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Hymn to Old Age

Hesse (HOA:1) – uma caminhada na primavera

A WALK IN THE SPRING

domingo 22 de novembro de 2020

[HESSE, Hermann. Hymn to Old Age. Tr. David Henry Wilson. London: Pushkin Press, 2012 (ebook), "A WALK IN THE SPRING"]

tradução do inglês

UMA VEZ MAIS AS PEQUENAS gotas de lágrimas brilham nos botões das folhas resinosas, as primeiras borboletas abrem e fecham seus finos mantos de veludo e os meninos brincam com piões e bolinhas de gude. É a Semana Santa, repleta de sons transbordantes, carregada de memórias de ovos de Páscoa de cores deslumbrantes, Jesus no Jardim do Getsêmani, Jesus no Gólgota, a Paixão de São Mateus, entusiasmos juvenis, primeiros amores, primeiros jovens gostos da melancolia. Anêmonas balançam a cabeça no musgo e botões de ouro brilham calorosamente nas margens dos riachos.

Em minhas andanças solitárias, não faço distinção entre os instintos e impulsos dentro de mim e o concerto de coisas crescentes cujas mil vozes me cercam de fora. Eu vim da cidade, onde depois de uma longa ausência eu estava mais uma vez entre as pessoas, e me sentei em um trem, vi quadros e esculturas e ouvi novas canções maravilhosas de Othmar Schoeck. Agora, a brisa alegre roça meu rosto da mesma forma que acaricia as anêmonas que balançam a cabeça, mas enquanto ela gira um enxame de memórias em mim como uma nuvem de poeira, uma lembrança de dor e transitoriedade sobe do meu sangue para a minha mente consciente. Pedra no caminho, você é mais forte do que eu! Árvore na campina, você sobreviverá a mim, e talvez você também, pequeno arbusto de framboesa, e talvez até você, anêmona com cheiro de rosa.

Por um único suspiro, sinto mais profundamente do que nunca a transitoriedade de minha forma e me sinto atraído à transformação - para a pedra, a terra, o arbusto de framboesa, a raiz da árvore. Minha sede é dos sinais da passagem, da terra, da água e do murchar das folhas. Amanhã, depois de amanhã, logo, logo serei você, serei folhas, serei terra, serei raízes, não escreverei mais palavras no papel, não irei mais sentir o cheiro da régia flor da parede, não irei mais carregar a conta do dentista no bolso, não serei mais importunado por oficiais ameaçadores exigindo prova de cidadania, e assim - nuvem nadando no azul, água corrente no riacho, folha de botão no ramo, afundei no esquecimento e na minha transformação mil vezes desejada.

Dez e cem vezes mais você vai me agarrar, me encantar e me aprisionar, mundo das palavras, mundo das opiniões, mundo das pessoas, mundo de prazer crescente e medo febril. Mil vezes você vai me deliciar e me aterrorizar, com canções cantadas ao piano, com jornais, com telegramas, com obituários, com formulários de registro e com todas as suas loucuras e desavenças, você, mundo cheio de prazer e medo, doce ópera cheia de absurdos melódicos. Mas nunca mais, que Deus conceda, você estará completamente perdido para mim, devoção à transitoriedade, música apaixonada de mudança, prontidão para a morte, desejo de renascimento. Páscoa sempre voltará, o prazer sempre se tornará medo, o medo sempre se tornará redenção, e a canção do passado me acompanhará em meu caminho sem dor, cheia de afirmação, cheia de prontidão, cheia de esperança.

David Henry Wilson

ONCE MORE THE LITTLE teardrops stand shining on the resinous leaf buds, the first peacock butterflies open and close their fine velvet cloaks, and boys play with spinning tops and marbles. It’s Holy Week, filled to overflowing with sounds, charged with memories of dazzling coloured Easter eggs, Jesus in the Garden of Gethsemane, Jesus on Golgotha, the St Matthew Passion, youthful enthusiasms, first loves, first young taste of melancholy. Anemones nod in the moss, and buttercups glow warmly on the banks of streams.

On my lonely wanderings, I do not distinguish between the instincts and urges within me and the concert of growing things whose thousand voices encompass me from without. I have come from the city, where after a long absence I was once more among people, and I have sat in a train, seen pictures and sculptures and heard wonderful new songs by Othmar Schoeck. Now the joyful breeze brushes my face just as it caresses the nodding anemones, but as it whirls up a swarm of memories in me like a dust cloud, a reminder of pain and transience rises from my blood into my conscious mind. Stone on the path, you are stronger than me! Tree in the meadow, you will outlast me, and perhaps so will you, little raspberry bush, and perhaps even you, rose-scented anemone.

For a single breath I sense more profoundly than ever the transience of my form, and I feel drawn into transformation—to the stone, the earth, the raspberry bush, the tree root. My thirst is for the signs of passing, for the earth, the water and the withering of the leaves. Tomorrow, the day after, soon, soon I shall be you, I shall be leaves, I shall be earth, I shall be roots, I shall write no more words on paper, I shall no longer smell the regal wallflower, I shall no longer carry the dentist’s bill around in my pocket, I shall no longer be pestered by menacing officials demanding proof of citizenship, and so—swim cloud in the blue, flow water in the brook, bud leaf on the bough, I have sunk into oblivion and into my thousand-times-longed-for transformation.

Ten and a hundred times more you will grasp me, enchant me and imprison me, world of words, world of opinions, world of people, world of increasing pleasure and feverish fear. A thousand times you will delight me and terrify me, with songs sung at the piano, with newspapers, with telegrams, with obituaries, with registration forms and with all your crazy odds and ends, you, world full of pleasure and fear, sweet opera full of melodic nonsense. But never more, may God grant, will you be completely lost to me, devotion to transience, passionate music of change, readiness for death, desire for rebirth. Easter will always return, pleasure will always become fear, fear will always become redemption, and the song of the past will accompany me on my way without grief, filled with affirmation, filled with readiness, filled with hope.


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