Olhar Vazio

EDGAR POE OU LE REGARD VIDE, par Jean-François Mattéi

A publicação original do conto ocorreu em dezembro de 1840 na The Burton’s Gentleman’s Magazine, na Filadélfia, periódico que passou a se chamar The Graham’s Magazine com aquele número, e a versão definitiva saiu cinco anos depois em Nova York e Londres.

Os dois olhares

A trama da narrativa é apresentada de forma muito simples, envolvendo um narrador anônimo que, convalescente, observa a rua de um grande café londrino.

A perseguição do velho através do Londres nebuloso leva o narrador por um labirinto de ruas escuras, bazares, avenidas elegantes e bairros sórdidos, enquanto a noite avança.

O conto de Poe se tensiona entre dois olhares, ou duas contemplações, que se equilibram a partir de um terceiro olhar, de natureza bem diferente.

O flâneur de Baudelaire

A comparação entre os títulos inglês e francês da narrativa revela uma leve ambiguidade, pois Poe fala de the crowd enquanto Baudelaire entende as foules, ambos destacando a singularidade do homem que se perde nela ou nelas.

O homem das multidões de Poe

As indicações da estética baudelairiana e de sua paráfrase benjaminiana correspondem ponto por ponto à cena de abertura de L’Homme des foules no café.

Quatro leituras graduadas e convergentes são propostas para desvendar o enigma do relato: uma leitura política, uma ontológica, uma ética e, apenas esboçada, uma leitura teológica.

A figura do duplo

O motivo do duplo percorre toda a literatura romântica do século XIX, de Chamisso a Dostoiévski, passando por Hoffman, Nerval, Maupassant, Stevenson e Oscar Wilde.

O olhar de Deus

A trama policial de William Wilson é idêntica à de Édipo Rei, onde o investigador se confunde com o criminoso sem o saber, assistindo-se ao desdobramento de uma única consciência dilacerada.

A inversão do olhar vazio em um olhar pleno, ou a reversão da ignorância em conhecimento, torna-se necessária tanto em Poe quanto em todo investigador.