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A Filosofia no Tempo.

Pessoa: CRÍTICA DO MATERIALISMO

António Quadros (org.)

domingo 27 de julho de 2014

Excertos do livro organizado por António Quadros, "A procura da verdade oculta". A Filosofia no Tempo.

O Materialismo assevera que o pensamento é o produto do cérebro, tal como a excitação é o produto dos músculos. Assim todas as funções são os produtos de diversos gêneros de movimento — o pensamento, do movimento das moléculas cerebrais; o sentimento, a sensação, a percepção, do movimento dos nervos, através deles.

Vamos agora criticar este sistema dogmático e metafísico — porque é dogmático e metafísico e condenado à morte intelectual, tanto como o sistema seu irmão — o da teologia e da religião.

Matéria e Movimento, ou matéria ou movimento, ou nem matéria nem movimento.

Se tudo for matéria e a matéria produzir o movimento.

Se tudo for movimento, e o movimento a única realidade, então o movimento em si próprio (Heráclito). Tudo se altera, se move, é deslocado.

Hipóteses:

1 — Só a Matéria é real.

2 — Só o Movimento é real.

3 — A Matéria e a Força são reais e são-no consequentemente com o seu movimento.

4 — Nem a matéria nem a força são reais.


1 — Só a Matéria é real

Em primeiro lugar, o que é matéria, o que é isto que somos chamados a considerar como a base de tudo e da realidade?

Ou apenas temos sensações do mundo e correspondem (de algum modo) à realidade. Consideremos então o que sabemos, à parte a discussão sobre a sensação.

A realidade por detrás de todas as coisas é obviamente aquela que encontramos se pusermos de lado o que são meramente as propriedades e as qualidades das coisas.

A matéria, a verdadeira matéria, é desconhecida, e é a menos material das coisas concebíveis. Mas há uma ideia nossa que parece ser, mas não é, uma propriedade: a pluralidade, o número, a quantidade, quero dizer, (...)

Do caráter inato da ideia de número.

Tem-se dito que o contar, a aritmética, todas as coisas numéricas, são extraídos da experiência. Esta coisa é uma, aquela é outra, a que está mais adiante outra ainda: um, dois, três.

Tudo fica explicado, ou não fica?

Longe disso: tudo é mal compreendido. Decerto podemos (ou não podemos) aprender a contar, somando esta coisa, e a outra, e aquela outra; mas, admitindo-o, ainda não está explicado como sabemos que há uma esta coisa, e uma aquela coisa, e uma aquela outra coisa. Decerto, extraímos a nossa ideia da pluralidade da natureza, porque nela vemos pluralidade. Não fazemos senão realizar como verdadeira uma ideia inata. Para ver a pluralidade em toda a parte temos de nascer para ver. Do mesmo modo, pensamos sem conhecer as leis do pensamento.

Ler o Platão de Fouillée.


Se o erro vem de sensação, não fica o materialismo refutado?


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