Estados de espírito

YEATS, W. B. The collected works of W.B. Yeats IV. New York: Macmillan, 1989.

A literatura difere da escrita explicativa e científica por ser moldada em torno de um estado de espírito, ou de uma comunhão de estados de espírito, assim como o corpo é moldado em torno de uma alma invisível; e se ela recorre à argumentação, à teoria, à erudição, à observação, e parece inflamar-se na afirmação ou na negação, fá-lo meramente para nos tornar participantes do banquete dos estados de espírito. Parece-me que esses estados de espírito são os trabalhadores e mensageiros do Governante de Tudo, os deuses dos tempos antigos que ainda habitam seu Olimpo secreto, os anjos de tempos mais modernos que sobem e descem por sua escada resplandecente; e que argumento, teoria, erudição e observação são meramente o que Blake chamou de ‘pequenos demônios que lutam por si mesmos’, ilusões de nossa vida visível e passageira, que devem ser postos a serviço dos estados de espírito, ou não teremos parte na eternidade.1 Tudo o que pode ser visto, tocado, medido, explicado, compreendido, discutido, não passa, para o artista imaginativo, de um meio, pois ele pertence à vida invisível e transmite sua revelação sempre nova e sempre antiga. Ouvimos muito sobre sua necessidade das restrições da razão, mas a única restrição a que ele pode obedecer é o instinto misterioso que o tornou um artista e que lhe ensina a descobrir estados de espírito imortais nos desejos mortais, uma esperança imortal em nossas ambições triviais, um amor divino na paixão sexual.