Friedrich von der Leyen: LE MÄRCHEN

Friedrich von der Leyen (Romantisme) - Le Märchen

Foi Johann Gottfried Herder quem descobriu o conto popular, definindo-o como vestígio da crença popular, de sua intuição sensível, de suas energias e instintos, de um estado de alma em que se sonha porque não se sabe, em que se crê porque não se vê, e em que se age com todas as forças de uma alma ainda intacta.

A época das Luzes fez pelo Märchen mais do que pensava: não apenas lançou a luva aos românticos, incitando-os a encher seus contos de intenções polêmicas e insolências espirituosas, mas recolheu muitos contos e manteve vivo o interesse por eles, emprestando-lhes as graças e seduções do rococó.

Os contos franceses do século XVIII — sobretudo os da condessa d'Aulnoy — foram acolhidos com prazer fora da França e encontraram imitadores, influenciando Goethe, Brentano e mesmo os irmãos Grimm.

Goethe conheceu desde a infância o Cabinet des Fées e ouvia de sua mãe e avó contos populares verdadeiros, os quais depois narrava a personagens como Frederica de Sesenheim e os irmãos e irmãs de Charlotte.

Nas obras da maturidade, Goethe consagrou a dois antigos contos sua arte plena: O Novo Paris (Poesia e Verdade) e A Nova Melusina (Anos de Andança de Wilhelm Meister).

O Märchen de Goethe — datado da época de amizade com Schiller — deu ao romantismo o impulso criador: sem ele, Novalis e Tieck dificilmente teriam encontrado seu próprio caminho.

O Märchen de Goethe estimulou Novalis, cujo próprio conto deveria igualar e superar o do “vigário da poesia na terra”, despertando o romantismo que ainda ali dormitava.

Novalis confiou seu pensamento a um segundo conto, nos Discípulos em Sais, que exprime suas intuições com mais pureza: Jacinto e Botão-de-Rosa se amam na infância, um velho vindo de longe fala-lhes de Sabedoria, e Jacinto parte para levantar o véu de Ísis — após anos de peregrinação, levanta o véu da deusa e descobre Botão-de-Rosa.

Ludwig Tieck, em suas peças de fadas — O Gato de Botas, Barba Azul, Chapeuzinho Vermelho —, relegou o conto ao segundo plano, desconhecendo suas virtualidades dramáticas e enfraquecendo sua natureza e força; diferente é o caso dos contes que inventou com motivos de lendas conhecidas: Tannhäuser, O Runenberg, Egbert o Loiro.

E. T. A. Hoffmann pode ser considerado o sucessor de Tieck — músico de alto nível e dotado de notável talento de desenhista, o que confere a seus relatos contornos mais firmes e claros.

Brentano — que como Hoffmann “tinha a música no corpo”, segundo Nietzsche, e era também dotado para o desenho — via no conto o ideal do gênero infantil, da piedade e da simplicidade do coração, dons pelos quais aspirou a vida inteira e que lhe foram raramente concedidos.

Jakob e Wilhelm Grimm receberam de Brentano um impulso decisivo: em 1809 chegaram a pensar em ceder ao amigo romântico as riquezas que descobriam na tradição popular — é uma felicidade que não o tenham feito.

Os contos dos poetas românticos foram uma promessa; os dos sábios românticos foram o cumprimento — mas não se devem esquecer as criações de Goethe nem as de seus precursores, os contadores alemães, franceses e italianos dos séculos XVII e XVIII.