


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