Prefácio de Julius Evola

MeyrinkAJO

Resumo do Prefácio (Julius Evola) à tradução francesa

O Anjo na Janela do Ocidente é um dos últimos romances de Gustav Meyrink, entrelaçando temas já presentes em obras anteriores, como a reconstituição romanceada da vida de um personagem histórico e a identificação de um ser vivo com um personagem de outro século.

O personagem histórico escolhido por Meyrink é John Dee (1527-1608), sábio e adepto das disciplinas herméticas, astrológicas e mágicas da época elisabetana.

Alguns elementos do romance carecem de comprovação histórica, enquanto outros são fatos documentados.

Outros fatos do romance são igualmente reais: a grande reputação de sábio que Dee conquistou na Inglaterra e em outros países europeus, suas numerosas viagens, o incêndio do castelo de Mortlake, o desentendimento com Kelley e a morte de Dee em Mortlake, em dezembro de 1608, na mais completa miséria.

A trama do romance não se apoia em quimeras reencarnacionistas, mas numa teoria mais séria: todo ser humano seria a manifestação de uma entidade — um deus ou um demônio — anterior e superior à sua vida terrena limitada.

Para indicar a realização em questão, Meyrink retoma a doutrina do andrógino espiritual, ligada no esoterismo ocidental ao misterioso símbolo templário do Baphomet e, sobretudo, ao símbolo hermético e alquímico do Rebis (res bina: natureza dupla).

As “Bodas Químicas” possuem significação operativa e podem remeter a uma técnica especial de magia sexual conhecida por diferentes tradições.

Meyrink menciona entre as técnicas tradicionais o vajroli-tantra, mas seu conhecimento desta prática era deficiente e superficial.

O “encanto das bolas vermelhas” parece ser uma experiência ligada à técnica de uma asfixia parcial: vapores ou fumaças tóxicas seriam inalados pelo neófito na presença de um mestre que o ajuda a vencer a crise e manter-se consciente durante a mudança de estado.

O uso do espelho mágico para “ver” ou “comandar” é mencionado no romance, mas exige que o operador tenha superado provas como as das fumaças tóxicas e seja capaz de “sair” — isto é, de se desligar ativamente da consciência das condições corporais.

Bartlett Green é um dos principais personagens do romance, ligado a formas arcaicas da iniciação escocesa e ao culto de Isaïs — divindade feminina que se revelará ser a Ísis adorada na Antiguidade em certos meios da região do Ponto.

Meyrink alude a uma iniciação pelo ódio — pouco conhecida — e a experiências baseadas no prazer erótico exacerbado por um ódio desmesurado entre indivíduos de sexo diferente.

A origem das iniciações masculinas é, segundo a Tradição, boreal — o que confere à “Groenlândia”, cujo sentido literal é “Terra Verde”, o caráter de terra mística e simbólica.

O papel de Jane-Jeanne no romance é longe de ser claro, assim como os traços de John Dee na “encarnação” do barão Müller não revelam precisamente os aspectos viris de um iniciado em sua ligação com Jane.

Na sua primeira existência, John Dee foi decepcionado de várias maneiras: primeiro, ao interpretar em sentido material o simbolismo hermético da “Rainha”, das “Bodas” e da conquista da “Groenlândia”.

O romance comporta um ensinamento real ao denunciar o erro tanto da mediunidade quanto de certo gênero de magia cerimonial.

O simbolismo do Ocidente e da “Terra Verde” possui significação mais ampla do que a evidenciada no romance.

No final do romance, onde Meyrink utiliza certos símbolos dos Rosa-Cruzes — como os da rosa e da arte da jardinagem —, ele fala também de um centro supremo do mundo (Elsbethstein, ideia análoga à do Agarttha da tradição indo-tibetana), sede de uma Ordem que controla invisivelmente os destinos dos homens.