SIGNORILE, Patricia. Paul Valéry, philosophe de l’art: l’architectonique de sa pensée à la lumière des “Cahiers”. Paris: J. Vrin, 1993.
A EXPERIÊNCIA CONSTRUTIVA
A transcrição da experiência corporal só pode ser feita em detrimento do vivido, pela irrupção da consciência de si que age como uma espécie de lacuna ou interrupção em um circuito.
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A consciência se assemelha ao reflexo, cria a continuidade no descontínuo sem assegurar uma função contínua, sendo apenas uma resposta.
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O conhecimento especular é um outro modo de captura do individual, que se completa pela encontro dos Outros, os quais são para
Valéry tantos outros Eus.
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A demonstração de que corpo e espírito não são entidades separadas nem absolutas, mas formam um todo, ocorre a contrapelo do pensamento platônico e cartesiano.
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A evidência sobre a qual
Valéry investiga se situa na experiência do cotidiano, sendo a presença do corpo em sua materialidade solidária não apenas da consciência do próprio corpo, mas também do dos outros.
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A citação “pensar o mundo abstração feita do homem é um contrassenso” é incluída.
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Valéry coloca em jogo um pensamento dialético que busca e sonda a unidade da consciência, supondo para esta a possibilidade de visar o mundo em modos diferentes.
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Questiona-se como o conhecimento pode parecer independente do corpo em seu funcionamento e como, para ser conhecimento, deve esconder, mascarar ou não conhecer esse funcionamento.
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Valéry renegará toda forma de idealismo intelectual, pois o objetivo do conhecimento é representar a si mesmo a si mesmo.
A CONSCIÊNCIA DE SI
Por volta de 1899, Valéry interessou-se pelo corpo segundo uma terminologia vizinha da filosofia empirista e dos ideólogos, definindo a consciência do corpo por uma excitação externa.
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Em 1922, ele sublinha a importância do corporal vivido ao nomear os cadernos de “diário de meu corpo”, elaborando uma ontologia da subjetividade e uma filosofia do corpo na qual o corpo dos seres é o sistema de referência de seus atos e é universo.
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A respeito de “A Jovem Parca” e “A Pítia”,
Valéry teve o sentimento de ser o único poeta a ter tentado seguir o tratamento fisiológico da consciência, servindo o funcionamento do corpo como baixo-contínuo.
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A pensamento não se liberta totalmente de sua origem e conserva, na estrutura de seus signos, o modelo do fazer e do gesto humano, e a base e o solo dos pensamentos é o conjunto métrico corporal de atos.
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À maneira dos ideólogos,
Valéry mostrou como a consciência está a serviço da adaptação biológica, despertando a cada dificuldade e dando consistência ao pensamento.
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Um movimento duplo se desenha no cerne da turbulência sensorial e faz surgir a noção fundamental de esquematismo corporal, que anuncia a de esquema corporal.
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A consciência possui um corpo, isto é, um conjunto de funções que se organizam entre si a partir do vivido corporal e do estímulo do mundo exterior, exigindo a interação de C.E.M. (Corpo, Espírito, Mundo).
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O corpo é da ordem da evidência apodítica, pois o espírito está à mão do corpo e o corpo toca e faz tudo, mas sua experimentação é delicada devido à existência de duas fontes da experiência: o que se vê de si mesmo e o que jamais se verá.
A CONSCIÊNCIA COMO REFLEXO E O CORPORAL VIVIDO
Através da experiência mediata do corpo, eleva-se progressivamente a consciência de existir e de se modificar, sendo essa consciência interna do corpo uma maneira de expressar o universo.
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A citação “Meu objeto – buscar uma forma capaz de receber todas as descontinuidades, todo o heterogêneo da consciência” é incluída.
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Tomar consciência é essencialmente uma localização que implica a associação de um sistema de movimentos; ao despertar, encontra-se um corpo ou antes uma região do corpo.
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A consciência valeriana é da ordem do reflexo, uma espécie de perturbação do equilíbrio do vivido imediato, na qual alguns transtornos fazem com que a solidez e a arquitetura se desagreguem e a composição do edifício se torne consciente.
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A consciência não é sinônimo de unidade, mas de pluralidade e complexidade, aparecendo primeiro como divisão local e depois como substituição de uma pluralidade por uma unidade.
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O duplo projeto valeriano do estudo da consciência e de sua arquitetura, assim como do conhecimento considerado como uma construção, demonstra a existência de uma nova filosofia situada no cruzamento do kantismo, da fenomenologia e do existencialismo nascente.
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A consciência se nutre das informações sensitivas do corpo, não é um resultado espontâneo, mas um trabalho que emerge das profundezas, sendo necessariamente refletida.
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A citação “tomar conhecimento (das coisas) é separar-se delas – vê-las nitidamente, prevê-las, é não estar ali” é incluída.
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O corpo-interior serve a
Valéry de instrumento de pesquisa, de cifra para escrever o primeiro termo da equação C.E.M., sendo o C (corpo) o desconhecido onde se enraízam todos os instantes.
