Caminho do despertar (Gustavo Meyrink)

UKIM

Resumo

O homem carece do começo não por dificuldade de encontrá-lo, mas pela ideia preconcebida de que é preciso buscá-lo.

Uma existência verdadeiramente nova só desponta quando essa pergunta é levada a sério, capaz de varrer os pensamentos que parasitam a alma.

Quem não aprende a ver na terra certamente não aprenderá no “além”.

A chave do poder sobre a natureza inferior enferrujou desde o Dilúvio — e essa chave se chama “estar desperto”.

O primeiro passo para o despertar é tão simples que qualquer criança o daria, mas o extraviado esqueceu como caminhar.

A sensação “AGORA ESTOU DESPERTO” revela, por contraste, que o estado anterior era torpor e sonolência.

Os banhos rituais gelados dos judeus e dos brâmanes, as vigílias dos discípulos de Buda e dos ascetas cristãos, os tormentos dos fakires indianos são rituais externos cristalizados.

Quem quer vencer a morte — cuja armadura é o sono, o sonho e o embotamento — precisa subir de um degrau de despertar ao seguinte.

O homem que desperta não mais aguarda humildemente que uma divindade cruel conceda sua graça.

Todos os que vivem a terra como prisão e todos os crentes que clamam por redenção evocam inconscientemente o mundo dos fantasmas.

No caminho do despertar, o mundo dos fantasmas revela que seus habitantes são apenas pensamentos que de repente se tornam visíveis.

Esse é o estigma de todos os que foram mordidos pela “Serpente do mundo espiritual”.

A luta pela imortalidade é uma batalha pelo controle dos sons e fantasmas que habitam o interior; a espera para que o “Eu” se torne Rei é a espera pelo Messias.

O início do caminho é o próprio corpo — e quem sabe disso pode começar a jornada a qualquer momento.

Separar-se do corpo não significa abandoná-lo, mas libertar-se dele como se separa a luz do calor.

O corpo usa armas para manter seu domínio: a vida cessaria se o coração parasse; a consciência mergulha na noite ao fechar os olhos.

Ficar imóvel como uma estátua revela como o corpo se rebela com ódio, temendo perder o controle.

As próximas armas que o corpo envia são enxames de pensamentos esquivos.

Depois desse estado, apresenta-se o domínio dos fantasmas — aparições aterrorizantes ou esplêndidas que parecem seres de outro mundo.

Ninguém sabe se será dado ao viajante compartilhar as forças prodigiosas dos antigos profetas ou se ele está destinado à paz eterna.

Um dos que ainda possuem a chave da magia permaneceu na terra para buscar e reunir os chamados.

Aquilo que o homem religioso acredita sobre Deus é apenas um estado que ele mesmo poderia alcançar, se acreditasse em si.