A perda do Paraíso assinala onde termina a poesia e começa o romance do homem, pois todas as línguas paradisíacas e poéticas podem também fazer função de arte romanesca — pela palavra, pela música ou pela pintura —, e houve grandes romancistas em pintura e em música: grandes poetas frustrados como Wagner, Verdi, Puccini, Velázquez, Rembrandt e Goya.
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Blake afirmava que a palavra, a música e a pintura são línguas ou linguagem do Paraíso perdido.
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Na pintura que Bergamín chama de romanesca ou poeticamente frustrada — a de Rembrandt, Velázquez, Goya —, o Demônio se mascara ou se desmasca luminosamente.
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Na pintura de Rembrandt, o Demônio se cobre de luz pela sombra para esconder sua vontade obscura; na de Velázquez, ao contrário, se desmasca descobrindo sua sombra pela luz, transparecendo no ar de modo prodigioso.
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O Cristo crucificado de Velázquez é, para Bergamín, um retrato vivo do Demônio — o mais vivo que existe —, pois o Demônio, que se encontrava atrás da cruz, aparece ao pintor incrédulo diante da cruz e é pintado com tão demoníaca exatidão que amedronta.
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O chanoine Gaspar Navarro, no Tribunal de superstición ladina do século XVII, relata que Satanás se transfigura em anjo de luz para enganar e apareceu a santo Antônio sob a forma do Cristo crucificado e, segundo santo Antonino, sob a forma da Mãe de Deus.
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A mecha de cabelos sobre o rosto — o famoso truque de Velázquez — cumpria com enganosa insolência a pérfida vontade do Demônio, escamoteando a figura de Cristo e pintando um demônio dourado, a mais terrível profanação do Cristo e o mais satânico sacrilégio espiritual, religioso e poético que Bergamín conhece.
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Goya, mais torpe que Velázquez, deixou-se apanhar pelo Demônio ao tentar pintar o Homem-Deus, não conseguindo extorquir o corpo ao Demônio e produzindo apenas um nu elegante e crucificado, ao passo que não é necessário ser crente nem supersticioso para compreender que a pintura de Velázquez, Rembrandt e Goya são pinturas do Demônio — uma zombaria de todos os demônios reunidos que simula uma criação espiritual onde não há nenhuma.
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No Adam e Eva de Ticiano, ao contrário, são os anjos que extorquiram os corpos humanos ao Demônio, picando-o e zombando dele num combate espiritual equivalente à situação geométrica dos toureiros com o touro na arena.
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As Sagradas Escrituras, no Livro de Jó, dizem que o Demônio foi a primeira e principal criatura criada pelo Senhor para que seus anjos zombassem dele.
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Santo Atanásio soube que o Demônio apareceu uma vez para queixar-se de que Deus consentia que até as crianças zombassem dele.
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A verdadeira invenção poética é uma angélica zombaria feita ao Demônio; todo arte verdadeiramente poético é um jogo angélico que visa picar ou zombar do Demônio, como nos jogos de crianças.
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Quando o poeta, o pintor ou o músico não zombam do Demônio, é o Demônio quem zomba deles, ficando com sua pintura, música ou poesia.
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O povo católico espanhol respondia espiritualmente pela fé às palavras proféticas do salmista: “eis o Dragão que formaste para zombares dele”; e o texto hebraico fala do Leviatã que Deus formou para que jogasse com o mar.
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Com a areia do mar, os dias e as horas — as horas perdidas — nos são contados pelo Demônio.