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A Filosofia no Tempo.

Pessoa: OS ARGUMENTOS DE ZENÃO DE ELEIA

António Quadros (org.)

domingo 27 de julho de 2014

Excertos do livro organizado por António Quadros, "A procura da verdade oculta". A Filosofia no Tempo - sobre o pensamento grego; presumivelmente de 1906 e 1908, traduzido do original em inglês.

Aos argumentos de Zenão de Eleia os seus contraditores opuseram só três ordens de razões, todas elas falsas:

1) Os que, como o solvitur ambulando atribuído a Diógenes o Cínico, respondem afirmando o facto aparente, o que Zenão não negou como aparente, senão como real; o que é como se eu, afirmando que «vi» o objeto de uma alucinação minha — o que é indubitável, visto que é uma alucinação minha — julgam provar com isso a sua realidade.

2) Os que explicam a sofística de Zenão como inevitável dado que se toma o espaço, ou o movimento, ou ambos, por «realidades». Tal argumento não o é; é concordar com Zenão. Ele mais não afirma que, se forem tidos o espaço e o movimento como reais, se mostrarão, como tais, absurdos, isto é, se mostrarão irreais.

3) Os que, considerando o movimento nem como coisa nem como simples conceito, o consideram todavia como relativamente coisa, como função de um corpo, por assim dizer... Nada importa esta hipótese ao argumento de Zenão. Negado o movimento como função do ser, queda pensada [?], por exclusão da única hipótese contra, a «imobilidade» como função dele. E é isso que constitui um dos pontos essenciais da metafísica dos Eleates [variante: da filosofia dos Eleates].

O essencial, na idéia de movimento, é o conceito de posição. Se considerarmos a posição de um corpo como um facto estranho a ele, não poderemos responder a nenhum dos argumentos dos Eleates. Desta forma, porém, considerando a posição de um corpo, isto é, o lugar, a porção de espaço, que ocupa (relativamente a outros corpos) como um atributo do próprio corpo, como um elemento diferente da sua própria essência, teremos, ao mesmo tempo, respondido aos argumentos de Zenão e aberto uma porta nova ao problema. Porque assim o corpo que se move foi deixando de ser, por mover-se, o mesmo corpo, visto que vai mudando de posição, e a posição é, por hipótese, um atributo, ou generalidade definidora ou delimitadora do próprio corpo. Nada se «move»: tudo muda.

Chegamos, assim, ao conceito da posição como quarta dimensão.

(A posição é o estado temporal de um corpo?)

Durar é deslocar-se. Nada pode durar ficando no mesmo sítio. Assim o tempo é, não uma quarta dimensão do espaço, senão a condição dessa quarta dimensão. Dizendo de outro modo: a posição, sendo a quarta dimensão de um corpo no espaço, é a sua segunda dimensão no tempo. (?)

O tempo não é uma condição do espaço, senão uma condição do conhecimento — e por isso do conhecimento do espaço.

O que espacialmente é mudança de posição é temporalmente mudança de ser. (?)

O movimento é o nome que damos ao facto de um corpo deixar de ser o que é essa coisa das duas dimensões, que é a posição. — Mas nas outras, permanece o mesmo?

Há corpos simultâneos? Se os há, como o são? O tempo é dimensão de cada corpo? Que quantidade de tempo?

O tempo é sinônimo, ou não, de simples existência?

Se o tempo fosse uma dimensão não haveria corpos simultâneos.

É só «instantaneamente», ou antes, extratemporalmente que qualquer corpo existe. O tempo «faz» com que seja outro corpo. O tempo é uma antidimensão. Toda a linha reta é portanto reta logo que não «dure».

Tudo quanto é expresso em termos de tempo, é expresso em termos de aquilo, em termos do que nada pode ser expresso.

Serão o tempo e o espaço coordenadas? (O destino de cada ser determinável por elas.) (A astrologia explicável como esta coordenação?) A metafísica é uma geometria, ou supergeometria, a três coordenadas — tempo, espaço e ser (consciência)?

(«Zenão de Eleia, e o Problema do movimento.»)
A esfera como infinita, ou centros como infinitos. Mas o raio da esfera? [texto presumivelmente de 1912-1913]

O argumento de Zenão não nega o movimento no universo: afirma apenas que o facto de haver movimento no universo mostra que o universo não é uma realidade absoluta, não é o ser — porque o movimento não é (o argumento prova-o) característica do real, do ser.


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