KIERKEGAARD E ANTÍGONA: TRAGÉDIA, CULPA E INTERIORIDADE MODERNA
STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.
Indisponibilidade da leitura goethiana para o jovem Kierkegaard
A interpretação conclusiva de
Goethe
sobre Antígona não estava acessível a Kierkegaard no momento decisivo de sua formação
A primeira referência a
Sófocles
nos Papirer surge de modo indireto e quase alegórico
A figura de
Sófocles
é mobilizada como símbolo de uma força espiritual capaz de ressurgir contra diagnósticos de decadência do cristianismo
A anedota tardia da defesa de
Sófocles
diante do tribunal funciona como emblema de vitalidade espiritual extrema
Antígona como figura existencial central em Either/Or
A presença de Antígona não deriva de erudição ocasional, mas articula dimensões fundamentais da existência e do pensamento de Kierkegaard
Antígona torna-se, por um período, uma das figuras mais íntimas da identidade espiritual do filósofo
A leitura de Antígona opera como forma de autorreconhecimento indireto e dramatizado
Dificuldades estruturais da interpretação kierkegaardiana
Problemas de tradução conceitual do dinamarquês
Termos decisivos não encontram equivalência adequada nem mesmo no alemão
O empréstimo vocabular ao idealismo alemão é submetido a inflexões radicalmente pessoais
Ambiguidade da relação efetiva com Hegel
A influência hegeliana é manifesta, mas o grau de leitura direta dos textos permanece indeterminado
Obstáculo decisivo do discurso indireto
A exposição se dá por meio de ironia reflexiva, hipóteses encadeadas e autonegações sucessivas
Nenhuma afirmação pode ser isolada como posição definitiva
Forma literária e método comunicativo
Rejeição da exegese sistemática
A verdade se manifesta de modo fragmentário e pródigo
A obra acabada rompe o vínculo com a personalidade poética viva
O discurso como drama
O texto deve ser lido como execução vocal, à maneira de um ator
O pensamento emerge do confronto entre vozes e posições
A Antígona de Either/Or como drama fragmentário
A figura é encenada dentro de um meio dialético-dramático mais amplo
Inserção no horizonte romântico
Revalorização do romantismo de Kierkegaard
Mesmo a crítica ao romantismo conserva traços românticos de autoironia
A Antígona como parte de um ensaio fragmentário sobre o motivo trágico antigo e moderno
A moldura dos symparanekromenoi evoca fraternidades noturnas e funerárias típicas do romantismo
Estética do fragmento
A forma aforística e descontínua pertence à retórica romântica europeia
Hibridismo genérico
Convivência de discurso filosófico, memória pessoal, ficção, cartas e análise crítica
Inserção no gênero das Saturnais literárias
Precedentes formais e literários
Influência de Luciano e Petrônio como modelos remotos
Precedente decisivo de Lucinde, de Friedrich Schlegel
Mistura escandalosa de revelação íntima, erotismo e reflexão filosófica
Obra profundamente conhecida por Kierkegaard
Afinidades temáticas
Musicalidade, segredo, interioridade noturna e contenção diurna
Exaltação prévia de Antígona no romantismo inicial
Antiguidade e modernidade trágica
Lugar comum da comparação entre tragédia antiga e moderna
Tradição que remonta ao século XVII e culmina em
Goethe
e
Victor Hugo
Mediação aristotélica reinterpretada por Hegel
A Poética é lida à luz da Aesthetik
Inserção de Kierkegaard no vocabulário hegeliano da tragédia
Uso explícito de conceitos como colisão e eticidade
Tese inicial sobre o desenvolvimento histórico
Permanência do desenvolvimento no interior do conceito
Transformação radical da experiência do trágico ao longo do tempo
Objetivo principal
Demonstrar como o caráter específico da tragédia antiga é interiorizado na moderna
Trágico e responsabilidade
Diagnóstico da modernidade
Época de isolamento individual e gregarismo frenético
Predominância do cômico como produto dessa tensão
Melancolia moderna
A modernidade é mais desesperada do que a antiguidade
Centralidade da responsabilidade
A tragédia trata da aceitação da culpa
Diferença entre tragédia antiga e moderna
Estrutura da tragédia antiga
O indivíduo está inserido nas categorias substanciais de Estado, família e destino
Estrutura da tragédia moderna
Predomínio da subjetividade reflexiva
O herói responde inteiramente por seus atos
Herança hegeliana explícita
A distinção entre épico objetivo e drama psicológico
A culpa trágica como eixo de transição ética
A passagem do estético ao ético
A culpa torna-se ética quando é reflexivamente assumida
Superação da categoria estética
O mal e a culpabilidade são propriamente éticos
Originalidade sintética
A tragédia plena sublima o estético antigo na reflexividade ética moderna
Permanência da relação e superação do isolamento
Limites do solipsismo
O indivíduo permanece vinculado a Deus, à história, à nação e à família
Entrada no trágico por meio da relatividade ética
A aceitação dessas relações possibilita a cura
Instrumentalidade do estético
O estético serve integralmente ao ético
Essa função confere à tragédia uma doçura infinita
Mediação do religioso
Analogia materna e paterna
O estético como amor materno
O religioso como amor paterno
Hierarquia funcional
O ético é temperado e consumado pelo religioso
Centralidade existencial
Sem o trágico ou o religioso, a vida humana se esvazia
Distinção entre tristeza e dor trágicas
Definição dos conceitos
Tristeza trágica verdadeira
Dor trágica verdadeira
Tragédia antiga
Tristeza mais profunda
Dor menos intensa
Ausência de consciência reflexiva plena da culpa
Tragédia moderna
Dor mais aguda
Tristeza menos ampla
Transparência implacável da culpa pessoal
Culpa, transparência e obscuridade
A culpa grega
Ambiguidade estética
O sofrimento vem de fora, como destino
A culpa moderna
Interiorização total
Dor associada ao saber da própria culpa
Polaridade bíblica
A herança hebraica introduz a noção de culpa inocente
Culpa herdada e paradoxo trágico
Contradição interna da culpa herdada
Ser culpa e não ser culpa simultaneamente
Aceitação piedosa da herança
A assunção da culpa como ato ético fundamental
Necessidade dialética
A tragédia exige elementos gregos e hebraicos
Exige tristeza e dor, opacidade e transparência
Antígona como síntese trágica
Antígona como filha da tristeza e da dor
A tristeza não refletida do mundo antigo
A dor reflexiva do mundo moderno
União dialética das categorias
Antígona concentra a ambiguidade estética e a consciência ética
Antígona como figura liminar
Ponte entre tragédia antiga e moderna
Encarnadora do conceito de culpa trágica em sua forma mais complexa
Steiner
,
Antigona
,
Kierkegaard