SIGNORILE, Patricia. Paul Valéry, philosophe de l’art: l’architectonique de sa pensée à la lumière des “Cahiers”. Paris: J. Vrin, 1993.
O TEMPO ESPACIALIZADO E O ESPAÇO TEMPORALIZADO
O espaço e o tempo são produtos de sensações que só ganham sentido a partir do Eu-corpo, sendo o ser que projeta ao redor de si um recinto fechado cuja clausura é a recíproca da exterioridade de seus sentidos.
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As citações “A continuidade combina sempre o espaço e o tempo” e “Eventos arquiteturais – Encontros das dimensões” são incluídas.
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Para
Valéry, o tempo e o espaço são palavras, e só existem corpos ou pelo menos sensações; uma vida humana é a construção de uma personalidade cujas reações sucessivas aos eventos fazem pouco a pouco uma figura, alguém (por si e para outrem).
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O espaço e o tempo não são absolutos nem formas universais do pensamento, mas relativos aos eixos de referência de cada observador e da posição que ele ocupa no universo.
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O edifício torna-se um dos modelos privilegiados da percepção espaço-temporal, pois a duração vivida e o espaço ali se cristalizam.
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A criação valeriana do tempo é um pensamento da criação contínua, “criação continuamente descontínua”.
A TERMODINÂMICA
A ideia de um tempo absoluto não é concebível no sistema valeriano, pois não pode existir um tempo que se imporia de fora ao pensamento.
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A termodinâmica é uma teoria implícita do tempo que desferiu o primeiro golpe na ideia de tempo absoluto e puro, sendo as teorias clássicas o resultado de construções científicas.
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O segundo princípio ou lei de Clausius-Carnot (degradação da energia, aumento da entropia) é associado necessariamente ao vetor tempo.
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A noção de tempo derivada da termodinâmica se aplica aos diferentes estágios mentais do desenvolvimento de um indivíduo, e o aspecto energético do tempo se capitaliza estando sujeito a modificações intrínsecas.
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Existem tempos provenientes que permitem circunscrever o tempo real, que se reduz a esses sentimentos de possível e impossível ocorridos na história do vivido.
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Na percepção arquitetural, o conhecimento do tempo apoiado pela consciência dá toda a sua dimensão ao modelo da termodinâmica e à atualidade do sujeito.
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O sonho e a vigília podem ser considerados duas fases diferentes do mesmo sistema termodinâmico: o sonho corresponde à fase líquida, enquanto a vigília é assimilável à fase sólida.
A DURAÇÃO
A análise bergsoniana da duração mostrou que, por intermédio do movimento, a duração toma a forma de um meio homogêneo e o tempo se projeta no espaço.
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Valéry constrói o que Bergson desconstrói; a duração bergsoniana não tem utilidade sem definição precisa, e a sensação é variada, sendo a memória que uniformiza.
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Valéry e Bachelard percebem o tempo multiplicando os instantes conscientes, enquanto Bergson toma o tempo cheio de eventos no nível da consciência dos eventos.
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A duração é primeiramente apreendida na consciência do instante a cuja mercê ela está; é a consciência de uma pluralidade sucessiva, descontínua e desordenada, começando pelo nada da consciência.
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A duração em si não existe; ela se cristaliza essencialmente num ato criador: os viventes constroem para durar, duração é construção, vida é construção, reconstrução.
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O conceito de duração em
Valéry antecipa o mesmo heideggeriano: aquilo que reúne espaço e tempo em seu desdobramento pode se chamar espaço de jogo do tempo.
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O advento da temporalidade é solidário do movimento da consciência, que não cessa de se reiterar para se sustentar e fundar o fluxo intencional.
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A questão do tempo é dupla: há um tempo percebido (conteúdo) e tempos funcionais não percebidos que agem sobre os conteúdos, os sofrem e os modificam.
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Kant fez do tempo uma forma da sensibilidade;
Valéry o reencontra ao escrever que o tempo é uma propriedade da sensibilidade, mas só se torna categoria, forma etc. quando se tenta descrevê-lo.
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O movimento no qual a consciência retoma e supera o esfacelamento infinito dos instantes só pode ocorrer se o mundo oferecer cristalizações que assumem o perspectivismo e permitem à consciência se manter como duração.
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O edifício realizado nos mostra numa só olhada a soma das intenções, invenções, conhecimentos e forças que sua existência implica, manifestando à luz a obra combinada do querer, do saber e do poder do homem.
