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A Filosofia no Tempo.

Pessoa: PENSAMENTO DE KANT

António Quadros (org.)

domingo 27 de julho de 2014

Excertos do livro organizado por António Quadros, "A procura da verdade oculta". A Filosofia no Tempo.

Alma numenal e alma fenomenal. Vejamos agora que a característica do fenômeno é a Lei. A alma fenomenal dificilmente pode escapar a esta regra.

A razão humana, muitas vezes no caminho certo, sempre distorceu a viagem pelo seu falacioso apelo à razão, pelo seu desejo de tudo explicar para que ela própria possa compreender.

Platão, sobre a alma entrando no corpo: a base da teoria está certa; o que está errado é o que depende do raciocínio. Uma alma numenal dificilmente pode «escolher».

Quando me apercebi deste frequente e importante erro, logo decidi tomar em linha de conta o intelecto humano, convencido como estava, como antes de mim Kant, de que o homem se serve constantemente da sua razão sem conhecer o seu poder e a sua capacidade.


1. Conhecemos as coisas, não como são, mas apenas como nos aparecem (Kant).

Tantos homens — tant de sensations.

A sociedade vulgarizou a sensação. A vulgaridade da nomenclatura e das sensações comuns adquiridas são as causas da uniformidade do nosso pensamento e do nosso sentimento.

Um homem que viveu numa região onde não havia relógios, ao chegar a uma região onde os há, e ao ver um relógio pela primeira vez, sente-o de uma forma completamente diferente de um nativo dessa região. Daí a total subjetividade do nosso conhecimento (idealismo subjetivo).

A matéria não existe — como matéria. Apenas existe como matéria por meio dos nossos sentidos. Para um rústico uma, árvore é uma árvore; para um poeta é mais do que uma árvore. E de algum modo desta forma que vemos a matéria através da deficiência da nossa percepção espiritual. Tal como as montanhas que, quando vistas de longe parecem escarpas as mais nuas e estéreis, mas, que, vistas de perto, nem mostram rochedos, nem nenhuma espécie de aridez, mas antes vales e grandes espaços de terras cultivadas.

Somos espiritualmente fracos; quer dizer — unicamente somos capazes, enquanto não nos servimos dos nossos poderes mais amplos e profundos, de uma compreensão material.

No entanto temos em nós o poder de perceber a verdade, não a verdade fenomenal mas a numenal. Asseguro agora, e sempre assegurarei — que o homem ficou aquém do mistério do universal unicamente à relutância de pensar com profundidade.

Uma falta de força de vontade, assim o parece — se não absolutamente, pelo menos suficientemente repressiva -, está sempre ligada aos mais fortes poderes do pensamento. Os grandes gênios têm sempre esta falha.

Idealismo objetivo: Leibnitz.

Idealismo subjetivo: Fichte.


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