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A primeira sensação do orgânico se produz por cenestesia, um sentimento de conjunto composto por todas as impressões sensíveis e musculares, percebendo-se o corpo diretamente, não como objeto, mas como forma.
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É possível eliminar otimamente a imagem constitutiva e social da individualidade, sentindo-se então o sujeito em uma plenitude de ser que é vivida imediatamente e percebida como escoamento da energia do universo.
O CORPORAL VISTO, OU VER-SE PARA SABER-SE
Valéry escolhe como hipótese de trabalho o “aspecto estranho” do conhecimento do corpo através de sua imagem, com o objetivo de demonstrar, por outra postura, a construção de si.
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A citação “É estranho que o homem não conheça sua própria aparência senão por um espelho e até mesmo sua forma” é incluída, mostrando que sem o espelho o sujeito não teria meio interno para sentir seus membros.
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O conhecimento de si acompanha-se de um reconhecimento pela imagem, não sendo dado ao sujeito conhecer-se integralmente fora da experiência especular.
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Para
Valéry, como mais tarde para Lacan, o estádio do espelho remete à construção da função Eu, sendo o controle da imagem especular o protótipo da captura identificadora pela imagem da fundação de si, mas também o lugar da perda de si.
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A imagem especular é composta por um conjunto de estruturas que funcionam diversamente, como em “sou sendo e me vendo; me vendo me ver e assim por diante”.
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Observando a própria mão,
Valéry nota que se está nela e não se está, “ela é eu e não eu”, provando o caráter ambivalente do existido como do existente.
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Merleau-Ponty analisou essa singular ambivalência, segundo a qual a relação das coisas e do corpo é singular, fazendo com que às vezes se permaneça na aparência e às vezes se vá às próprias coisas.
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O corpo objetivo, ou “meu corpo”, não é uma imagem simples, mas a presença complexa misturada de potências, sendo enfim o invariante principal; o “verdadeiro corpo” é o que se repete e se reencontra por uma quantidade de caminhos diferentes.
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Valéry antecipa Merleau-Ponty ao mostrar que a imagem especular é o resultado da percepção, e que entre o sentiente e o sensível se faz uma espécie de inversão, uma centelha que não cessará de brilhar.
OUTREM: UMA DIMENSÃO PLÁSTICA
O corpo visível e móvel, que é alternadamente sensível e coisa, faz surgir uma verdadeira estratificação da entidade corporal.
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As citações “Remexendo meus velhos papéis (…) remexo também retalhos ou momentos desses tempos muito antigos – entre os quais essa sensibilização característica que foi egotismo agudo, negação essencial, vital do Outro” e “A ironia de Sócrates é uma relação distante, mas verdadeira, com outrem” são incluídas.
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Haveria dois grupos do sensível: um que se consolida e converge para uma construção (o mundo exterior) e um segundo, o sensível livre (dor, prazer), que distingue uma porção – o corpo.
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Valéry define o “corpo-outrem” como, por um lado, parte de um sistema ou meio e elemento, figura momentânea desse meio, e, por outro lado, como único, essencial, insubstituível, condição primeira e inevitável de toda coisa.
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O corpo é a experiência de base sobre a qual se funda o vivido, sendo também “corpo mundano”, “corpo visto por”, “tocado por”, noções que dão ao Outro e ao Eu uma dimensão plástica.
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A realidade efetiva das relações inter-humanas aparece como uma incessante e vã tentativa de recuperação do insaciável ser para outrem.
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Valéry adota uma espécie de alteridade em sua relação com outrem, confessando sua tendência a negligenciar os outros ou a vê-los como coisas ou bichos curiosos.
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O mundo de
Valéry, como o de Sartre, povoa-se pela experiência de uma tensão, tornando possíveis a intersubjetividade e a sociabilidade, embora o ser social seja um epifenômeno para
Valéry, enquanto para Sartre é fundamental.
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“O ser visto por” torna-se um modo de conhecimento ambivalente; o olhar do Outro faz nossa existência se desvelar tornando-se objetal e significante.
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O Outro, que a consciência anexa em sua tentativa de enfrentamento e domínio, torna-se uma espécie de escravo, e o olhar, após um breve intercâmbio, o domina e o assujeita.
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Desse enfrentamento surge a irredutibilidade do Outro; o ver de outrem é um índice da identidade e da diferença.
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A citação “Como a estatuária depende da luz, assim um ser é transformado ou transfigurado pelo momento e o olhar que se aplica a ele” é incluída.
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Da experiência do corpo à do corpo que traduz,
Valéry define a operação da consciência como o estado do pensamento onde o maior número de variáveis mentais estão ligadas umas às outras.
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A linguagem matricial do corpo se substitui à vida real por um movimento totalizador que reúne o próximo, o sujeito e o ambiente na unidade sintética de uma objetivação em curso.
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O espírito é uma estrutura organizada, um sistema de relações como no edifício, um conjunto; a consciência é um potencial.