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A música fixa as mudanças? Fazer a experiência dessas mudanças é difícil; o sujeito valeriano permanece fechado em sua subjetividade e em seu tempo, pois não há tempo geral, apenas tempos de sistemas.
ASPECTO HÍBRIDO DO TEMPO
O tempo que flui é retomado e apreendido no presente de quem percebe, sendo recíproco de uma percepção.
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A intuição da duração bergsoniana não é sustentável segundo
Valéry, pois se vê ali aparecer um espaço interior, uma extensão que é o mundo onde Aquiles caminha.
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A duração é uma criação do espírito que mobiliza todos os seus recursos e sua vigilância; como escreveu Heidegger, o tempo só se temporaliza pelo fato de que o homem é.
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Valéry sublinha a importância do presente na compreensão do tempo: a ideia de presente indica que nem tudo muda, completando a ideia de tempo que indica que nada de designável é ou será jamais imutável.
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A realidade valeriana não é mais a coisa acabada, mas o processo genético pelo qual a causa engendra os efeitos, sendo a geração o princípio primeiro da duração.
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O tempo é de natureza híbrida; no instante, no atual, estamos no virtual, e existir consiste em estar no virtual do mundo.
ASPECTO PROTEFORME DO TEMPO
Uma vez reportadas à dimensão originária de individuação ontológica, as considerações valerianas sobre o tempo, o mundo e o eu permitem melhor apreender a natureza e o alcance da intersubjetividade.
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Existe um tempo único, comum a todos, um tempo geral que apresenta a sorte comum de tudo o que não é nós, uma verdadeira membrana transversal do mundo à qual se reportam as durações particulares.
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Afirmar que o espaço e o tempo são separáveis é ilusório: não se divide o espaço, que nada é em si, não sendo visível nem definível.
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Valéry, como os historiadores da arte e os psicólogos das últimas décadas, levou em conta o papel do observador na ilusão espacial; a afirmação de que a proporção é o encontro de um estado da sensação que libera o infinito estético define a perspectiva como o meio de criar novas imagens.
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A forma de um objeto deve ser considerada uma redução de um grupo de operações que geraria o conjunto das formas possíveis – conjunto que é espaço.
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O sentido da palavra espaço é o do possível, e ele é um sistema de medidas de possíveis.
A CONSTITUIÇÃO DO SÓLIDO
Para que o edifício se desvele ao observador, é necessário distinguir dois processos.
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A citação “De repente sou invadido por uma ideia extraordinária da arte egípcia (…) preciso e feito de rigor, basalto, pedra gravada, contornos tão nítidos (…) Eles têm o ar de saber o que ignoramos e de constituir um mundo ideal completo – e no sólido” é incluída.
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O primeiro processo é a estruturação das geodésicas do instante (associação imediata, percepção das cercanias sensíveis, substituições por similitude, por contrastes ou complementares) sem mudança de fases.
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O segundo processo é o espaço verdadeiro, conjunto das ligações de sensações quaisquer com as sensações de ações, resumindo-se na fórmula de produção ou supressão de sensações quaisquer.
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O espaço real, o espaço geométrico e o espaço mental são estratos da espacialidade: no espaço mental a grandeza depende do momento; no espaço real (dos olhos e sensações, não euclidiano) depende da posição; no espaço geométrico depende da unidade.
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O sujeito constrói no tempo como no espaço; o princípio das formas que aparecem decorre das próprias condições do organismo que, ao viver, faz ver e sentir o tempo verdadeiro.
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O espaço não é um fenômeno, especialmente não um fenômeno físico; Kant o inventa, e o espaço é uma ideia confusa em si.
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Apenas a ideia matemática das redes permite pensar o espaço, pois são figuras que podem preencher um espaço, e não há espaço sem imaginação motora: uma linha é uma imaginação.
A ESPACIALIZAÇÃO DA CAUSALIDADE OU OS AXIOMAS DO ESPAÇO
O sujeito imagina a posição dos objetos no espaço segundo características inerentes ao espaço espontâneo, que se oferece naturalmente por abraçamento visual.
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Valéry entende por “axiomas do espaço” a espacialização da causalidade, quaisquer que sejam os objetos ou percepções compreendidos num domínio visual/tátil instantâneo.
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A causalidade se objetiva e se espacializa pouco a pouco para ligar não mais exclusivamente impressões musculares a redes sensoriais exteriores, mas a deslocamentos objetivos.
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A causalidade supõe, em todos os graus, uma interação entre o eu e as coisas, consistindo numa organização do universo relativa ao conjunto das relações estabelecidas pela ação e pela representação entre os objetos e entre o objeto e o sujeito.
DO ESPAÇO GEOMÉTRICO AO ESPAÇO ESTÉTICO
O espaço geométrico é necessariamente um espaço construído, enquanto o espaço em sua realidade imediata é co-extensivo à visão e aos deslocamentos.
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As citações “A estética é propriamente uma hipertrofia do sentido do possível” e “Estética, ciência da construção espontânea, das formações pelo receptor – das criações pela necessidade – da passagem da necessidade à satisfação – menor esforço – máximo rendimento (olho)” são incluídas.
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O espaço de nossa experiência imediata é plástico: ele contém em potência as modificações de nossa própria posição, os deslocamentos imaginários do sujeito no mundo.
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O belo arquitetural é a construção real de um corpo que nos devolve a ideia de uma construção possível, sendo um tipo do possível infinitamente variável.
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A estética valeriana é especificamente arquitetural e se apresenta como a fenomenologia do espaço enquanto espaço do corpo.
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O templo contrai os modos de ser espaço-temporais numa classificação uniforme, formando uma espécie de grandeza completa na qual vivemos e nos movemos na obra do homem.
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A percepção que vai do espaço ao tempo e depois retorna ao espaço, desta vez organizado, desvela na globalidade de ser objetos que, uma vez construídos, aparecem como o fundamento de todas as experiências possíveis.
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A mobilidade do corpo no espaço não afeta em nada a identidade do objeto consigo mesmo, e o edifício, em sua alteridade temporal, encerra todos os pontos de vista que os espectadores apreendem.
A REAÇÃO CIRCULAR
O espaço não é concebido pela percepção de um continente, mas sim pela dos conteúdos, ou seja, dos próprios corpos.
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A noção de espaço se compõe dos objetos que nele se constroem e da regularidade do equilíbrio que ali se cria, parecendo existir no espaço grupos práticos anteriores a toda consciência ou percepção.
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A descrição da gênese do espaço deve se centrar na de grupo, e o espaço arquitetônico se torna substrato do tempo, possibilitando a unificação em fenômeno do que é percebido como diverso.
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A solução de
Valéry consiste em construir um espaço topológico que dá continuidade à análise e à síntese.
O ESPAÇO-TEMPO
A crítica einsteiniana da duração objetiva destrói o absoluto do que dura, mantendo o absoluto do que é, isto é, o absoluto do instante.
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As citações “(Einstein) desenvolve sua incerteza e sua fé fundadas na arquitetura (ou beleza) das formas (…) Ele pode proceder como eu teria querido proceder pelas vias das formas” e “A relatividade é compreender que o que se passa é sempre relação entre o fenômeno e o observador” são incluídas.
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O interesse da teoria da relatividade, da qual as ideias filosóficas de
Valéry dependem em parte não desprezível, faz desmoronar o trinco dos absolutos do espírito, e o tempo e o espaço cessam de ser formas a priori da sensibilidade.
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Valéry não vai até o fim das implicações que ele mesmo destacou, pois evidencia a incapacidade prática do modelo científico no domínio da aplicação, pedindo à arte o poder que o modelo da ciência não deu.
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A teoria da relatividade inaugura uma nova maneira de representar a armadura ontológica do universo, pois ela encerra a concepção dualista do universo que opõe um mundo pronto e acabado a um sujeito que o pensa sem se comprometer com ele.
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Toda teoria da relatividade poderia se reduzir a isto: não existem variáveis independentes.
A TOPOLOGIA
Os espaços textuais do signo e o visível discursivo dos significantes arquiteturais são símbolos geométricos.
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Valéry reterá da análise situs de Poincaré as noções de deformação e continuidade, que aplicará ao homem e ao conhecimento.
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Com a arquitetura,
Valéry quer fazer ver o espaço e não mais ocupá-lo, fazer ouvir o tempo e não mais fazê-lo passar, afirmando assim uma filosofia do espaço e da consagração do contínuo no descontínuo.
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O complexo espaço-tempo-arquitetura releva de um atomismo de tríplice essência, sendo monadas afirmadas em comunicação com as coisas e especulação sobre o finito.
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O arquiteto não cria o espaço, mas sua representação; a arquitetura é um modelo de ciclo fechado que povoa a liberdade do olhar com objetos que impõem atos virtuais bem encadeados que lhe respondem.